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sábado, 17 de julho de 2010

Da Longa Madrugada da Idolatria (Parte II — videoclips)


Breve colecção (outra) de impressões da longa madrugada da Idolatria.
Uma espécie de motion picture, em retalhos, para mais tarde recordar e porque agora é hora de partilhar.

Desta não foi fácil encontrar um lugar simpático para captar imagens em movimento na esquina da Shimogofukumachi com a Taihaku-Dori onde, há dois anos — e sem o transtorno da chuva —, me pareceu ter o ponto perfeito, aquele ângulo, aquela perspectiva ideal, para fixar a tela e retratar este rito de passagem. Não, este ano não estava, infelizmente, disponível: um maçudo pelotão policial parecia ter-se incumbido da nobre missão de não deixar ninguém aproximar-se um pouco mais que encurtasse aqueles dois metros de aproximação ao cortejo, escrupulosamente estabelecidos como perímetro de segurança — não fosse algum suicida ter a ideia de se atirar para debaixo de um kakiyama em velocidade... E ainda que entendendo e acatando a prerrogativa e o zelo policiais, valeu a pena — não fui só eu...— fazer-me de desentendido ali e acolá...

Nem de perto, nem de longe as imagens que se seguem captam o esplendor dessa madrugada feliz, mas é, ainda assim, o melhor que, por ora, vos posso oferecer.

À Vossa.

オイサ!

















sexta-feira, 16 de julho de 2010

Da Longa Madrugada da Idolatria... (Parte I — Retratos)







Wish You Were Here...

Que o título não vos induza em equívocos desnecessários: o termo Idolatria guarda para mim, ainda e hoje, uma singular força lírica — é daquelas palavras que excede largamente a dimensão introvertida da nossa vida quotidiana... da vida de todos nós — e é esse extravasar do tempo presente que nos contém e modera e abranda o ritmo dos nossos corações, aquilo que lhe concede, enquanto palavra — e é tão bonita como palavra !... — a intangível nobreza poética que lhe reconheço...



... e pontualmente, às 4:59 da madrugada, cantado o cântico de louvor a esses deuses exilados, celebrados em precárias efígies que só duram o tempo que leva a frenética procissão...


... a Alvorada das crianças doidas, irrompe, contra a noite d'intempérie, radiante, louca, irredutível, aluvião de Luz e Vida, expulsando, cego, feroz, intrépido, todas as sombras, todos os vestígios da noite que teimam em penar p'la cidade...




"Tudo o que é sério pouco nos importe
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos,
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo." *















[Madrugada que queria ser Eterna...]



"Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo." *



"Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada." *






"Não consentem os deuses mais que a vida,
Tudo pois recusemos, que nos alce
A irrespiráveis píncaros,
Perenes sem ter flores.
Só de aceitar tenhamos a ciência,
E enquanto bate o sangue em nossas fontes,
Nem se engelha connosco
O mesmo amor, duremos,
Como vidros, às luzes transparentes
E deixando escorrer a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco." *






"Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses.
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como flores." *





"Os deuses são os mesmos,
Sempre claros e calmos,
Cheios de Eternidade
E desprezo por nós,
Trazendo o dia e a noite
E as colheitas douradas,
Sem ser para nos dar
O dia e a noite e o trigo
Mas por outro e divino
Propósito casual." *





















"Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo." *




"Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença
Se a aurora raia sempre." *


"Feliz aquele a quem a vida grata
Concedeu que dos deuses se lembrasse
E visse como eles
Estas terrenas coisas onde mora
Um reflexo mortal da imortal vida." *




[Encontrei-o no caminho de casa. Já os peregrinos haviam dispersado e o Sol me queimava a pele]




*Ricardo Reis
(excertos de várias Odes)


[em actualização]

