quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Antes que venha O Ano Do Tigre...

...nada como uma tarde bem passada, de neve e frio, em Shofuku-Ji (聖福寺), o mais antigo Templo Zen do Japão, cuja edificação, remontando ao Ano de 1195, é atribuída ao Monje Eisai Zenji (栄西禅師 - 1141-1215).
Fica aqui, a uns escassos quinhentos metros de casa, em Hakata, mas, por motivos vários, pouco lá passo.
Hoje, véspera do Ano Do Tigre, não queria deixar de lá ir uma última vez antes do costumeiro rito de passagem.

O céu parecia, de um certo prisma, não favorecer a visita, ainda breve que fôsse.

Uma neve suave.
Uma ligeira interferência na textura do ar.
Como essa sasameyuki (細雪), intraduzível, que deu título original à obra de Tanizaki Jun'Ichiro (谷崎潤一郎) mais conhecida entre nós pelo nome "As Irmãs Makioka".

Há algum tempo que queria escrever qualquer coisa sobre o Shofuku-Ji.
Vai-me escapando o tempo e o engenho.

Pensei antes em conceder-lhe o privilégio de inaugurar um ciclo de artigos que trago em mente há algum tempo, e ao qual achei por bem atribuir o nome genérico de Capítulos Omissos, por versarem, na sua totalidade, sobre temas e lugares por mim visitados ao longo deste tempo que me viu de passagem por este Japão, mas que, por império d'este ou d'aquele contratempo, aqui não calharam em seu momento próprio.

O dia de hoje, e a tímida neve que lhe deu a côr, quiseram antecipar este meu passo.

À vossa disposição: um lugar onde reposam (e reflectem) Almas Antigas...

...à cabeça das pontes sobre um rio d'oblívio...

...na margem da mais-ocidental das cidades deste Oriente...

...e cujo céu d'Inverno, antes que venha o Ano Do Tigre, reclama que o vosso olhar se detenha...

よいお年を - Yoi o'toshi wo.
Feliz Ano Novo.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

メリー クリスマス! - Lê-se "Meri Kurisumasu"...

Feliz NATAL a todos os leitores, amigos e quem vier por bem e a todos os demais que por cá passem, são os votos do coração do vosso NanBan.

...E não abusem das gulodices que vos faz mal (...ai que saudades de umas farturas... de uma rabanadazinha em vinho-do-Porto, que isso por cá não se arranja... ai, ai...).


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

23/XII: Parabéns Ten'O!

Hoje, 23 de Dezembro, dia do 76º Aniversário de Sua Majestade, o Ten'O (天皇) Akihito, Soberano do Japão, pontífice da mais antiga monarquia em exercício no Mundo, a qual remonta à longínqua data do Ano 660 A.C.
A data em si é o último feriado do ano no País do Sol-Nascente.
Muito poderíamos aqui dizer acerca do Ten'O, da sua eventual (ir)relevância no Japão d'hoje, da natureza das suas funções enquanto patriarca da Casa Imperial Nipónica e de Chefe de Estado, da sua menos conhecida e distinta carreira como Ictólogo - seguindo, aliás, neste campo, as pisadas de seu pai, o Imperador Shôwa (昭和天皇) - do muito ou pouco ou muito pouco que os d'aqui se permitem descortinar, de íntimo ou de público, sobre o assunto - esta é matéria de mais silêncios que falatório -, do passado que o antecedeu e do futuro que está ainda e sempre por escrever.

Da minha parte gostaria só de dizer que gosto muito do Ten'O.
Gosto dele, tenho por ele uma simpatia e um carinho quase-filiais, como se eu próprio de súbdito de facto do mesmo me tratásse; é daquelas coisas que não se explica, não dá direito a debates ou devaneios: sente-se. No coração. Pronto.

Eles podem dizer o quiserem e bem lhes apetecer sobre Sua Majestade e o papel da monarquia aqui, que tanto se me dá como se lhe deu. Couldn't care less. Eu gosto do Ten'O e penso que ele é uma figura de relêvo e a última força fundacional da Alma do Japão. Sem Ten'O, o Japão seria, de uma vez por todas, um país amputado do seu próprio coração. Por isso, fico feliz de ver O Imperador sorridente e de saúde, acenando à nobre gente que o veio saudar, hoje, ao Kokyô (皇居).
Parabéns Ten'O! Muita Saúde e Felicidade. Conte muitos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Da persistência da memória


Ele há dias assim. Dois ou três dissabores de enfiada. Uma quezília com os astros, assim dá de parecer. E depois há aquela minha melancolia crónica, que teima em dar sinais de vida em alturas destas. Coisa de fígados, diriam os nossos egrégios avós...

E num dia assim, nada como ser presenteado com um recuerdo desses de valor mais emocional que outro que se lhe queira atribuir, com as côres correctas e um peculiar ar-de-sua-graça.


Foi ao passarmos, pela tarde de ontem, pelo Museu Nacional de Kyushu (九州国立博物館 - Kyushu Hakubutsukan), em Dazaifu, nos arrabaldes da nossa Fukuoka, que demos de caras com o simpático artefacto na imagem, ali, relativamente incógnito, esse tenugui (手拭い) invocativo da memória NanBan por terras de Kyushu... A Etsu insistiu em dar-mo de prenda de dia-não, se há lá coisa para dar em dias destes... Coisa boa para sorrir como um miúdo a quem é dado um brinquedo novo... Até porque é particularmente reconfortante, em dias de má-memória como o de ontem, constatar haver merchandising deste com fartura em lugares como o Kyushu Hakubutsukan - havia lá, entre canetas, postais-ilustrados, blocos de notas, pisa-papéis e bibelots ligeiros para gostos menos exigentes, todo um sem-número de pequeninas lembranças dessas de fazer o gosto ao dedo ou de dar de omiyage quando se visita a família por cá, invocativos de uma certa portugalidade remota, todas elas ostentando a invariável carraca, essa icástica Nau do Trato, o Kurofune (黒船 - a Nau Negra) como lhe chamavam os daqui, e que nos idos de quinhentos, e por mais de seis décadas, ligou as praças de Gôa, Macau, Malaca e Nagasaki, entre longas e arriscadas empreitadas da fortuna prometida por mares d'Oriente, na reclusa solidão da tormenta, e que os ilustradores dos byôbu (屏風) de então trataram de imortalizar num certo imaginário colectivo.

E tudo isto não seria mais que um anedótico fait-divers, não fôsse o facto de por esse Japão fora, este vosso NanBan ter tantas vezes sido confrontado com a mais cruel e inusitada das ignorâncias acerca do seu país de origem: isto num país que além de afamadamente próspero e tido por 'educado' (era há não tanto tempo assim um dos campeões pêsos-pesados do investimento público em matéria de educação), viveu perto de um século da sua história com o nome de Portugal escrito nos respectivos anais, e que para além de uma muito significativa presença hoje de uma vasta comunidade imigrante Brasileira - e de uma forte e bem propagandeada ligação ao país que por seu turno acolheu, desde 1908, vários fluxos migratórios oriundos daqui -, reconhece a importância desta presença transoceânica, dando à Língua Portuguesa um merecido destaque de que não comungam outros idiomas ocidentais - veja-se, a título de exemplo, que em qualquer ATM aqui, figura um menú de opções/acções que além do idioma nacional contempla o Mandarim, Coreano, Inglês e, pasme-se, o PORTUGUÊS, assim bem escrito e claro, e não há espaço para mais (Français, Deutsch, Español, ficam de fora). Pois é verdade, caríssimos: já por uma mão-cheia de ocasiões, autóctones presumivelmente (bem-)educados, me perguntaram sem trejeitos de descaro que língua se fala em Portugal, fora as vezes, que já lhe perdi a conta, que nem com um planisfério à frente ou sequer um mapa da Europa diante dos olhos me souberam apontar com o dedo o país do Kurofune. Nem invocando o nome de São Cristiano Ronaldo o mais das vezes sequer lá vão.
E assim sofre o nome da Lusa Pátria no Mundo.

