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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Já foi mais fácil...





  


   ...partir.   Fazer a mala e zarpar.

        Sim... já foi bem mais fácil.

          E deixar tudo o que tanto nos disse e nos deu sem olhar atrás. 
     E por mil e uma causas que haja d'amaldiçoar este lugar e tudo quanto nele cresça e dele provenha.
         Não. Não há direito.

         E por tudo o que ficou por fazer e por dizer, e por todos os amargos de boca que pesem no peito e cujos nomes se tatuem na memória para que da memória não mais se desvaneçam. E para memória futura. 
      E por tudo o que amámos e amamos, daqui, dos que são nossos e bem nos querem e do tanto de bem que lhes queremos, e apesar do tudo o que de uns e de outros condenamos.

        E dói muito quando se parte assim, e é tanto mais o que fica no cais que o que a mala carrega e o coração suporta.

          E num lugar assim, sob um céu e um Sol como estes, tamanha tristeza devia ser crime.





My Life Is A Succession Of People Saying Goodbye



✹
     

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Havia Bravura No Branco...







       Hoje, último dia do ano que fecha, passei por Higashi Kōen [東公園], aqui bem próximo do meu baluarte.



     À hora do meu encontro com o majestático Nichiren Daishōnin [日蓮大聖人], a neve já caía, infrene, numa dança bêbeda de lânguidos, rodopiantes, pequenos flocos brancos, cobrindo, exaustos, com seu alvo manto, tudo em seu redor...



      No frio afiado do cair da tarde, o sempre sereno e compassivo Daishōnin parecia hoje mais solene e desafiante que nunca!...
      
      E ao contemplar o altivo e escuro, firme bronze que lhe dá corpo, uma estranha mágoa tomou de assalto o meu peito — por um momento recordei o calor humano de todos quantos mais queridos me são no Mundo, cujo sorriso e abraço fraterno mais falta me fazem e em especial um velho amigo que não vejo há mais de ano e meio.


     O Bernardo é um desses enfermos alucinados que tornam dos países quentes*, como assim os designou Rimbaud nos seus sentidos versos, e que, a exemplo do Grande Bodhisattva Nichiren, optando por se guardar alheio às indulgências dadas de esmola aos que mais cuidam de arrecadar os meios de existir neste mundo efémero das coisas corpóreas que de erguer a vida aos domínios do Império da Alma, insiste em fazer ecoar a voz do Coração aos que ousam parar um minuto que seja a fim de a escutar, enfrentando, nessa escolha, todas as intempéries, toda a fria neve do tempo, todo o sol ardente no deserto da vida feita de compromissos inadiáveis, toda a ventania que arrebata e castiga o sonho. Para que a Nau do Espírito prossiga o seu curso a despeito da tormenta...

      E uma pesada saudade sobre mim se abateu.

   E uns quantos versos de sua pena urgiram largar infrenes contra a neve




"Havia bravura no branco
De um peito onde dormi...

"Fervores na bravura do branco
De um peito onde dormi..."**







Dedicado ao BERNARDO DEVLIN,
que o Novo Alvor te ilumine inteiro, meu Velho!





*J.A. Rimbaud, in  "Mauvais Sang"

**Bernardo Devlin, in  "Novo Alvor [O Canto Da Sala]", 
do albúm "Circa 1999 [9 Implosões]" (ed. 2003)






sexta-feira, 24 de julho de 2009

LAR DOCE LAR...

Aos incautos, frequentadores menos assíduos deste blog-espaço-de-convívio, um esclarecimento prévio: Não... Não se tratam de imagens da minha querida Fukuoka, Kyushu, Japão, lugar do meu domicílio...

De regresso a casa, tempo para uma breve passagem por Shangai, República Popular da China, lugar de muitos (des)encantos, gente de muitas raças, côres e credos, praça de todos os negócios (da China e não só)...
A intenção inicial não seria tanto um apreciar da capital comercial do Império do Meio, mas tão somente contemplar, de regresso a casa - digo-lo uma vez mais - aquele que foi anunciado como sendo o mais longo Eclipse Total Do Sol do Século XXI...

Sim: de retorno à Ásia que trago no peito, tempo para uma litúrgia da Mãe-Natureza em pessoa, de dimensões e solenidade sem igual, como nunca antes me tinha sido dado o privilégio de presenciar, e, claro está, o entusiasmo - para mais sendo esta a 1ª vez que iria pisar o solo da grande promessa do novo século - era mais que muito...

