"(...) Mas não há que ceder ao medo. Quando um náufrago desfalece pela fome e pela sêde, é pelo efeito do medo da necessidade física que tal acontece, e não por efeito de uma necessidade real, em si, dizem eles. A derrota principia pelo medo de já se ter perdido."
安部公房, Abe Kōbō, 「砂の女」"A Mulher das Dunas ", novela (1962)
A princípio, mais que surpresa, a notícia causa estranheza.
Depois, e após alguma reflexão, tudo faz sentido: afinal tinha mesmo que ser este, o passo seguinte e mais que óbvio, assim vindo de quem vem.
Wakamatsu Kōji [若松孝二], oriundo do meio proto-marginal do Pink Eiga (Soft Porn/Sexploitation versão japonesa) das décadas de 60/70 do século que lá vai, e enquanto realizador sempre colheu no fértil território do tabu, o melhor da sua obra. É hoje, certamente, o último cineasta de substância num país que já prometeu muito mais ao território da Sétima Arte.
E é precisamente em temas de teor incómodo, que Wakamatsu tem, ao longo da última década, demonstrado uma faculdade única de re-invenção do cinema japonês, partindo da honesta assunção de que o país do tudo-no-seu-devido-lugar esteve sempre, e desde tempos imemoriais, no limiar dessa explosão potenciada por um sem-número de ímpetos transgressivos face a uma ordem social tida por quase-perfeita.
Assim sendo, e depois de "United Red Army"(実録・連合赤軍 あさま山荘への道程, Jitsuroku Rengo Sekigun: Asama sanso he no michi [2007]) — análise desencantada da extrema-esquerda nipónica encarnada no Rengō Nihon Seki Gun(Exército Vermelho Unido do Japão), célula terrorista saída de moldes idênticos aos de um R.A.F./Baader-MeinhofeBrigate Rosse, e tomando a barbárie de Asama-Sanso (1972) por ponto de partida —, seguido de "Caterpillar" (キャタピラー [2010], Urso de Prata para Melhor Actriz [Terajima Shinobu] no Festival de Berlim de 2010) — autópsia do horror da guerra, pelas mãos e olhos da mulher de um 'herói nacional' tão deificado quão desfigurado até ao limite do grotesco...—, filmar, logo de seguida, os eventos conducentes ao 'Incidente de Ichigaya' (25.11.1970), Mishima e os Tatenokai, tinha naturalmente que ser o desenlace apto a dar continuidade (e não necessariamente conclusão) ao confronto desse Japão auto-anestesiado, com os monstros do seu passado recente.
"11.25: Jiketsu No Hi, Mishima Yukio To Wakamono Tachi" [11.25: 自決の日、三島由紀夫と若者たち — "11.25: O Dia do Sacrifício, Mishima Yukio e a Juventude"] , segue a par e passo a sequência de factos conducentes ao duplo suicídio de Yukio Mishima e do seu lugar-tenente Morita Masakatsu, a 25 de Novembro de 1970, em pleno Quartel-General do JIEITAI, após uma tentativa fracassada de sublevação militar com o fito de anular a Constituição de 1947 — um tema já amplamente debatido neste espaço, pelo que, e a título de referência, me permito remeter-vos para os textos já aqui antes trazidos a respeito destese de outros eventos, recordando apenas que o caso em si, permanece, 41 anos volvidos sobre o mesmo, como um misto de tragicomédia negra, mito e intolerável embaraço num país que ainda se debate, hoje, com o mistério insolúvel das motivações por detrás da morte do seu mais celebrado escritor do Século XX.
A ante-estreia foi já agendada para 27 de Novembro, aqui.
Espero sinceramente que seja um grande filme, digno dos espíritos que invoca.
Mifune e Nakadai em desempenhos de uma vida. Inspiração de inúmeras outras obras de referência. E o arrepiante original music score de Satō Masaru [佐藤勝], no mesmo panteão de Herrmann, Mancini, Rota, Morricone e Barry.
Outra obra-prima a celebrar este ano o seu 50º aniversário, e a rever. Obrigatoriamente.
Impressionante como este filme concebido há precisamente 30 anos se mantém absolutamente incólume no seu incomparável génio — isto sim, a verdadeira Glória de quem dobra o Cabo do Tempo e por ele passa sem mácula...
...Eu sinto. E por mais descabida que soe tal afirmação, vinda de alguém que vive no país dos samurai, dos bushi, e bem assim dos ronin e shinobi, da vasta filmografia desse cinema que, mais que qualquer outro media, contribuiu de modo determinante para a mitificação dessa nobre casta de imperturbáveis homens, leais combatentes de katana em riste, impávidos diante da Morte, serenos em face de perigos muitos, inabaláveis na sua lealdade ao feudo, ao seu Daimyo, seu estandarte ou à pobre gente sedenta de justiça num Japão medievo e cruel...
'Jidai Geki'[時代劇] — 'dramas históricos', numa tradução mais-que-livre da expressão —, 'chambara' (outro termo popular que deriva das elaboradas cenas de combate dentro do género) são, aqui, mais que muitos.
Clássicos de inegável mérito artístico, num longo catálogo de escolhas mui recomendáveis, quase invariavelmente, na vasta maioria dos casos, tendo por pano de fundo esse Japão arcaico dos Tokugawa, um tempo de 'pacificação' do Império insular dos Kami, onde, porém, devassidão, perfídia e intrigas de toda a ordem se multiplicavam como pragas sazonais, e, logo assim, o tecido e linha com que se cosem ou remendam estas histórias de capa e espada à moda da casa, dão vasto material a muito entertainment audio-visual.