Valha-nos haver quem insista em remar contra esta maré vazante do oblívio colectivo e faça por vindicar a memória que é de todos, como os mentores desse exemplar NanBan BunkaKan (南蛮文化館 - Museu/Galeria da Cultura Nanban), instituição privada sita em Osaka, que recomendo a todos os interessados nestas coisas da lusitanidade no Mundo, e se por lá passardes.

Bom fim-de-semana a todos.

気をつけて / Ki o'tsukete.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ao cair do pano: hoje e sempre, em sentida homenagem a Yukio Mishima - 25.XI.1970


Foi há 39 anos.
A 25 de Novembro de 1970, Yukio Mishima interpretava o último acto da sua própria tragédia.
Lembramo-lo hoje, e sempre.


***


Sendo certo ser este um espaço onde a Língua Portuguesa é privilegiada em detrimento de todos os demais idiomas que eventualmente lhe confeririam maior visibilidade, e em proveito de todos os quantos, partilhando a língua do respectivo autor, se interessam ou interessaram um dia pelo Japão, o breve excerto desse documentário do canal televisivo ARTÉ, desta feita em versão germânica, com que hoje vos brindo, é, sem dúvida, uma das melhores peças sobre o Último dos Samurai e a sua derradeira gesta heróica.

Aos que de entre vós, e como eu, têm o respectivo Alemão menos aguçado ou do dito idioma nada entendem, sugiro que façam o impossível por encontrar a versão original do mesmo documentário (em Francês, assim estou em crer) ou noutro que dominem, o visionem, dele aprendam e depois meditem.

A Mishima, ao Camarada de Tragédia, hoje lhe dedico um sentido grito: 万歳!
- Banzai!, que significa, literalmente, "Dez Mil Anos!".



quinta-feira, 5 de novembro de 2009

03.11: Bunka No Hi (文化の日) - Dia da Cultura

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3 de Novembro é sempre assim: "Bunka No Hi" (文化の日), "Dia da Cultura" - feriado nacional no Japão.

Pela manhã, Sua Majestade, o Ten'O (天皇), cerimoniosamente assistido pelo 1º Ministro (Shushou - 首相) atribui distinções a um número de eméritas figuras, homenageando os respectivos desempenhos em prol da Cultura e identidade nacional Nipónica. Este ano foram cinco as personalidades reconhecidas.

A tarde é preenchida com Kendo. O "Torneio de Kendo de Todo-O-Japão" (全日本剣道選手権 - Zen Nippon Kendo Senshuken), via de regra recebido no prestigiadíssimo Budokan (武道館) em Tóquio, é sempre o momento alto deste dia. Esta foi a sua 57ª edição.

A vitória coube uma vez mais a Uchimura Ryoichi (内村良一), 29 anos de idade, 5º Dan (五段) agente da Polícia Metropolitana de Tóquio, que teve pela frente um destemido Takahashi Hidehito (高橋秀人), contando este a mesma idade do primeiro, bem como o respectivo Dan e profissão. Para os interessados, tudo o mais sobre este evento poderão apurar, ao detalhe, aqui.


NOTA FINAL: Já no fecho da edição de hoje, não resisto a deixar-vos, em jeito de brinde, este pequenino clip (bem mais cativante que a minha caseira amostra, acima, captada directamente do ecrã da televisão, via handicam, e à falta de melhor...) em diáfana slow-motion, onde nos é dado contemplar em pormenor, e em breves 50 segundos, o magnífico ippon que ditou a vitória do dia.

O'tsukaresama deshita!


domingo, 18 de outubro de 2009

Flores Da Noite



Estranha é a noite.
Em Hakata.
Onde silhuetas se escondem e o silêncio das ruas se alumia, no céu sem estrelas de uma noite de Outubro...

Bem-vindas ó luzes saídas das sombras!
À hora da ceia de Sábado, eis o Hakata Tōmyō em todo o seu esplendor.
Entrai. A noite é vossa...
A "Festa das Lanternas" (博多灯明) em Hakata vem todos os anos por esta altura, ainda que em data incerta, mas sempre a um Sábado.
A imagem de cima foi captada da varanda de nossa casa. A grande Kame (亀) e os peixes, seus acólitos.

O ano passado a figura era esta (creio que não a tinha partilhado convosco antes):

Dois Katatsumuri (蝸牛) com as antenas viradas para nós e o Sol de adereço...

São milhares de pequenas lamparinas em invólucros de papel japonês de todas as côres a cobrir pátios, vias, corredores de acesso, as entradas das casas.



E nós, os transeuntes desta vida, somos levados, a divagar.
Mesmerizados pela profusão de impressões emanadas das pequenas lamparinas...




...que dão um outro ar de sua graça às estátuas dos Deuses...

...à memória de uma Antiguidade não tão remota assim...

...aos lugares onde jamais ousamos...

...às pontes que levam a lado-nenhum...

...aquele recinto ali, que há tanto me aguçava a curiosidade...


Ah! E ei-las:
As Artesãs Da Noite.

Geisha e Maiko-san são visões raras por estas paragens.
Esta é uma chance única para contemplar as Maiko de Hakata na timidez da distância...

...e os que mais se aventuram por terreiros secretos...

Boa-Noite a todos.


NOTA: As fotos são obra da Etsu, que ontem estava ao leme.




segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A IDEIA É MUITO INTERESSANTE, MAS...


...apresentar uma candidatura conjunta HIROSHIMA-NAGASAKI - cidades que distam quase 400 km uma da outra - aos JOGOS OLÍMPICOS de 2020 é manifestamente uma aposta arriscada e de difícil concretização. Em qualquer caso, à partida, eu APOIO.

LER a história aqui.

sábado, 10 de outubro de 2009

BOM FIM-DE-SEMANA. 2:45 Over Tokyo!

É um passeio ligeiramente mais extenso e seguramente bem mais tranquilo que o desses famosos trinta segundos do Tenente-Coronel James Doolittle - e do filme que lhe tomou o nome -, este que hoje, e aqui, vos proponho.

Faça chuva ou faça sol, seja de dia ou de noite, em boa companhia ou solitariamente às voltas perdido entre ruas sem nome nem placa, alucinando quixotescamente entre milhares de neons multicolores iluminando as avenidas de Shinjuku sem princípio nem fim, com Jogos Olímpicos ou sem eles, Tokyo é ainda, hoje e sempre, o Greatest-Show-On-Earth!


Boa Viagem!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Chicago, Madrid, Rio... ou Tokyo?




*
Das quatro cidades, a única onde nunca estive e à qual não guardo especial afecto é a candidata norte-americana, tendo, as três restantes, lugar cativo no meu coração, por vários e concorrentes motivos de simpatia e afinidade.