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Yamakasa


Sob o auspício de um funesto céu da côr das cinzas, tão próprio de Julho... sim! esse mesmo Julho de intermináveis chuvas e ventanias, a somar a esse sobejo, permanente calor bafejante, coisa pegajosa a colar as roupas ao corpo mal se sai de casa — estamos em plena Tsuyu (梅雨), Estação das Chuvas, a tal que medeia entre a Primavera das Sakura e o Verão propriamente dito...—, ao cair da tarde de Quinta-Feira, lá nos fizemos ao caminho e partimos em busca desses 'nippo-barrocos' Yamakasa (山笠), enormes andores, ou melhor "santuários flutuantes" como alguns preferem apelida-los, ostentando tanto de genuinamente japónico quanto de 'kitsch', entregues, assim, solenes, às ruas da Cidade das Colinas Prósperas, aguardando impávidos e altivos o grande dia do Hakata Gion Yamakasa (博多祇園山笠), 'matsuri' de primeira importância para as gentes de Hakata/Fukuoka e Kyushu--Norte, e de cuja impressionante corrida de andores — ditos kakiyamakasa (舁き山笠 — lit.: «andores flutuantes») aqui ➷ vos deixo uma breve impressão.


A história do Hakata Gion Yamakasa remonta ao ano de 1241 da nossa era, vivia então, o Japão, em pleno Período Kamakura (鎌倉時代), quando uma mortífera praga se alastrou pela baía de Hakata e as gentes da região cuidaram de trazer em seu auxílio um reputado sacerdote Shintoo que foi trazido a toda a pressa à cidade portuária pelos homens da terra, transportado em corrida pelas ruas num enorme palanquim e levado com urgência aos mais recônditos cantos da cidade com o fito de exorcizar os demónios que haviam trazido tamanha morte e infortúnio ao pobre povo.


Rezam as crónicas que foi de tal ordem a gesta heróica dos homens do porto Hakata, no esforço de levar o santo homem em correria pelas estreitas vias, assoladas pela traiçoeira peste, entre o casario ao longo dos muitos canais que demarcam os vários bairros tradicionais de Hakata, que, em louvor e gratidão aos bravos desse dia, as gentes de cada Nagare (流 — 'ribeiro' ou 'canal', designação dada aos bairros antigos de Hakata) houveram de, a cada ano que passa, em Julho, tratar de erguer um palanquim idêntico ao dessa egrégia jornada, re-encenando e celebrando com a devida solenidade ritual a proeza e a nobreza atávica dos seus antepassados e dos Espíritos alados que os guiaram nessa feita.

São, ao todo, sete os Nagare representados no Hakata Gion Yamakasa, cada um se fazendo representar pelo seu kakiyamakasa (舁き山笠), de dimensões compreendidas entre 5 e 6 metros de altura e cerca de uma tonelada de pêso.

O lugar da nossa residência situa-se bem no centro do 'teatro de operações' do Hakata Gion Yamakasa, e em particular da 'àrea de ensaios' do Ebisu Nagare — 恵比須流 — e muito próximo da zona do Chiyo Nagare — 千代流 —, e, na Quinta-Feira da semana passada, ao deambularmos pela cidade ao cair da tarde, foi precisamente o kakiyamakasa deste bairro, o primeiro com que deparámos.

Confesso que não fui capaz de identificar o personagem, espírito ou kami (神) representado no kakiyamakasa do bairro de Chiyo. Esclarece-me, a Etsu, de que se trata de Tachibana Muneshige — 立花宗茨, 1567 - 1642 —, Samurai e General, vassalo de Toyotomi Hideyoshi, e pouco mais vos posso dizer sobre tão ilustre personagem, além da minha suposição de que seria, certamente, homem bem conhecido dos NanBan do seu tempo.


De volta pelo território do Ebisu Nagare, o respectivo kakiyamakasa não deixa margem de maior para dúvidas.

