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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ainda e Sempre, Novembro (Luzes, Câmeras, Acção...)






11.25: 自決の日、三島由紀夫と若者たち。(2011)



      A princípio, mais que surpresa, a notícia causa estranheza.
      Depois, e após alguma reflexão, tudo faz sentido: afinal tinha mesmo que ser este, o passo seguinte e mais que óbvio, assim vindo de quem vem.

    Wakamatsu Kōji [若松孝二], oriundo do meio proto-marginal do Pink Eiga (Soft Porn/Sexploitation versão japonesa) das décadas de 60/70 do século que lá vai, e enquanto realizador sempre colheu no fértil território do tabu, o melhor da sua obra. É hoje, certamente, o último cineasta de substância num país que já prometeu muito mais ao território da Sétima Arte. 
         E é precisamente em temas de teor incómodo, que Wakamatsu tem, ao longo da última década, demonstrado uma faculdade única de re-invenção do cinema japonês, partindo da honesta assunção de que o país do tudo-no-seu-devido-lugar esteve sempre, e desde tempos imemoriais, no limiar dessa explosão potenciada por um sem-número de ímpetos transgressivos face a uma ordem social tida por quase-perfeita.



  



     Assim sendo, e depois de "United Red Army" (実録・連合赤軍 あさま山荘への道程, Jitsuroku Rengo Sekigun: Asama sanso he no michi [2007]) — análise desencantada da extrema-esquerda nipónica encarnada no Rengō Nihon Seki Gun (Exército Vermelho Unido do Japão), célula terrorista saída de moldes idênticos aos de um R.A.F./Baader-Meinhof e Brigate Rosse, e tomando a barbárie de Asama-Sanso (1972) por ponto de partida —, seguido de "Caterpillar" (キャタピラー [2010], Urso de Prata para Melhor Actriz [Terajima Shinobu] no Festival de Berlim de 2010) — autópsia do horror da guerra, pelas mãos e olhos da mulher de um 'herói nacional' tão deificado quão desfigurado até ao limite do grotesco...—, filmar, logo de seguida, os eventos conducentes ao 'Incidente de Ichigaya'  (25.11.1970), Mishima e os Tatenokai, tinha naturalmente que ser o desenlace apto a dar continuidade (e não necessariamente conclusão) ao confronto desse Japão auto-anestesiado, com os monstros do seu passado recente.




       "11.25: Jiketsu No Hi, Mishima Yukio To Wakamono Tachi" [11.25: 自決の日、三島由紀夫と若者たち — "11.25: O Dia do Sacrifício, Mishima Yukio e a Juventude"] , segue a par e passo a sequência de factos conducentes ao duplo suicídio de Yukio Mishima e do seu lugar-tenente Morita Masakatsu, a 25 de Novembro de 1970, em pleno Quartel-General do JIEITAI, após uma tentativa fracassada de sublevação militar com o fito de anular a Constituição de 1947 — um tema já amplamente debatido neste espaço, pelo que, e a título de referência, me permito remeter-vos para os textos já aqui antes trazidos a respeito destes e de outros eventos, recordando apenas que o caso em si, permanece, 41 anos volvidos sobre o mesmo, como um misto de tragicomédia negra, mito e intolerável embaraço num país que ainda se debate, hoje, com o mistério insolúvel das motivações por detrás da morte do seu mais celebrado escritor do Século XX.


      A ante-estreia foi já agendada para 27 de Novembro, aqui.
      Espero sinceramente que seja um grande filme, digno dos espíritos que invoca. 
      E, a sê-lo, que chegue até vós.
     















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domingo, 12 de junho de 2011

Reencontro com a Memória










        Redescoberto entre as estantes da Família, "Nanban-Jin — Os Portugueses No Japão/The Portuguese In Japan" (1993), obra da autoria de Luís Filipe Thomaz, edição filatélica, bilingue, a cargo dos CTT, limitada a 15.000 cópias numeradas e autenticadas pelo editor. 
         Indispensável para qualquer amante da temática em causa.
















































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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Interrompemos a regularidade da emissão, apenas porque este compromisso publicitário vale realmente a pena...

エステー宣伝部


















      Já aqui antes, vos tinha mostrado uma curiosa peça publicitária "made in Portugal" para o Japão, e ainda em exibição nos interregnos entre a programação regular nuns quantos canais televisivos de cá, no caso um engraçado anúncio para uma empresa do ramo imobiliário.
    Agora por esta campanha é que nem eu, nem ninguém esperava, mesmo! 

   Os produtos publicitados, neste caso — da ESTÉ (ST) - Shōshūriki (エステー消臭力), esta última palavra significa literalmente "poder de apagar odores" (ou seja desodorizante) — não são mais que uma gama de populares desodorizantes de retrete. Nada de mal, convenhamos. Eu próprio posso dizer que uso produtos desta marca em casa, sobretudo o spray rôxo da direita aí na foto supra e posso afirmar-vos que é óptimo e que se se vendessem aí eu recomendaria os produtos em causa sem quaisquer reservas.
    Foi, porém, agora mesmo ao regressar de Kumamoto que alguém me chamou à atenção: 
    "Luís-san, já viu aqueles novos anúncios muito engraçados do エステー消臭力 na TV?... é lá em ポルトガル, não é?..."