Sumariamente e começando pela última candidata elencada:

TOKYO-TO (東京都), JAPÃO - à Kyoto-do-Leste, guardo-lhe necessariamente um especial carinho, mais que por ser a majestosa capital do país que me acolhe, sobretudo porque foi nesta imensa megalópole - a mais populosa área urbana do Mundo - que pela primeira vez, já lá vão quatro saudosos anos, experienciei, com comovida surpresa, a delicada e tão gentil hospitalidade nipónica que ainda hoje tanto me impressiona e tomo de referência.
E não obstante a orgulhosa antiga Edo ter levado a melhor à minha mais querida Fukuoka, cidade de meu domícilio - que também ousou, em dada altura, apresentar a sua candidatura a este prestigiadíssimo evento -, de bom grado lhe dou uma terça parte do meu favor.
A dada altura ter-lhe-ia retirado a minha simpatia, ao ter sido previamente estipulado que a recepção dos jogos de Verão implicaria a destruição da mítica lota de Tsukiji - um dos mais emblemáticos lugares da grande Tokyo, que a perder-se inscreveria uma nova nota trágica na história de tão nobre quanto atribulada cidade -, mas tamanha insensatez acabou por sofrer vários revezes, e a área hoje adjudicada à candidatura nipónica é um espaço já antes atribuído a eventos da magnitude dos Jogos de Verão e a justificar o esforço de renovação que agora lhe foi destinado.
Contra a candidatura de Tokyo, ergue-se, curiosamente, uma parte muito significativa da opinião pública japonesa, hoje muitíssimo mais crítica do que outrora face a "extravagâncias" desta monta, nos quais o Japão é pródigo no abrir dos cordões à bolsa, e sobretudo sendo o tempo presente, virtude da crise financeira que bateu de súbito à porta, uma época de veementes apêlos à contenção e à "moralização" dos dispêndios públicos, discurso que aliás foi muito convenientemente apadrinhado pelo Partido Democrático do Japão e pelo seu líder Yukio Hatoyama, ambos recentemente brindados com uma estrondosa vitória nas eleições legislativas de Agosto.
Acresce - não sendo este necessariamente o mais pesado dos senões ao "bid" nipónico - que esta seria - se contarmos com a atribuição abortada de 1940 - a terceira vez que Tokyo seria chamada a realizar a edição dos Jogos de Verão, e não esquecendo a atribuição às cidades de Sapporo e Nagano dos Jogos de Inverno, em 1972 e 1998 respectivamente.

RIO DE JANEIRO, BRASIL - Onde há Brasil, bate um coração português. Do Rio só tenho nebulosas memórias de uma infância remota - tinha 5, 6 anos de idade quando lá estive pela minha primeira e única vez -, mas o Rio é sempre uma imagem estonteante na grande alucinação lusíada. Querer que o Rio ganhe esta causa, é querer ver nessa vitória algo de nosso - quanto mais não seja a primazia da Língua de Camões no anunciar de provas, títulos e heroismos ao longo das festividades, a ser-lhe entregue a comenda - mas é mais que isso: é um carinho, é um apego de família à Pátria Irmã, essa onde flui tanto do sangue e da Alma de Portugal. Deus Te abençoe ó lindo Brasil.
O Rio tem a seu forte favor o apresentar da sua candidatura num momento histórico de crescente e empolgada afirmação do Brasil no Mundo e sendo este o mais empenhado e apaixonado esforço até hoje visto por parte de um país sul-americano em trazer a grande parada olímpica para o seu continente, o qual nunca colheu a honra e o previlégio de tamanha chance.
De mal com o Rio de Janeiro, é certo e não há como negá-lo, pesa, acima de tudo o mais que se possa nomear, uma triste e dura história bem presente de desvairada violência urbana quotidiana, e esta constitui um embaraço de dificílimo desenleio para a Cidade Maravilhosa. Quero crer que este aspecto flagrantemente negativo para a candidatura carioca não terá sido negligenciado pelos respectivos promotores, mas o certo é que menos ainda o será por parte da instância decisória...

MADRID, ESPANHA - A España quiero mucho y aún más a Madrid. De Madrid tenho muitas e variadas recordações, e é, de todas as cidades de Espanha, aquela onde sempre me senti melhor acolhido.
Como não comungo de quaisquer sentimentos de anti-Castelhanismo primário, a questão de ter a capital espanhola como anfitriã dos Jogos não me faz a mais pequena espécie.
Madrid merece. E a exuberância de Madrid reclama esta oportunidade.
Recuso-me peremptoriamente a conjecturar sobre os hipotéticos benefícios ou malefícios (se os há quem os aponte) que a atribuição desta responsabilidade à terceira maior cidade da União Europeia traria ao vizinho Portugal. É matéria que relego para os especialistas de título e de direito na mesma. Em todo o caso, a candidatura madrilena é a segunda que pior conheço e como tal concluo aqui, e a seu respeito, a minha dissertação.

CHIGAGO, ILLINOIS, E.U.A. - E acerca da moção americana menos ainda tenho a dizer, para além do óbvio de que esta é uma candidatura muito forte e promissora, não obstando serem os Estados Unidos da América o país que possui, no seu currículo, o recorde de concessões na organização dos Jogos, contando o somatório - 8 ao todo - das atribuições referentes ao Jogos de Verão asim como aos de Inverno: Saint Louis em 1904, Los Angeles em 1932, novamente Los Angeles em 1984, e ainda Atlanta em 1996 (Jogos de Verão), recordando ainda Lake Placid, Squaw Valley, novamente Lake Placid e finalmente Salt Lake City, nos anos de 1932, 1960, 1980 e 2002, respectivamente (Jogos de Inverno).

Deixo-vos com o bonito filme promocional da candidatura de Tokyo, muito bem feito:


Gambatte kudasai!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Japão Dos Pequenitos


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O Espírito de Yamato está vivo e recomenda-se.
De pequenito se torce o shinaizito.

Não, não! Desenganem-se aqueles que julgaram (pelo título do artigo) que vos ia falar de um recinto lúdico-temático como esse famoso parque infantil em Coimbra, das minhas delícias de infância.
Não, não. É outra vez o chato do Kendo.

Foi na Quarta-Feira dia 23, Feriado do Equinócio Outonal - 秋分の日(Shūbun no hi) - desde as 9:00 da manhã, no Minami Taiikukan (南体育館 - Ginásio Municipal da Zona Sul) de Fukuoka, e, claro está, eu não estou autorizado a furtar-me a estes eventos - os Sensei Kaneko e Kihara jamais me perdoariam que a um feriado eu me deixásse ficar no conforto do leito manhã adentro...
Toca a acordar seu malandro! E traz a câmera...

Os catraios do vídeo não teriam mais que seis a sete anitos de idade. Digam-me lá que não dá um gozo danado ver aquela garra combativa nos fedelhos!? Future Samurai.

Às cachopas - mais cresciditas - também não falta arte e engenho:

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Enjoy The Shouting!








sábado, 26 de setembro de 2009

Indo o País a votos...


Por opção, mais do que por princípio ou feitio, abstenho-me o mais das vezes de me pronunciar sobre o cenário político do meu país.

É puro e simplesmente um tema de intervenção que há muito deixou de verter um mínimo de interesse que fôsse para mim, tanto o país em causa se tornou (ou deixou tornar), de há umas largas décadas a esta parte, presa da mais vil e abusiva horda de predadores de cargos públicos e clientelas privadas, que só um esgar do meu maior desdém lhe concedo.