A figura no topo do andor, fazendo-se acompanhar de um peixe gigante, trata-se, inequivocamente, de Yebisu (ou simplesmente Ebisu)-No-Kami (恵比須の神), um dos 'Sete Deuses da Boa-Fortuna' — 七副神, Shichi Fuku'Jin —, também conhecido por Hiruko (蛭子), kami (神, 'deidade' ou 'espírito') protector dos pescadores e 'deus dos negócios e da prosperidade'. O próprio empresta seu nome a uma pequena ponte nesta área, que oportunamente fotografei e convosco partilhei há alguns meses.



De caminho pela longa e movimentada Taihaku-Dori (大博通り — Avenida da Grande Sabedoria), deparamo-nos com o primeiro dos gigantescos kazari'yamakasa (飾り山笠), 'andores' com propósitos óbvia e meramente decorativos, como o termo 'kazari' (飾り— 'ornamental' ou 'decorativo') evidencia.


Os enormes kazari'yamakasa atingem, via de regra, entre 15 a 17 metros de altura e pesam várias toneladas, não sendo, por isso, adequados a passeatas sobre mãos humanas, limitando-se, pois, a assentar arraiais nas principais artérias da cidade, cumprindo o estrito propósito de publicitar a saison do grande 'matsuri' que se anuncia para os próximos dias.

A miríade de figuras e côres que compõem estas colossais estruturas, fá-las, de facto, tão vistosas quão confusas, e confesso que, no decurso deste nosso passeio, quase não logrei identificar uma só figura que fôsse entre as inúmeras efígies em exibição...

Mais adiante, em Meiji-Dori (明治通り), próximo do imponente Hakata-Za — 博多座, soberano teatro de Kabuki da cidade —, um outro carnavalesco kazari'yamakasa.



Não muito longe, o kakiyamakasa de um outro Nagare, desta feita o Dai'koku Nagare (大黒流), que toma o seu nome de empréstimo a um outro dos ditos 'Sete Deuses da Boa-Fortuna' — 七副神, Shichi Fuku'Jin —, desta feita ao Daikoku'Ten — 大黒天 — ou Daheitan, estranho nome que significa, literalmente, «O Grande Céu Negro», e cujo desempenho, nesse restrito panteão de 'deuses-do-acaso', é o de "deus do comércio e dos bons negócios", sendo comum encontrar o seu distinto rosto negro em várias lojas por esse Japão fora. E é o próprio a pontificar neste singelo palanquim...





...E ainda, passando uma vez mais por Meiji-Dori...





Num mercado popular mesmo defronte, encontramos, poucos metros adiante, este simpático kazari'yamakasa dedicado aos mais pequenos...


Doraemon & Amigos é, ainda e sempre, um 'clássico' da miudagem do Japão e além-ilhas.


Outros, deveras curiosos e tematicamente bem mais complexos, vão surgindo de caminho...








Aqui um outro kazari'yamakasa dedicado às deidades do Vento (Fujin — 風神) e do Trovão (Raijin — 雷神), mas pareceu-me haver, entre os transeuntes (locais, e por via de um ou outro comentário que pude escutar), quem não soubesse identificar estes dois kami omnipresentes onde quer que vamos no Japão...



Ainda, do exterior do mesmo complexo comercial...




...E passando por Nakasu (中州), o nosso animado "red light district"...








Já longe de Hakata-Ku (博多区), próximo da zona chique de Yakuin (薬院), um outro kazari'yamakasa de temática infanto-juvenil, mas cujos personagens, confesso, nada me dizem...

Se algum dos meus queridos leitores me puder elucidar sobre a identidade de tão pitorescas figuras, a gerência agradece.




O temível remo de batel talhado em jeito de bokken identifica, sem margem para dúvidas, a figura que o ergue em intrépido vôo sobre o adversário... Deste, não dúvido que, do mais novo ao mais idoso dos transeuntes, não haja um só que não saiba de quem se trata...



O Hakata Gion Yamakasa realiza-se pela madrugada do próximo dia 15 de Julho.