Tripla decepção - um mal nunca vem só! e desta foi a valer: nem Eclipse - antes de mais por pura displiscência deste vosso NanBan, que se meteu num avião que (necessariamente) acabava por o pôr no devido destino demasiado tarde para o efeito ("Oh NanBan! Então não estás já mais que batido em viagens entre a Europa e o Extremo-Oriente??? Então não 'tás fartinho de saber que chegas lá 'um dia depois'?"... Eu sei... Eu sei... Não batam mais no ceguinho... enfim...) - e nem que, ainda que comparecendo a horas, pretendesse gozar o melhor do propósito inicial da minha vinda à China neste 22 de Julho de 2009, o céu do dia era bem o que podeis apreciar das fotos aqui anexadas: e escassos minutos depois de serem tiradas as famosas fotos, chovia a potes como só climas como aquele, nesta altura do ano, permitem... ("Oh NanBan! Então não estás já mais que batido no 'saborear' do clima extremo do Sul do Extremo-Oriente??? Não estás mais-que-esclarecido de como é o 'Verão' de lá??? ... Eu sei... Eu sei... ora, pois...)
Terceira etapa da borrasca: (mais um aviso prévio: ainda que estando longe de partilhar sentimentalismos universalistas de gosto new age mais-que-duvidoso, faço questão de dizer aqui e agora que não gosto, MESMO NADA, de dizer mal de seja quem fôr... mas no caso em apreço fico mesmo sem margem de manobra...) Shangai, a tão badalada, tão apregoada, tão promissora Shangai deste início de Século (o tal a quem já há quem chame O Século da China) ia-me matando de susto!

Aquilo que eu só posso comparar à Câmera dos Horrores de um certo museu de figuras de cêra, começa, enquanto itinerário, no trânsito automóvel selvático, passa pelo panorama geral dos gigantescos parques habitacionais de arranha-céus de betão barato, dá uma volta pelo centro histórico - o famoso e, de facto, interessantíssimo Bund - alegada e repetidamente apresentado ao Mundo como área protegida (mas protegida do quê??? Digam-me lá... é que sinceramente não percebi!... ide lá e apreciai com os vossos próprios e insuspeitos olhos...), onde abunda o mais nauseabundo lixo por tudo quanto é pedaço de chão, não há um passeio público, um sequer!, em condições mínimas, e as obras (a pôr tudo o que resta do avêsso) para a mui publicitada EXPO 2010, a darem cabo da minha réstia de esperança de sair dali com um sorriso breve-que-fôsse de alguma simpatia...
Dia 23, dia de finalmente! voltar então a casa. Um passeio de duas horitas e pouco, ainda e sempre pelo centro que a cada passo mais e mais se parece - irreversivelmente - com uma versão (very) low budget de Tóquio, de fazer o mais empedernido sinófilo chorar de raiva... e depois... "Basta!": o fedor pestilento do lixo omnipresente, a poluição opressiva (agressiva como nunca tal esperara exprimentar na vida...) que mal deixa os pulmões de quem de fora ambientarem-se por um minuto que seja, o frenesim atropelante, desumano de peões e veículos que só sabem da sua sorte e das horas e lugar onde se devem apresentar, acabavam de deitar por terra o meu último e diplomático esforço de confraternização com esta Nova Babilónia-A-Grande...

À hora da ida para o aeroporto de Pu'dong, num taxi literalmente a voar aos "S"s pelo que parecia ser uma vulgar auto-estrada (tão longe estava eu de perceber ao certo o que aquilo era, nem vos sei dizer ainda... de tão caótico que é!...), a velocidades a oscilarem somente entre os 160 e 200 Km/hora (isto é autêntico meus queridos leitores!!!), com algumas ultrapassagens em movimento quase elíptico pelo meio, e pelo meio de camiões cisterna de combustível com umas quantas buzinadelas de permeio (decididamente em certos lugares do nosso Mundo devia ser crime tocar-se sequer num volante de um veículo a motor...)... tempo para fechar os olhos... tentar respirar correctamente... não pensar demasiado na vida nem na... ouvir alguma música?... talvez?...

A banda sonora para a hipotética morte na estrada de um estrangeiro a caminho do aeroporto internacional de Shangai?... Calhou no Ipod um tema de uma banda de rock Inglesa, destas d'agora, que por acaso tive o prazer de apreciar aqui no Japão, num pequeno clube de Tóquio, há uns meses poucos e de quem gostei bastante, confesso - os White Lies ...
O tema: Fairwell To The Fairground - and the song goes:

Farewell to the fairground, these rides aren't working anymore.
Goodbye to this dead town, until the ice begins to thaw.

This place used to gleam, i see it in my hopeful dreams, now i had to get away.
We move towards the stars, and all that we touch becomes ours, lets keep warm till it's day.

Farewell to the fairground, these rides aren't working anymore.
Goodbye to this dead town, until the ice begins to thaw (...)

(...) Keep on running, keep on running, there's no place like home,

...There's No Place Like Home...