   Não, ainda não tinha visto. E ao ver, foi uma valente risada de rolar no chão às gargalhadas e até na rua se ouvir, como já há muito que não dava umas assim!

   É certo que a ESTÉ (ou simplesmente 'ST' — エステ) — companhia sediada em Osaka, líder de mercado no sector em causa — é de igual modo bem conhecida por uma certa tradição de lançamento regular de spots publicitários bem-humorados (esclareço, para uma melhor apreciação do link que antecede, que a palavra 'kusai' significa pivete...) com que brinda o público há muitos anos e de que este e este e ainda est'outro exemplos fizeram a imagem de marca. 
  Sucede, porém, que, com a ocorrência do Grande Terramoto de Tōhoku a 11.03, houve quem (coisa tão ao 'jeito' de cá...) achasse que não era altura para grandes comédias e quem mais sugerisse que qualquer coisa 'assim'... 'porventura mais sensibilizante', atento o período difícil que o país vive, em face da Grande Tragédia do Nordeste, etc. e tal, poderia ser uma opção a ponderar, blá, blá, blá...  Meanwhile, alguém mais se lembrou que num certo canto da Europa, há uns duzentos e muitos anos, uma tragédia de semelhantes proporções por lá havia abalado — e de que maneira!... — o solo do Velho Continente, e que em jeito de lembrança ou de homenagem ou fosse lá o que fosse que fulano ou fulana tinham em mente quando pensaram no dito lugar lá longe, vai d'agarrar na tralha e vamo'lá fazer a nova campanha Primavera-Verão...
    
    Vale a pena escutar primeiro o tema original e, logo a seguir, espreitar e apreciar as singelas prestações vocais do ミゲル (Miguel), do フランシスコ (Francisco), do トーマス (Tomás) , dos Senhores アメリコ (Américo) e カルロス (Carlos), e ainda das pequenas ビートリッツ (Beatriz [?], esta para mim é a melhor de todas!... Grande paródia!), a レオノア (Leonor), a マルガリータ (Margarida), e por fim as três garotas juntas! 
     Grande Fartote...
     Haja boa-disposição! 

     Deixo-vos por ora com um excerto do 'making of' e um dos clips via YT. 
     Enjoy!:


    




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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Da importância dos tais 'NanBan' explicada à miudagem...







「じろじろ ぞろぞろ」
("Jirojiro Zorozoro" intraduzível, assim me parece, mas a interpretação mais próxima deste original, onomatopeico título seria qualquer coisa como "Olhando os detalhes" [mas em rigor não é bem esse o conteúdo da expressão].)


       Souvenir da minha mais recente passagem pelo Kyūshū Kokuritsu Hakubutsukan — Museu Nacional de Kyushu —, em Dazaifu [太宰府], não podia deixar de partilhar convosco esta singela peça, um verdadeiro bestseller por estas paragens e um daqueles achados que, parecendo que não, tem sempre aquele benévolo efeito de espicaçar, um nadinha que seja, a nossa auto-estima colectiva, tão de rastos que ela anda nestes tempos, e é mesmo uma curiosidade a saudar com entusiasmo.





             Partindo de um dos mais famosos NanBan Byōbu — 南蛮屏風 — da Escola de Kanō — 狩野派 [Kanō-ha] —,  os tais "Biombos dos Bárbaros do Sul", representando a presença dos Portugueses dos Séculos XVI e XVII no Japão e, em particular, a colónia de Nagasaki, fundada  em 1571,  este "Jirojiro Zorozoro", pequeno livro para crianças, publicado pelo próprio Museu Nacional de Kyushu, percorrendo uma variedade de detalhes de manifesto interesse na obra de arte em causa e colocando a tónica nas imagens em detrimento do texto, explica, muito resumida mas ainda assim concisamente, a importância e a influência dessa remota herança da Dai'Kōkai Jidai— 大航海時代, literalmente "a Era das Grandes Viagens Marítimas" — na cultura nipónica.


            Uma pequena pérola a conservar e ideal para folhear ao serão em família.


Ora vejam!


見て下さい!





































































































































































































































































































quarta-feira, 28 de abril de 2010

In Memoriam: C. R. Boxer — Também Ele 'Um Português No Mundo'

Assinalando-se, hoje, 27 de Abril, dez anos sobre a morte de Charles Ralph Boxer (Sandown, Isle of Wight, Inglaterra, 8.03.1904 - St. Albans, Hertfordshire, Inglaterra, 27.04.2000), não poderia, de modo algum, deixar passar esta data em branco.

