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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Sós




Shikanoshima — 志賀島 —7.V.2011























("The rivers of Babylon flow, and fall, and carry away...
Jesus is alone on earth, not merely with no one to feel and share His agony,
but with no one even to know of it.
Heaven and He are the only ones to know.

Jesus is in a garden, not of delight, like the first Adam,
who there fell and took with him all mankind,
but of agony,
where He has saved Himself and all mankind.

He suffers this anguish and abandonment in the horror of the night.


Jesus will be in agony until the end of the world.
There must be no resting in the meantime..."*)










*Pascal,  Pensées   (Trad. Inglesa)







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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Da persistência da memória


Ele há dias assim. Dois ou três dissabores de enfiada. Uma quezília com os astros, assim dá de parecer. E depois há aquela minha melancolia crónica, que teima em dar sinais de vida em alturas destas. Coisa de fígados, diriam os nossos egrégios avós...

E num dia assim, nada como ser presenteado com um recuerdo desses de valor mais emocional que outro que se lhe queira atribuir, com as côres correctas e um peculiar ar-de-sua-graça.


Foi ao passarmos, pela tarde de ontem, pelo Museu Nacional de Kyushu (九州国立博物館 - Kyushu Hakubutsukan), em Dazaifu, nos arrabaldes da nossa Fukuoka, que demos de caras com o simpático artefacto na imagem, ali, relativamente incógnito, esse tenugui (手拭い) invocativo da memória NanBan por terras de Kyushu... A Etsu insistiu em dar-mo de prenda de dia-não, se há lá coisa para dar em dias destes... Coisa boa para sorrir como um miúdo a quem é dado um brinquedo novo... Até porque é particularmente reconfortante, em dias de má-memória como o de ontem, constatar haver merchandising deste com fartura em lugares como o Kyushu Hakubutsukan - havia lá, entre canetas, postais-ilustrados, blocos de notas, pisa-papéis e bibelots ligeiros para gostos menos exigentes, todo um sem-número de pequeninas lembranças dessas de fazer o gosto ao dedo ou de dar de omiyage quando se visita a família por cá, invocativos de uma certa portugalidade remota, todas elas ostentando a invariável carraca, essa icástica Nau do Trato, o Kurofune (黒船 - a Nau Negra) como lhe chamavam os daqui, e que nos idos de quinhentos, e por mais de seis décadas, ligou as praças de Gôa, Macau, Malaca e Nagasaki, entre longas e arriscadas empreitadas da fortuna prometida por mares d'Oriente, na reclusa solidão da tormenta, e que os ilustradores dos byôbu (屏風) de então trataram de imortalizar num certo imaginário colectivo.

E tudo isto não seria mais que um anedótico fait-divers, não fôsse o facto de por esse Japão fora, este vosso NanBan ter tantas vezes sido confrontado com a mais cruel e inusitada das ignorâncias acerca do seu país de origem: isto num país que além de afamadamente próspero e tido por 'educado' (era há não tanto tempo assim um dos campeões pêsos-pesados do investimento público em matéria de educação), viveu perto de um século da sua história com o nome de Portugal escrito nos respectivos anais, e que para além de uma muito significativa presença hoje de uma vasta comunidade imigrante Brasileira - e de uma forte e bem propagandeada ligação ao país que por seu turno acolheu, desde 1908, vários fluxos migratórios oriundos daqui -, reconhece a importância desta presença transoceânica, dando à Língua Portuguesa um merecido destaque de que não comungam outros idiomas ocidentais - veja-se, a título de exemplo, que em qualquer ATM aqui, figura um menú de opções/acções que além do idioma nacional contempla o Mandarim, Coreano, Inglês e, pasme-se, o PORTUGUÊS, assim bem escrito e claro, e não há espaço para mais (Français, Deutsch, Español, ficam de fora). Pois é verdade, caríssimos: já por uma mão-cheia de ocasiões, autóctones presumivelmente (bem-)educados, me perguntaram sem trejeitos de descaro que língua se fala em Portugal, fora as vezes, que já lhe perdi a conta, que nem com um planisfério à frente ou sequer um mapa da Europa diante dos olhos me souberam apontar com o dedo o país do Kurofune. Nem invocando o nome de São Cristiano Ronaldo o mais das vezes sequer lá vão.
E assim sofre o nome da Lusa Pátria no Mundo.

Valha-nos haver quem insista em remar contra esta maré vazante do oblívio colectivo e faça por vindicar a memória que é de todos, como os mentores desse exemplar NanBan BunkaKan (南蛮文化館 - Museu/Galeria da Cultura Nanban), instituição privada sita em Osaka, que recomendo a todos os interessados nestas coisas da lusitanidade no Mundo, e se por lá passardes.

Bom fim-de-semana a todos.

気をつけて / Ki o'tsukete.