Algumas notas que gostaria, nesta hora, de partilhar convosco.
Ao longo da noite de ontem, 11.03, na companhia da Etsuko, segui a par e passo os desenvolvimentos da tragédia que acabara de se abater sobre o Japão, sobretudo através dos canais televisivos de cá e também das edições online de alguns jornais de referência.
Uma vez que ao longo desse período, estive permanentemente atento tanto ao televisor, notíciários, e bem assim às comunicações e mensagens que ia recebendo neste espaço, assim como via facebook e nas caixas de e-mail, na medida do possível, procurei ter o cuidado de ir respondendo às mensagens de atenção, simpatia e solidariedade que recebi de vários amigos e de leitores e visitantes ocasionais deste espaço, com o passar das horas.
Tomo agora mais esta chance para, a todos sem excepção, agradecer do fundo do coração, as palavras de preocupação, de amizade, de apoio e solidariedade que aqui recebi, nesta hora particularmente difícil para a Nação que me acolhe. Jamais vos esqueceremos.
Esta manhã, regressando a este pequeno ecrã, deparo-me com inúmeras visitas a este espaço, algumas novas mensagens de atenção de tantos de vós, ainda inúmeras mensagens via facebook e uma caixa de e-mail repleta.
Em particular a todos aqueles que me visitam agora pela primeira vez ou que só recentemente visitaram este blogue questionando-se sobre a situação do seu autor, residente no Japão, face à situação dramática que este país vive nesta hora, tomo ainda esta chance para prestar alguns esclarecimentos que considero pertinente da minha parte aqui deixar.
O autor deste blogue , reside em Fukuoka, norte da ilha de Kyushu, área situada cerca de 1200 km a sudoeste da região directamente afectada pela catástrofe ocorrida ontem (Tōhoku [東北地方], Nordeste do Japão) — ou seja no extremo oposto do dito território mais afectado —, e onde o sismo mal foi sentido, não tendo por esse motivo, o mesmo autor deste blogue, sequer se apercebido do ocorrido durante a tarde de ontem, e só tendo do mesmo tomado conhecimento ao final da tarde, de regresso a sua casa.
Achando-se a salvo do pior das consequências deste cataclismo, não obstante sente na pele a imensa angústia desta hora, mormente pelo facto de a sua família — mulher e sogros — ser oriunda da região/Prefeitura de Iwate [岩手県], mais concretamente da povoação de Ōfunato [大船渡市], uma das áreas mais violentamente devastadas, e apesar destes seus familiares mais próximos se acharem junto si, em Fukuoka, igualmente a salvo do pior, são, contudo, vários os parentes distantes que residem na dita área mais afectada de Ōfunato e suas imediações e como tal — e tendo sobretudo presente a enorme dificuldade neste momento em contactar as pessoas apanhadas nas zonas sinistradas, mormente por efeito do corte geral das telecomunicações nas áreas em causa —, neste momento é muita a apreensão sentida, sobretudo por até ao momento não sabermos qual a situação real destes nossos familiares residentes nas áreas directamente afectadas pela catástrofe de ontem. É nestes entes queridos que nesta hora depomos toda a nossa angústia.
Pelo exposto, peço-vos que não estranheis particularmente algum eventual silêncio prolongado da minha parte nas próximas horas ou dias.
Como certamente compreendereis este não é um momento normal nas nossas vidas, de todos quantos neste país se acham nesta hora, e em particular daqueles que de um modo ou de outro, mais ou menos directamente afectados pelos eventos de ontem, carecem neste momento de especial resguardo. Este é um tempo cuja dor e incredulidade, o estupor perplexo perante as imagens e as informações que se repetem e sucedem nos canais informativos, não deixam margem de maior para pensamentos que escapem à realidade mais imediata daquilo que nos fere vida adentro.
Espero e agradeço desde já a vossa melhor compreensão.
A todos os leitores e visitantes deste espaço, uma vez mais
o meu mais sentido agradecimento.
LUÍS FILIPE AFONSO, "NBJ", Hakata, Fukuoka-shi, Kyushu, Japão, 12.03.2011