C.R. Boxer, como ficou seu nome gravado nas capas das obras que nos deu, assim como na memória de tantos de nós, será certamente por demais conhecido e objecto da mais sentida homenagem e veneração por tantos quantos de nós, pela História de Portugal na Ásia e no Mundo, e, em particular, pela História dos Portugueses no Japão — esses Nan Ban que um dia ousaram... — um dia se interessaram. E a respeito de Boxer, sua vida e extraordinária obra não me irei por aqui alongar, repetindo aquilo que outros, bem melhor do que eu algum dia poderia ter feito, escreveram em seu louvor e reconhecimento, limitando-me a remeter-vos para estes três magníficos textos na blogosfera Lusófona ⇓, por demais elucidativos, e a cujos autores — e porque para tanto nunca é tarde, assim quero crer — tomo esta chance para lhes prestar, eu, agora, a minha mais encarecida vénia: ao primeiro destacando-o no belíssimo e infelizmente hoje defunto Je Maintiendrai, daqueles que tanta falta faz, est'outro no extraordinário, mui recomendável e em grande forma, Macau Antigo, da autoria de João Botas, publicado há pouco mais de um ano, e, ainda este último, por mim mais recentemente descoberto, mui interessante artigo relativo à relação de Boxer com Armando Cortesão, e outros Historiadores e figuras suas contemporâneas, o Estado Novo e a oposição ao regime de Salazar nas décadas de 30 e 40, a propósito de uma polémica menos badalada mas de não menor interesse, artigo originalmente editado na Revista de Macau, e mui oportunamente trazido de novo a público pela mão do Daniel de Oliveira Cunha no seu não menos recomendável e muitíssimo interessante Lusofonia Horizontal, e façam favor de lá ir que vale mesmo a pena.






A obra de Boxer que ainda hoje mais me mesmeriza é esse "The Christian Century in Japan 1549-1650", editado em 1951, escassos seis anos volvidos sobre o fim do cativeiro do autor, às mãos do Exército Imperial Japonês, sorte que sofrera aquando da tomada de Hong-Kong, em Dezembro de 1941, constituindo uma das mais extraordinárias e meticulosas investigações num tema historicamente do mais complexo e hermético que se poderia eleger, e revelando-se claramente como o fruto da mais apaixonada predilecção temática, jamais enfadando o leitor por uma linha que seja — um estilo escrito surpreendentemente acessível e do mais cativante que poderíamos encontrar neste ou n'outro qualquer domínio historiográfico —, e tão mais exuberante ao termos em linha de conta que, não sendo Boxer um académico profissional — Boxer era Oficial do Exército Britânico, formado em Sandhurst e desde cedo educado na carreira das armas — e ainda que no período que dedicara à redacção de "The Christian Century..." tivesse (assim devemos crer) contado com o inestimável auxílio de amigos e contemporâneos seus como A. Cortesão — cuja amizade se diluiria após a publicação, em 1963, de uma sua outra obra, desta feita dedicada às relações raciais no Império Ultramarino Português (para conhecer melhor a quezília em causa, ler o artigo acima ⇑ em referência, no blogue Lusofonia Horizontal ⇑) — a somar à sua experiência de três anos como adido militar no Japão, entre 1933 e '36 e o conhecimento privilegiado que deste, à época, ainda sobremaneira inacessível país, de tal experiência possuiria, ainda assim o vasto elenco de referências bibliográficas e documentais, a minuciosa investigação das questões maiores levantadas pelo tema em causa, assim como da extenssíssima tapeçaria de detalhes tantos, do anedótico ao sublime, "The Christian Century..." permanece, hoje, quase sessenta anos após a publicação da sua 1ª edição, como uma inequívoca obra -prima.

Dos tais NanBan [南蛮] dessa primeira, tão acidental e tão acidentada viagem — Mota, Zeimoto, Peixoto —, a Mendes Pinto e Francisco Xavier; do incidente do San Felipe à chegado de Joosten, Adams e demais Kou'mou [紅毛] — esses outros 'barbas-ruivas' dos Países-Baixos... — a bordo do decrépito Liefde, nesse Abril de 1600; de Shimabara à embaixada de Sequeira de Souza, a última, ao tempo de D. João IV, aqui tendes aquela que deveria ser a vossa próxima epopeia de leitura obrigatória.


A obra de C.R. Boxer, tão vasta, diversa e complexa quanto a sua própria vida, merecerá decerto a melhor atenção de todos nós, e a despeito das linhas menos elogiosas que em tempos terá, num ou n'outro volume — com ou sem o assento de outros contemporâneos seus que ao mesmo tema dedicaram a parte ou o todo de suas vidas — acerca dessa demanda do nosso Portugal no Mundo, Boxer foi, pelo tanto que deu e pelo tanto ainda que honrou o nome da Pátria de Camões, de pleno direito, também ele um filho de Portugal, um Português no Mundo, e ainda agora me interrogo como não tem este homem ainda sequer um nome de rua em Lisboa, e não estou a pedir uma estátua de bronze em plena Praça do Império.

A sua Esposa, Emily Hahn, terá dito, em tempos que só "Charles [Boxer] poderia ter dedicado uma vida inteira ao estudo de Portugal e dos Portugueses na Ásia, porque só ele era suficientemente louco para tanto...".
Assim fôssemos todos nós.


"Apparent rari nantes in gurgite vasto".

[Virgílio, Eneida, 1.118]