Considero-me, para todos os efeitos - ainda que sem descartar um certo lirismo na palavra escolhida - um exilado. Estou aqui virtude da minha mais privada escolha, é certo. O meu país a dada altura entristecia-me tanto, que na hora de partir não hesitei por aí além. E é também certo que é aqui que gosto de estar e onde, paredes meias com todas as dificuldades de integração que me assistem, numa sociedade tão distinta daquela de onde vim e tão fértil em adversidades para quem de fora, dizia eu, é aqui que tenciono levar a minha vida - por muitos e bons anos, assim conto. E é por esse motivo que o que por cá vai acaba, muito naturalmente, por ter maior pêso no meu pensamento e opções temáticas.

Também, por opção, e também por princípio, quiz, desde o início, que este espaço não se tornásse tanto num confessionário umbilicocêntrico - como alguém recentemente tão bem qualificou (não exactamente nestes termos retorcidos mas recorrendo a outros relativamente parecidos) uma parte significativa dos blogues e webpages que abundam no nosso ciberespaço lusófono e não-só - mas quiz sim que este fôsse essencialmente um espaço de partilha de informação e de uma ou outra experiência pessoal que eu, na minha mais empírica vivência dos dias, tomásse por relevante ou digna de ser dada ao escrutínio público - ou quanto mais não fôsse, como dizia aquele slogan publicitário de uma conhecida marca de filmes fotográficos, para mais tarde recordar. Falar muito deste e/ou do mundo-que-há-de-vir não faz decididamente o meu género.
Não tenho jeito para isso.

Também não escondo - é público, basta olhar com um mínimo de atenção para este espaço - que sigo uma série de outros blogues, uns mais outros menos, aguerridamente entrincheirados nas mais diversas militâncias pelas mais dispares causas. No mais dos mesmos encontro alguma substância de valor: seja no opinar ou no estilo prosáico, aqueles que mais me entretêm ou me fazem acusar o toque têm todos eles o seu quê de louvável ou de cativante. Questão de gosto (discutível como todos os outros).

Mas em qualquer recurso, trago ainda e sempre no peito o meu país. Quer queira, me apeteça muito, pouco ou nada, que assim seja, não há como evitá-lo: é a minha Pátria e excede largamente toda a medida de todos os meus sentimentos, por mais que preferisse que assim não fôsse. Penso nessa pedaço do Mundo que me viu nascer todos os dias que passam.

E por isso, a propósito do que amanhã por lá vai, sinto agora uma urgência consumida em falar. Não me ocorre, acerca do teatro político que por lá vai a palco, muito mais do aquilo que disse ainda agora, um pouco mais acima, neste texto.

Dei hoje, força das circunstâncias, uma vista de olhos em diagonal por uma série de blogoespaços a cargo de muitas e eméritas pessoas (o último adjectivo escolhido não carrega a menor ponta de sarcasmo, digo-o com sentida simpatia, quando penso nos casos em que penso: you know who you are!) que não tendo tido, na generalidade dos casos, o prazer e a honra de conhecer pessoalmente, estimo muito no (semi-)anonimato e na distância.
Decidi por isso eleger - fui eu desta a eleger por minha exclusiva conta e risco! - o texto da nossa lusoblogª. no Mundo que mais me dissésse sobre o escrutínio d'amanhã.


Um Grande Bem-Haja, Leocardo!






quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Imagens D'Aqui

O fotojornalismo de primeira água do Mainichi Shinbun (毎日新聞), à vossa apreciação.

E enquanto os tempos são de crise, aqui faz-se o que se pode...


E eles lá poder, até podiam...

...mas para isso, primeiro é preciso que ele tome posse...

...e que antes disso vá ao Ten'O - o nosso Homem Do Leme...

...e só depois disso vai deixar de ter que aturar o outro, e depois disso é que pode então deitar mãos à obra...

...e sem perder a cabeça...

...ajudar a mandar os problemas deste país e do resto do Mundo p'ró espaço...
(calma minha gente!... Não é mais uma daquelas provocações do Kim - nem a resposta, não-sei-quantos meses depois, dos daqui. É mesmo só um foguetão que partiu de Tanegashima na Sexta-Feira para levar uns haveres até à I.S.S.)

...sim, porque aqui nem tudo são rosas...

...e enquanto um tsunami ou uma guerra com a DPRK não são mais que simulácros...

...a malta vai açambarcando o que pode... (Yes, We Can!)

Bem, isto sou só eu a fazer um grande filme (e ela ajuda - e se houver mesmo mocada com a DPRK, aí é que ela ajuda mesmo!)

E se a DPRK quiser mesmo meter-se com a malta d'aqui, eles também dão uma mãozinha!...


Does Japan face same defense challenges as Britain, France during rise of Nazis?



domingo, 13 de setembro de 2009

Desse Maio de '69...













I. Puzzle de paradoxos

"...É bem possível que aquilo que eu designo por 'felicidade' coincida com o que outros interpretarão como um 'momento de perigo iminente'. Pois que esse Mundo no qual eu me imiscuí, sem que o fizesse por recurso ao meio próprio das palavras, preenchendo o meu íntimo com uma 'ideia de felicidade', mais não era que um Mundo Trágico. A tragédia, claro está, era esse 'momento' ainda e sempre por consumar; e, ainda assim, as raízes da tragédia residiam nele; a queda em desgraça era-lhe implícita; e inteiramente despojada de qualquer 'futuro'. Obviamente, a essência dessa minha 'felicidade' era o gozo-em-si de ter previamente adquirido a totalidade das qualificações necessárias para viver nesse Mundo. A base do meu orgulho pessoal era esse sentimento de ter adquirido esse precioso salvo-conduto, não por intermédio das palavras, mas somente pela cultura do corpo e só por ela. Esse Mundo, que era o único lugar no Universo onde me era permitido respirar livremente, e sendo, ainda assim, um espaço tão remotamente distante da trivialidade dos lugares-comuns e tão desprovido de futuro - esse Mundo que eu perseguira incansavelmente, e que desde o desfecho da Guerra, me deixara uma sensação aflitiva de constante frustração. Mas as palavras não haviam desempenhado qualquer papel de relêvo em trazê-lo até mim; bem pelo contrário, elas haviam-me arrastado mais e mais para bem longe dele: pois que até a mais destrutiva expressão verbal nada mais era que parte integrante do tarefário quotidiano do artista."

Yukio Mishima, in "Sol e Aço" (太陽と鐡), 1967


Audio-visual para a posteridade: imagens do lendário debate opondo Mishima aos Zengaku'Ren, Frente Estudantil Unitária (de extrema-esquerda), Auditório de Yasuda, To'Dai (Universidade de Tóquio), 13 de Maio de 1969.
Os que me conhecem, e sobretudo aqueles que me conhecem bem, saberão da sentida reverência que nutro, desde miúdo, pela figura de Yukio Mishima (三島 由紀夫 - nom de plume de Hiraoka Kimitake, 平岡 公威, 14.01.1925 - 25.11.1970), personagem inolvidável e referência maior do Século XX Nipónico, e da influência que o mesmo teve no estreitar do elo sentimental que desde há muito me une ao Japão.

