sexta-feira, 18 de março de 2011

A Voz do Bom Senso



Em Fukuoka [福岡市], maior cidade do Sul do país,
a vida corre a um ritmo de quase absoluta normalidade,
notando-se,  contudo, uma menor abundância de certos bens de consumo.
Mas não é correcto falar em escassez.





      À semelhança daquilo que nos relata o meu mui estimado compatriota em Tóquio, também eu ontem recebi o mais sobre-alarmado dos contactos por parte da minha Mãe, tomada de sobressalto pela caterva de exageros de toda ordem que, em geral, os media fora do Japão, por estes dias se permitem divulgar.

       Nunca subestimando a gravidade da actual situação em Tōhoku [東北] e Kantō [関東], parece ser necessário lembrar a muito boa gente que o Japão, país composto por mais de 3000 ilhas e com um território soberano de mais de 377.000 k㎡, não se resume às duas regiões mais afectadas pelo cataclismo de 11.03 supra mencionadas, não obstante falarmos de uma área equivalente à quase totalidade da costa de Portugal continental — cerca de 850 km de extensão — quando falamos, tão-só!, do território devastado no Nordeste do Japão|Tōhoku há uma semana.

      A Nação Japonesa não baixa os braços nesta que é a mais difícil das horas na sua História recente.

      E creio que não há necessidade de recordar a seja quem for que, aqui, já se viveram tempos muito, mas muito piores... 
   





11 comentários:

  1. O desconhecimento é muito e o receio apodera-se dos que absorvem a informação veiculada sem cuidarem de a triarem, cruzarem e analisarem.
    Mas existe quem fale serenamente, nunca escondendo os perigos, mas jamais aumentando o que se passa.
    Vamos acompanhando todos os dias, de todas as formas, desejando o melhor a todos, em especial àqueles que tanto padecem.
    Coragem!
    Abraço enorme.

    ResponderEliminar
  2. Um abraço donde o sol se põe!
    Ana

    ResponderEliminar
  3. Tenho lido o que o António Burnay vai dizendo no Público, e procurado informações em blogues de amigos residentes aí.
    Na Europa só falta crucificarem os Japoneses por conta da central nuclear, e como sempre o sensacionalismo e a fobia vendem e dão audiências.


    Abraço forte

    TOUHOKU JISHIN NI MAKENAIDE!!!!!!

    ResponderEliminar
  4. NBJ,

    Os Japoneses, nunca baixaram, não baixam, nem baixarão os braços.
    A comunicação social só mostra o que quer. As pessoas só vêem o que querem ver.

    Um abraço

    Blue

    ResponderEliminar
  5. Muito bem dito. O António é sempre perito nestes esclarecimentos!
    E eu contribuo dando conta do que vou lendo e ouvindo - directamente daí - no meu berloque...

    ResponderEliminar
  6. Gostei de ler o blogue. Transmita aos seus vizinhos e amigos pf o apreço de mais um Português pela perseverança de um povo em tudo admirável. Cumprimentos.

    ResponderEliminar
  7. Bem-haja, também, dr. Luís Filipe Afonso pelas suas palavras tão amáveis. Nada mais faço que uma obrigação, mas nestes momentos difíceis é sempre bom ouvir palavras ternas. E nos momentos não difíceis também...

    Eu falo muito, há muita coisa que quem conhece e sente o Japão diz, que quem não o conhece, ou não entende ou descodifica mal, pelo que às vezes há “cortes” que são uma enorme perda de informação, ou frases que ficam incompletas ou fora do contexto. Claro que há que ser sintético e os jornais, as Rádios e TVs têm pouco espaço e tempo.

    Não tem importância nenhuma que digam que tenho 56 anos, quando na realidade tenho 52 (um adolescente até ficaria contente...), mas tem importância quando os europeus e os americanos continuam a tratar o Japão com sobranceria. Numa das primeiras entrevistas, menos de 1 hora após o primeiro sismo (já não me lembro se para uma televisão ou uma rádio) perguntavam-me se era necessário enviar alimentos, medicamentos, cobertores e fazer peditórios. Disse-lhe que com certeza isso seria simpático mas que por certo não viria a ser necessário porque, para grande espanto da entrevistadora, o Japão é 3ª potência económica mundial, há muito pouco ultrapassada pela China mas que, diferentemente desta tem um elevadíssimo nível de vida e abunda em todos os produtos. Acrescentei que é o país mais desenvolvido do G7 e que na Europa apenas a Noruega, Suécia e Holanda têm índices de desenvolvimento superiores. E quanto a dinheiro é o maior credor mundial acumulado (anualmente a China é agora o primeiro, mas o Japão ainda é o 2º) e tem mais dinheiro que os países da Europa todos juntos. Com toda a franqueza, a sensação que tive é que a entrevistadora estava a falar desde Lisboa para um país do 3º mundo.