Aqui, cobrem a programação televisiva, se não diariamente, numa cadência muito regular, da manhã ao serão em família e pela madrugada adentro — sofrendo, contudo, nos dias de hoje a curiosa concorrência do correspondente género 'made in Korea', mas nem por isso se pode dizer que seja hoje um estilo em declínio.
O certo é que, se bem que os clássicos são os clássicos, valendo o que valem — AQUI um exemplo de referência, AQUI outro, AQUI outro do além, AQUI outro ou outros revistos e revisitados até à exaustão, mais OUTRO aqui... (e queiram perdoar-me a publicidade inusitada à editora linkada em todos os casos, mas melhor não há, verdade seja dita) —, uma larga camada do comum 'Jidai Geki', em boa parte dos casos, entrelaçada em intrigas sobre-complexas, com intrincadas peripécias de permeio a laborar na trama essencial, teias familiares que quase requerem um especialista ao nosso lado para nos avivar a memória de quem é quem, e uma linguagem teatral, algo inacessível, em muitos casos enraizada na tradição do Kabuki — de onde aliás provieram umououtronomes sonantes do género —, não facilitam, em muitos e lamentáveis exemplos, o visionamento e apreciação destas obras, seja no formato longa-metragem ou das inúmeras séries televisivas que ainda hoje passam ora repassam no pequeno-ecrã nipónico.
Sucintamente: o 'Jidai Geki' nunca foi um género privilegiado como produto de exportação, mas concebido, isso sim, essencialmente para 'consumo da casa'.
De qualquer modo, trata-se de um género temático cuja produção em grande escala, tem vindo a sofrer a erosão dos tempos e dos gostos e tende a abrandar mais e mais com o passar das décadas.
Há uns oito, seis anos ainda tivemos um singelo e atípico "Tasogare Seibei", de Yamada Yoji — com a sempre auspiciosa presença de um Sanada Hiroyuki —, seguido de um certo "Kakushi Ken", do mesmo cineasta — e do qual não me recordo sequer de o ter visto passar, de soslaio que fosse, pelas salas europeias — filmes que, para todos os efeitos, se inscrevem na tradição estética/temática do 'Jidai Geki' e que sugeriam uma certa ambição de revitalização do estilo, mas que, não obstante todas as virtudes que lhes possamos reconhecer, parecem ter ficado pelas boas intenções e pouco mais que surtisse efeito.
"Treze Assassinos" [十三人の刺客 — Ju'san Nin No Shikaku], de Miike Takashi, não terá vindo para fazer história na trilha da Sétima Arte Nipónica, mas terá a legítima ambição de agitar os nossos ânimos, e se não colheu galardões de pôr na montra, pelo menos colheu alguns (bem merecidos?) aplausos.
Trata-se da novíssima obra de um realizador celebrizado pelo 'gosto' gore, sanguinário, de "Audition" [オ—ティション, 1999] e "Ichi, The Killer" [殺し屋1, Koroshiya Ichi, 2001], filmes muito apreciados entre os 'fans' do género e que, por comparação com esta nova incursão pelo território do 'Jidai Geki', revela este um Miike num estado de humor sobremaneira mais soft.
História de um tiranicídio rocambolesco, "Ju'san Nin No Shikaku — Treze Assassinos", conduz-nos até ao Japão tardo-feudal do último quartel do Período Edo (Ano de 1844), momento em que a fulgurante ascensão no seio da corte dos Tokugawa de um perverso facínora, levam um escrupuloso dignatário do Bakufu a procurar auxílio com vista a uma solução 'drástica' da questão em causa.
A sua busca leva-o até Shimada Shinzaemon, um samurai de nomeada, homem temido nas lides do sabre e de elevada reputação. Hesitando de início, Shinzaemon é levado a aceitar a missão que o contratante lhe propõe, prestando-se a reunir, para o efeito, um pequeno e, não obstante, temível séquito de onze homens de armas de sua confiança, aos quais um décimo segundo vem a somar os seus préstimos, reunindo-se assim a força 'operacional' que dá título ao filme.
O pequeno exército liderado por Shinzaemon, prepara então uma elaborada cilada destinada a dar caça ao pérfido déspota, apanhando-o, bem assim como à sua escolta, de surpresa no curso de uma viagem que o mesmo irá empreender a breve trecho. Sucede que, face à aproximação do alvo e seu séquito, Shinzaemon e seus camaradas se apercebem que irão encontrar pela frente uma força adversária muito superior em número e em meios àquela que haviam antecipado aquando do planeamento da operação em curso, facto que leva os treze a ter que reconsiderar todo o plano de ataque ab initio.
Não é caso para desanimar. Ainda não tendo visto o filme que serve de mote a este escrito — estreia marcada para daqui a uns dias no país-natal —, quero crer que é a imprevisibibilidade própria de um filme desta natureza nas mãos de alguém como Miike Takashi e Jeremy Thomas, aliado a talentos hodiernos como Kōji Yakusho ou Tsuyoshi Ihara, aquele impulso que pode reanimar um género aparentemente moribundo — quem já esqueceu o estado em que estava o Western antes de Eastwood lhe dar uma valente massagem cardíaca? — e trazê-lo de novo e em força ao grande ecrã para gáudio de saudosistas como eu e de quem mais adora 'um bom filme de samurais'.