Escritor de assombroso génio - aclamado e celebrado pelos seus pares ainda em plena juventude, por três vezes candidato ao Prémio Nobel da Literatura (reconhecimento que perderia, dois anos antes do seu apoteótico suicídio por Seppuku, em Novembro de 1970, para o seu amigo de longa data e mentor, Yasunari Kawabata, 川端 康成, o qual viria, também ele, a suicidar-se, uns escassos dezasseis meses mais tarde, em Abril de 1972, por motivos muito provavelmente conexos com as circunstâncias da morte do primeiro) -, dramaturgo, encenador, cronista, Kendoshi e Renshi de Iaido, argumentista, produtor e actor ocasional em obras cinematográficas, Mishima tornar-se-ia, em larga medida, mais célebre pelo bizarro processo mental que o levou, num momento avançado da sua prodigiosa vida, a desenvolver uma peculiar obsessão privada pela aquisição de força física-musculada - "própria de um 'corpo heróico'" -, a par da apologia, algo desconcertante, de uma certa concepção - muito pessoal e deveras sui generis - de um Japão tradicionalista focado na figura central do Ten'O - literalmente o Soberano Celestial, mundanamente falando, Sua Majestade, o Imperador, e ao qual se referia como sendo este "a materialização, o símbolo último do Absolutamente Belo" -, tendo apelado, em obras de cariz panfletário e intervenções esporádicas em tribunas várias, à refundação e re-activacção dos valores da Ética Samurai e sobretudo das considerações que haviam presidido aos Shinpuren do Século XIX e aos Gekokujo dos anos 30 do Século XX...

Kawabata e Mishima, aquando da atribuição ao primeiro do Prémio Nobel da Literatura de 1968.

Pessoalmente, inclino-me a adoptar a posição mais benevolente, de que a busca, por parte de Mishima, ao longo da sua vida, e sobretudo nos anos finais da sua carreira, de uma "causa maior" pela qual se bater, terá as suas raízes num emaranhado de causas profundas e complexas, remontando à sua lúgubre e isolada infância, e que só o próprio poderia decifrar, mormente os milhares de páginas que biógrafos, académicos, psicanalistas e exegetas para todos os gostos dispensaram, ao longo das últimas quatro décadas, ao tema.

Mishima elaborou, entre 1960 e o seu suicídio uma década mais tarde, uma série de expedientes vários - se assim o possamos interpretar - entre obras de inegável valor literário, outras de gosto assaz duvidoso (lembremos "As Vozes Dos Mortos Heróicos" - "Eirei No Koe" - 英霊の聲 - de 1966), dramas de palco - como as suas "Modernas Peças Noh" e outras de matriz ocidental -, actuações em filmes de acção e a realização de pelo menos uma obra cinematográfica de sua inteira autoria, que, destinando-se não apenas a firmar o seu nome junto de uma larga audiência de apetites variados, deixava claramente transparecer, a par do que suspeitaríamos tratar-se de uma sede insaciável de notoriedade e protagonismo social e artístico, uma quimera maior em ser imortalizado como uma espécie nova de herói nacional, conceito que o próprio não teria concebido exactamente nestes termos, mas que podemos afirmar como se manifestando enquanto tal, da visão geral que o seu portfolio criativo desse período permite entender. De um outro prisma poderemos afirmar que Mishima, aspirando a uma 'morte heróica', almejava ser um símbolo eternizado, uma ponte de ligação entre a modernidade triunfante do seu tempo e um certo Japão mítico, glorificado nas páginas da História e da literatura clássica do seu país.

Atravessando quase incólume, os anos da Guerra na sua Tokyo natal, graduando-se em Setembro de 1944, com louvor e distinção, no Gakushu'in - o prestigiado e elitista Colégio dos Pares criado no início da Era Meiji como centro educativo para a descendência da nova aristocracia emergente de então - e assistindo atónito, nos meses seguintes, à voragem dos bombardeamentos em tapete que consumiriam a capital na última etapa do conflito - e cuja memória o marca profundamente, vindo, o tema dos bombardeamentos de Março de 1945, a tornar-se imagem recorrente nas suas obras -, o jovem Kimitake recebe a convocatória para se apresentar à inspecção militar em Fevereiro desse ano e submeter-se ao deveres de conscrição, precisamente nesse que era o momento mais crítico da Guerra e em que o Japão enfrentava não somente a iminência de uma invasão em grande escala do seu território pelas Forças Aliadas, mas também, e pela primeira vez na História, a própria possibilidade real de uma aniquilação total.
O destino heróico que o mancebo Hiraoka acalentara como fantasia dilecta da sua mocidade, 'uma morte gloriosa em combate (...) súbita, explosiva, sofrida, anónima entre camaradas' (entre as mais prováveis guias de marcha que poderiam nesta altura calhar a um rapaz da sua condição social e nível académico, seria uma que o levasse até Chiran, em Kagoshima, agora a mais activa base aérea dos Shinpu Tokubetsu Kogeki'Tai - os célebres Esquadrões Especiais de Ataque "os Ventos Divinos"... ) parecia agora mais próximo e inevitável que nunca...
Mas eis senão quando um estranho revés se opera de per si: tomado por uma febre abrasiva e súbita, o pálido e franzino Hiraoka Kimitake é observado por uma junta médica que o toma... por tuberculoso!... O próprio - certamente pela irreprimível interferência do mais humano dos instintos: o de auto-preservação - facilitara a conclusão do diagnóstico, forçando, na hora, uma tosse convulsa, e uma análise apressada ao seu sangue fazia o resto desta rábula...

Mishima escapava assim à última grande mobilização militar na História do Japão, fintando aquela que tomara como sendo a conclusão inadiável e óbvia de uma breve e efémera existência neste Mundo - tinha 20 anos de idade quando a Guerra acabou.

Ironia das ironias: Mishima passaria os meses finais da Guerra adstrito, no âmbito do regime de mobilização civil geral para o esforço de guerra, a um lugar de auxiliar industrial numa unidade de montagem de aviões de combate destinados, na sua maioria, a missões Kamikaze projectadas para o futuro - "a Fábrica do Grande Nada", como o próprio a haveria de apelidar sarcasticamente na sua primeira obra de grande tirada e sucesso, "Confissões De Uma Máscara", de 1948, obra largamente confessional, como o próprio título deixava antever, e onde a par de outras tantas inconfidências, Mishima, então um jovem universitário no término da sua licenciatura em Direito pela Universidade de Tóquio, dissertava despuduradamente sobre a mentira da "tuberculose" que havia engendrado ad hoc aquando da sua sujeição ao escrutínio da junta médica militar, e que o excluira da frente de combate.

E mormente o tom quase insolente que a sua escrita destilava acerca destes e de outros factos, Mishima deixava, porém, escapar ao longo da sua obra, um misto de encantamento e de profundo e genuíno auto-desprezo que tal golpe da fortuna lhe legara...

Esta sucessão encastelada de eventos, remontando até antes desse ominoso Verão de '45, revelar-se-ia determinante para uma apreciação minuciosa ainda que póstuma dos sentimentos dominantes e obsessões do escritor dessas afamadas "Confissões".

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O certo é que, o 'nacionalismo' de Mishima, tardio, quase anacrónico e mais teatral e fetichistico do que real, servindo sobretudo o auto-proclamado propósito (ultra-romântico, quantos o porão nestes termos) da necessidade de uma "morte heróica num corpo heróico", não obstante, colocava o autor de "O Templo Dourado" e da monumental tetralogia "O Mar Da Fertilidade", no final da década de 60, no pantanoso campo da ultra-direita dos Uyoku-Dantai e gente afim, alienando progressivamente o escritor - antes dilecto de audiências de best-sellers - dos circuitos mainstream, a cada ano que passava mais e mais embaraçados com as extravagantes diatribes estético-políticas do autor do texto original, realizador, produtor e protaganista da curta-metragem "Patriotismo" (憂国 - Yukoku), de 1966.


Mishima acerca da Ética Samurai.