    Eu coloco a questão ainda mais “longe”: se este problema nuclear, em vez do Japão, tivesse ocorrido no RU, em França, Alemanha ou EUA, por exemplo, as notícias teriam os mesmos conteúdos e geraria o mesmo pânico?

    O Japão há 150 anos era um país feudal e fechado ao mundo. Foi obrigado a abrir pelos americanos. Os japoneses engoliram em seco a humilhação e juraram fazer por nunca mais ficarem em situação frágil. Em 40 anos já eram uma das maiores potências económicas e militares do mundo. Hoje são a 3ª economia mundial e têm um dos maiores níveis de vida do planeta. São o maior credor do mundo em termos consolidados. São leaders mundiais em muitos sectores. “Amarelos” a jogarem pelo título mundial, não é facilmente aceite pelos ocidentais. Portanto, como é que os “amarelos” japoneses podem dominar um acidente nuclear, que foi coisa que os “brancos” russos e americanos não conseguiram?!... Olhem que eu sou “branco” e ocidentalíssimo!

    Perguntavam-me se penso regressar a Portugal, ou se estou intimidado. Não há nenhum motivo de saúde ou segurança que aconselhe a que saia do Japão. Mas para além disso, tenho que dizer o seguinte: eu não sou japonês (nem nunca quererei ser ou parecer) mas não me sinto no estrangeiro aqui. O Japão é, também para mim, a minha casa e os japoneses também a minha família, aliás no sentido estrito porque a minha mulher é japonesa. Posso um dia deixar a casa e a família, mas nunca no momento quando elas estiverem fragilizadas e a precisarem do meu contributo. Mesmo que o meu corpo tenha que dar algum contributo. Isso seria um acto de cobardia e de ingratidão!

    Tóquio, Ota-Ku, na véspera da chegada da Primavera

    Antonio Burnay Bastos

    ResponderEliminar
  8. Estimado Dr. Burnay-Bastos:

    Preciosas palavras estas.
    Saúdo, uma vez mais, efusivamente, este seu contributo.

    Com irrepreensível poder de síntese, acaba de antecipar e clarificar aquilo que não só vai no meu espírito por estes dias — e que, aqui e em bom tempo, eu deveria ter escrito —, como no de tantos de nós que por cá 'insistem' em ficar, recusando-se a deixar o país e aqueles que amam.

    Mas não é a ignorância 'deliberada', ou a dor-de-cotovelo velada, para não lhe chamar outra coisa, da parte de certas pessoas que se recusam, eu diria desde Tsushima (1905), a conceber o Japão como potência mundial de 1º plano, ou sequer a fazer o mais elementar trabalho-de-casa por estes dias — o que nem sequer seria pedir muito, parece-me, tendo em conta que é este o país que nos deu e dá os nomes Toyota, Nissan, Honda, Mitsubishi, Suzuki, Kawasaki, Mazda, Subaru, Daiatsu, Yamaha, Bridgestone, Yokohama, Sony, Panasonic, Sanyo, Sharp, Toshiba, Fujitsu, Canon, Nikon, Pentax, Fuji, Minolta-Konica, Olympus, Ricoh, Korg e Roland, só para mencionar alguns, muito poucos, dos que entram pela vida de tanta gente adentro todos os dias — aquilo que mais me fere.

    Aquilo que é realmente chocante quando lemos certos trechos do que é veiculado em alguma comunicação social além-ilhas, por estes dias, é mesmo a boçal, pura e simples irresponsabilidade de querer fazer desta dramática experiência o 'Apocalipse' hollywoodesco do Sr. Oettinger e outros como ele, em lugar de saudar o extraordinário exemplo de coragem, tenacidade e determinação que o Povo e as Autoridades deste país têm revelado ao mundo em circunstâncias tão penosas.

    Haja respeito! — É só o que se pede.

    Meus mais respeitosos cumprimentos,

    LFA

    ResponderEliminar
  9. NanBan Jin,
    Deixo-lhe um trecho da Revista do Expresso, desta semana:
    "Na raiz da nossa educação temos o xintuísmo e aceitamos a natureza como ela é. Não podemos mudar os fenómenos da natureza como um sismo ou um tsunami, mas temos de nos adaptar, aprendendo com cada tragédia, estudando novas tecnologias que nos dêem mais segurança."
    Ayano Shintazo.

    ResponderEliminar
  10. "O Japão não parou, não pára e não irá parar"...

    Muito bem dito :D

    ResponderEliminar