II. Fantasia, Militância, Silêncio, Morte

O caso em si não poderia ter contornos piores, não fôsse o próprio Mishima no apogeu deste seu período 'terminal' levar a cabo a mais cabotina das suas encenações no palco do Mundo: a fundação, em Outubro/Novembro de 1968, dos Tatenokai (楯の会) ou Sociedade do Escudo (S.d.E.) - uma mílicia privada formada por um punhado de estudantes universitários de direita ultra-conservadora, na sua maioria oriundos do meio rural, recrutados sobretudo nos círculos académicos da grande Tokyo e agremiados em torno da sua pessoa, votando-se 'à defesa do ideal Imperial na hora da verdade, contra a incompatibilidade do Comunismo (...) e na última e decisiva batalha que será até à morte'.

Apresentados ao Mundo numa conferência de imprensa convocada para o efeito, em 4 de Novembro de 1968, perante uma plateia de repórteres estupefactos com tamanho aparato no mise-en-scéne (os 'cadetes' da S.d.E. apresentavam-se fardados em faustosos uniformes de gala, de côr alaranjada - ao que consta, concebidos pelo alfaite pessoal do General De Gaulle, a pedido, sob orientação, e a expensas do próprio Mishima...), não tardou para que os Tatenokai fizessem as manchettes jocosas da imprensa nipónica e internacional, que trataram logo de brindar a iniciativa com títulos como "O Novo Exército-A-Brincar Do Capitão Mishima".

Mas Mishima parecia não fazer caso do ridículo a que se expunha com o seu exibicionismo e extravagâncias, insistindo em dar um tom de solene seriedade às suas intervenções públicas de pretenso carácter político, comparando os Tatenokai, por exemplo, à Guarda Suíça do Vaticano - "Somos o mais pequeno exército do Mundo... e, acima de tudo, um exército espiritual" afirmara em certa ocasião perante uma fileira de olhares críticos...-, ou insistindo na necessidade de aquisição, pelo Japão, de um arsenal estratégico nuclear - posição que, por motivos óbvios, mais que soar a pura provocação ou simples agitprop, assumia um tom de quase-hostilidade aberta face às posições dominantes na esmagadora maioria dos sectores políticos e cívicos do Japão de então.

Por alturas da fundação do corpo dos Tatenokai, Mishima havia já - efeito de outras imprudências recentes - experimentado o trago amárgo desse desprezo crítico, com que o Japão de bons e delicados costumes e primaz temperança trata por regra os seus transgressores - esse mokusatsu tão exclusivamente japonês, um 'matar pelo silêncio' (黙殺 - mokusatsu: da combinação dos Kanji 'moku' - 黙/ silêncio - e 'satsu' 殺/matar) sempre tão certeiro aqui: pior que uma crítica depreciativa é a ausência pura e simples de qualquer crítica... - e não tardaria a aperceber-se do fechar do cêrco de silêncio e indiferença com que crítica, público e círculos de poder e influência, o votariam, a breve trecho, ao mais completo ostracismo e oblívio - e Mishima não sabia conviver com o silêncio em seu redor: mais publicidade requeria mais ruído...

Por altura do seu 44º aniversário, em Janeiro de 1969, Mishima interpretava a sua própria sina no curso dos eventos que o consternavam - e não tanto naqueles que se referiam directamente à sua pessoa, corroendo a sua carreira literária e artística e o seu prestígio e estatuto enquanto figura pública proeminente, mas sobretudo os que respeitavam à extrema tensão política que desde o ano anterior assolava o Japão e as suas ruas como não era visto nada assim havia perto de uma década. E neles antecipava a hora desse confronto cuja forma a tomar desconhecia ainda, mas que garantia estar iminente...


Ocupação pela facção radical do Zengaku'Ren/Zenkyoto (Frente Unida Estudantil) do Edifício Yasuda, To'Dai/Universidade de Tokyo, Dezembro de 1968 e confrontos. A 19 de Janeiro de 1969, 8500 homens da Força Especial Anti-Motim da Polícia Metropolitana de Tokyo, tomavam de assalto o edíficio ocupado pelo movimento estudantil radical quase um mês antes.
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III. Esse Maio de '69 - Mishima versus Zengaku'Ren

"Acima de tudo, a Via do Samurai reside numa consciência plena de que nunca sabemos o que virá a seguir, e num permanente questionar daquilo que se nos apresenta diante dos olhos, dia e noite. Vitória ou derrota são mero efeito da distribuição provisória de forças ou do acaso das circunstâncias. O processo pelo qual se emenda a vergonha é outro. E esse é tão só A Morte.
"Mesmo quando a derrota parece ser mais que certa, retalia! Nem bom-senso nem destreza são aqui chamados ao caso. Um homem íntegro não se perde a pensar na vitória ou na derrota. Ele lança-se intrépido numa morte irracional.
"Ao procederes assim, despertarás dos teus sonhos."
Yamamoto Tsunetomo, "Hagakure" (葉隠), circa 1710

Assalto da Força Anti-Motim da Polícia Metropolitana de Tokyo às instalações da To'Dai ocupadas pelos Zengaku'Ren/Zenkyoto, em 19 de Janeiro de 1969. Os Zenkyoto tinham, em Dezembro, feito vários reféns entre o corpo docente e administrativo da Universidade que mantinham em seu poder na altura da operação policial de resgate.

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A violência política e os tumúltos que marcaram o Japão entre Março de '68 e meados de 1969, excedem largamente o imaginário característico de outros movimentos sociais e rebeliões estudantis análogas noutros lugares do Mundo e na mesma época, sobretudo se e quando comparados aos do mais folclorizado Maio de '68 em França.

As motivações da Frente Estudantil Unitária Zengaku'Ren (全学連) e da sua facção mais radical, os Zenkyoto, que terão dado o leitmotiv para o extremar de posições e acções violentas levadas a cabo nesse ano, prendem-se indissociavelmente com um leque complexo de questões levantadas somente no espaço político-social do Japão e radicados na idiossincracia local, e aparte a pretensa filiação marxista-radical do movimento e a sua indelével semelhança com os Enragés de Nanterre, pouco ou nada teriam, de facto, em comum com os restantes grupos militantes estudantis do seu tempo, um pouco por todo esse Mundo Industrializado/ Capitalista fora. As suas causas eram outras e, entre estas, pontificava um profundo desprezo pela Instituição Imperial, objecto do mais encarniçado dos seus ódios.

E seria precisamente esse o tema dominante no extraordinário confronto ideológico que oporia os estudantes e activistas do Zenkyoto ao carismático líder dos Tatenokai, auto-proclamado "último reduto na defesa da Cultura e do Trono do Crisântemo contra a ameaça intolerável do Marxismo", numa única sessão levada a efeito nesse inesquecível 13 de Maio de 1969.
Assalto da Força Policial Anti-Motim ao Edifício Yasuda, Universidade de Tokyo (U.T.), em Janeiro de 1969. Outras imagens.



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A iniciativa do debate partira do próprio Zengaku'Ren/Zenkyoto, e Mishima mal terá hesitado ao aceitar a generosidade de tal convite. Afinal seria então este o seu tão aguardado'momento da verdade'? O confronto final com os inimigos do Ten'O seria ali (Mishima receava mesmo ser morto no local, e adiante aí iremos), na sua To'Dai, a Universidade onde ingressara logo após a conclusão dos estudos liceais no Gakushu'in em '44 e que o vira ascender ao plano de estrela maior das Artes e Letras nipónicas - nenhum outro lugar poderia ter maior valor simbólico e maior apêlo emocional para Mishima do que essa To'Dai que lhe dera o rito de passagem de uma mocidade introvertida e atormentada para a vida adulta na ante-câmera dessa tão almejada imortalidade. Era como que um reencontro final com o seu passado.

John Nathan, na sua biografia de 1974, descreve os eventos desse Maio de '69 do seguinte modo:



"Os confrontos mais violentos haviam principiado em Março de 1968, quando a Faculdade de Ciências Médicas da U.T. entrara em greve. Em Novembro, o Reitor da Universidade demitira-se; pouco depois a facção radical do Zengaku'Ren, auto-intitulada Zenkyoto, ocupava o Edifício Yasuda no centro do campus universitário. Foram feitos vários reféns, e a tensão escalou até ao dia 19 de Janeiro de 1969, quando oito mil e quinhentos operacionais da Força Especial Anti-Motim da Polícia, armados até aos dentes, tomaram de assalto o edifício, desalojando os activistas do movimento estudantil. Mishima observara atentamente o desenrolar dos acontecimentos, não escondendo a sua admiração pelos estudantes barricados e pela sua aparente determinação na luta. Porém, quando o Edifício Yasuda foi tomado sem que se registásse uma única vítima mortal no decurso dos confrontos, Mishima mostrou-se repugnado. "Observai e lembrai," disse então aos seus cadetes da S.d.E., "no momento da verdade, não havia um único entre eles que estivesse pronto a ir até ao fim, um único que mostrásse acreditar realmente naquilo por que se batia e que se deixásse sequer ferir ao precipitar-se de uma janela ou que se atirásse contra uma espada." Aqui, como era seu hábito, a tónica era posta no elemento auto-destrutivo.
"Em Maio, a Frente Estudantil Unitária desafiou Mishima para um debate a realizar-se no seu baluarte, situado no campus universitário de Komaba, na U.T., e ele aceitou o repto. Para tanto havia que ter bravura que chegásse: estes mesmos estudantes haviam já demonstrado serem bem capazes de tomar reféns. E quando passou a constar que Mishima aceitara o repto dos Zenkyoto, a polícia prontificou-se a oferecer-lhe protecção na deslocação ao recinto do debate, caução que Mishima prontamente declinou. De igual modo, proibiu terminantemente os seus Tatenokai de o acompanhar. No dia agendado para o debate apresentou-se na entrada do auditório completamente só. Vestia calças desportivas de côr clara e um pólo preto. A sua única protecção contra um eventual atentado dirigido contra si era o tradicional haramaki, uma larga tira de tecido envolvendo a região abdominal e destinada a deflectir a eventual investida de uma lâmina assassina. Lá dentro, aguardavam-no cerca de dois mil estudantes do Zengaku'Ren/Zenkyoto que escutavam uma palestra introdutória. À entrada do auditório, Mishima deparou-se com um cartaz onde figurava uma caricatura de si representando-o como um "gorila moderno". Ao preparar a sua entrada junto à porta do auditório, Mishima certamente teria pressentido essa "real presença de um perigo" que tanta vezes invocara como sendo da mais cabal importância para a sobrevivência e "sobretudo em tempos de paz".


"O debate, que tomou duas horas e meia, acabou sendo em si mesmo uma espécie de anti-clímax. Não que a tensão tivesse em algum momento esmorecido: um número significativo de estudantes resistiu estoicamente ao carisma de Mishima e manteve uma postura desafiante, provocatória e mesmo insultuosa até ao fim. Mas a maioria parecia respeitá-lo, ainda que não vacilando nas suas convicções. Tornara-se evidente, quase desde o começo, que a audiência que Mishima ali enfrentáva não lhe era inteiramente hostil, tendo o primeiro interveniente se lhe dirigido fazendo uso do termo reverencial 'Sensei' (Mestre ou Doutor), e, logo em seguida, fazendo uma pausa e procurando suprimir o embaraço da 'gafe', justificou-se: "Acabo de usar a palavra 'Sensei' sem sequer pensar e isto dá que pensar (risos)... ...Contudo, parece-me que... Mishima-san merece bem mais o título de 'Sensei' que a maioria desses 'educadores' que se pavoneiam pela To'Dai nos tempos que correm, por isso queiram ter a bondade de aceitar as minhas desculpas por ter usado inadvertidamente o título 'Sensei'." O apêlo foi saudado com um vigoroso aplauso." (VER: vídeo no início deste artigo)
"Uma vez que o movimento estudantil se mostrava capaz de ser 'lógico' na mesma medida de arbitrariedade em que Mishima esgrimia a sua própria 'lógica', uma vasta camada do debate afigura-se impenetrável. Os momentos mais interessantes são claramente aqueles em que Mishima procura persuadir ou converter os seus ouvintes. O Ten'O, assim Mishima pregava, era "precisamente o símbolo e fonte do ímpeto revolucionário que os Zenkyoto tanto almejavam", mais, "a única base para uma autêntica Revolução Nipónica." Ao referir-se ao Ten'O, Mishima como é evidente não se referia ao Imperador Showa (ainda o soberano nessa altura), mas tão somente à instituição, ao conceito cultural do 'Imperador'. "Se ao menos vós pronunciásseis correctamente o nome de Sua Majestade," afirma Mishima na mais citada passagem do debate, "eu de bom grado estender-vos-ia as minhas mãos, mas uma vez que sois incapazes de o fazer o que eu digo é tão só 'Morte!'. É tão simples quanto isto."
"Naturalmente, os estudantes na sua generalidade nem por um instante se deixaram persuadir pela ideia de que o Ten'O fôsse um símbolo do que quer que fôsse para além de um conceito alienante da reacção exploradora. Essencialmente o debate terminou num impasse, com ambas as partes aquiescendo na conclusão de que ambos eram "inimigos lógicos". A intervenção mais emotiva de Mishima fez-se ouvir já bem próximo do fim, quando a tensão dessa tarde já o consumia e ele se apercebe que já não havia muito por onde argumentar em favor do Ten'O. De súbito, dirigindo-se à audiência, solicitou que o ouvissem acerca de um "sentimento muito pessoal":
"Vós bem sabeis que eu cresci durante a Guerra, e igualmente sabeis que eu fui conduzido à presença do Ten'O, quando terminei os meus estudos liceais; eu vi com os meus olhos Sua Majestade ali sentada diante de mim, por três horas, sem se mexer um milímetro! como uma estátua, durante a nossa cerimónia de graduação. E no final da cerimónia eu recebi das mãos desse Imperador um simples relógio, e a verdade é que ainda hoje carrego bem dentro de mim esse profundo sentimento de gratidão para com Ele. Não era minha intenção falar aqui hoje sobre isto, e não faço questão em tornar a falar sobre este assunto (risos), mas há coisas como estas na vida de um homem, e eu não tenho como negá-lo: Ele estava esplêndido, sabem?, Sua Majestade, o Ten'O, esteve magnífico nesse dia!"
"Mishima não tornaria a mencionar este evento e correlativos sentimentos, mas certamente havia ali uma verdade sólida. Fôsse qual fôsse o cepticismo e a medida do recolhimento desse jovem de 19 anos que ele teria sido em Fevereiro de 1944, ele jamais poderia ter permanecido imúne ao sentimento de Honra e à profunda impressão que certamente o tomaram no momento em que recebera um relógio de prata das mãos de Hirohito. Não que isto explique a devoção posteriormente depositada nesse 'Imperador' lírico e abstracto, mas esta versão dos factos sugere que o Imperador era, para Mishima, algo mais que um simples aparato a que ele lançara mão, na hora de escolher uma 'causa nobre' pela qual se dispusésse a sacrificar a sua vida."
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Cena da obra semi-documental da autoria de Paul Schraeder "Mishima: A Life In Four Chapters", de 1985, ilustrando o momento do debate de Maio de '69.

Também Henry Scott Stokes, à época destes eventos correspondente do The Times em Tokyo e amigo e convidado regular de Mishima junto do seu círculo familiar, acrescenta alguns detalhes de interesse ao desfecho desta história, e sobretudo as transcrições de algumas intervenções do dia ilustrando não apenas a frescura de espírito e bom-humor de Mishima nessa tarde, mas sobretudo o surpreendente interesse que os Zengaku'Ren/Zenkyoto iam mostrando, ao longo do debate, no tema do Imperador (VER: vídeo no início deste artigo):

Estudante: "Mishima escreve que se farta acerca do Imperador. A razão de tanto alarde é o facto de o Imperador 'não existir'. A sua 'não- existência' constitui o 'Absolutamente Belo' a que Mishima tanto se refere. Afinal de contas, porque se faz ele de parvo o tempo todo? Decididamente Mishima deveria confinar-se à Estética. Em vez disso pavoneia-se entre nós e assim lá vai destruindo esse 'Belo-Em-Absoluto' que o Imperador encarna."

Mishima: "O patriotismo dos seus reparos lisonjeia-me!... Pretende conservar essa imagem tão bonita de sua Sua Majestade e para o efeito repreende-me advertindo-me que me confine aos meus estudos..." (risos)

Outro estudante: "Eu gostaria de o inquirir acerca do Imperador. Se por acaso suceder que ele se apaixone por outra mulher que não a Imperatriz, que deveria ele fazer? Afinal ele já sofre tantas restrições!? Há que ser complacente, não?"

Mishima: "Eu sinceramente sou de opinião de que Sua Majestade devia ter uma amante..." (risos)

E adiante conclui:
"Mishima tivera o seu instante de paranóia quando se aproximava do auditório em Komaba, temendo que os estudantes o cercassem e assassinassem ali mesmo on the spot. Mais tarde ele diria: "Eu estava apavorado como se me fossem lançar numa jaula de leões, mas no final deu-me um prazer enorme estar ali. Eu constato que eu e eles temos ao fim e ao cabo muito mais em comum do que aquilo que aparentamos - uma ideologia rigorosa e um gosto indisfarçado pela violência física, por exemplo. Eles, como eu, representam uma nova espécie no Japão de hoje. Eu sinto que tenho um elo de camaradagem com eles. Nós somos camaradas separados por uma vedação de arame-farpado. Sorrimos de igual para igual, mas não estamos ao alcance de um beijo." Num seu outro comentário: "Aquilo por que eu me bato e aquilo por que os Zengaku'Ren se batem é quase idêntico. Ambos temos as mesmas cartas na mesa, mas eu tenho um 'joker' - o Imperador."



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IV. Epitáfio: Todos esses rios que fluem para o mesmo mar...


"Queria fazer da minha vida um poema"

Mishima

"Um suicídio é algo premeditado no silêncio de um coração, como uma obra de arte."

Camus

"O que caracteriza o inferno é o facto de nele se distinguir tudo,
até ao mais ínfimo detalhe, com a mais extrema nitidez, e tudo isto
no seio da noite mais negra."

Mishima

25.11.1970

Como Henry Scott Stokes relata em "The Life And Death Of Yukio Mishima", no final da sua vida, Mishima entrara em depressão profunda por efeito de uma crescente sensação de esgotamento sobretudo no que se referia à qualidade e fluidez da sua escrita, afirmando "estar prestes a atingir o ponto da não-comunicação" e Stokes menciona mesmo uma sua carta datada de 1968, onde Mishima se refere a si mesmo como "fracasso enquanto novelista" e onde acusa o seu declínio enquanto autor, como se tratando de um facto consumado.

Não causa, pois, estranheza de maior que Mishima, nesse último acto da peça teatral viva em que se convertera, fizésse a acção acelarar o ritmo da trama como que forçando o incomunicável a falar por si mesmo; tendo sido destituído do mais elementar direito a controlar a sua própria existência, direito esse ao controle que lhe havia sido tão caro, e sabendo de antemão que era aquele o desfecho antecipado da peça, quisesse que esta excedesse os limites do seu palco e se extravazasse adentro olhos e ouvidos de um público que se entretera no primeiro e segundo actos da peça, a premiara com o seu sentido aplauso e risos, mas que agora ou bocejava ou simplesmente perdera o interesse ou se perguntava sobre onde afinal ia aquilo parar. O adepto do Ten'O, o Comandante dos Tatenokai, o orador carismático e apaixonado do Auditório de Komaba enfrentando com jovial sentido de humor os estudantes do Zengaku'Ren, seriam, estes, personagens de recurso num último fôlego que tornásse esta peça inapagável, de uma vez por todas, na memória de todos quantos a haviam visto, quando chegásse o tal fim explosivo e imprevisível? Parece-me antes que Mishima teria desejado que esta peça jamais terminásse... Afinal ele considerava-se a si mesmo e acima de tudo, um homem do teatro - "se eu pudesse, só fazia teatro", terá afirmado algures no tempo.

Pouco tempo antes dessa manhã de 25 de Novembro de 1970, Mishima colaborara na organização de uma exposição sobre a sua pessoa, inaugurada em Tokyo a 12 desse mês, na qual o próprio insistiu que os conteúdos exibidos fossem distribuídos por Quatro Rios alegóricos: o 'Rio da Escrita', o 'Rio do Teatro', o 'Rio do Corpo' e o 'Rio da Acção'. Cada um destes 'rios' representava uma dimensão essencial da sua vida atribulada: a Escrita enquanto meio de acesso ao Mundo, o Teatro a sua maior paixão, o Corpo, invólucro de um destino que teimava em ser heróico, a Acção - a via sacra da heroicidade...
Era nos fluxos incógnitos desses Quatro Rios que Mishima lançara a sua vida. Os rios cruzavam-se, comungavam das águas de uns e de outros, mas no final todos iam dar a esse mesmo mar misterioso, insondável.






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E ainda tornando a Scott-Stokes, o mesmo escrevia pouco tempo após o incidente de Ichigaya e o seu suicídio por seppuku, que certamente um dia alguém escreveria uma psicobiografia de Yukio Mishima comparável ao clássico de Jean Delay, "La Jeunesse D'André Gide", e concluía: "(...ao escrever sobre Mishima) ter-me-ia dado por satisfeito caso houvesse obtido uma simples pista que fôsse que me explicasse as circunstâncias da sua morte. Agora ao terminar, eu recordo essa nota final deixada na sua secretária a 25 de Novembro de 1970: "A vida humana é limitada, mas eu só queria viver para sempre."


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Bibliografia:
  • Mishima Yukio, "Sun And Steel", Kodansha, Tokyo, 1970
  • Mishima Yukio, "Confessions Of A Mask", New Directions, N.Y., 1958
  • Mishima Yukio, "The Temple Of The Golden Pavillion", Vintage, London, 2001
  • Mishima Yukio, "The Samurai Ethic And Modern Japan", Tuttle, Tokyo, 1978
  • Nathan, John, "Mishima - A Biography", Tuttle, Boston, 2004
  • Stokes, Henry Scott, "The Life And Death Of Yukio Mishima", Tuttle, London, 2003
  • Yamamoto Tsunetomo, "Hagakure" (versão bilingue em Japonês Moderno/Inglês, sob a direcção de Matsumoto Michihiro, Omiya Shiro e William Scott Wilson), Kodansha, Tokyo, 2005