domingo, 21 de novembro de 2010

Pesos Pesados E Frágeis Flores De Branco, Negro E Carmesim | 九州場所 — No Kyushu Bashō















   Sexta-Feira ao final da tarde, lá estava de câmera em punho.













     A solenidade ritualistica reservada ao O'Sumo conserva ainda e sempre aquele encanto que  encontramos tão-só nas mais herméticas tradições deste insular império.

   E a par da imensa importância que as gentes deste país ainda lhe reconhecem, é coisa cheia de graça. 

     Nunca me canso de apreciar,  ao longo do ano e pelos meses que passam, a emotividade das festividades que engalanam os seis grandes 'Hon'bashō' [本場所].

           








     Os instantâneos desta partida, e queiram perdoar-me a imodéstia, assim me quer parecer, ficaram, no mais dos casos, excepcionalmente bons, e eu tinha preparado um extenso slideshow destinado a este TLNBJ e à vossa apreciação. Sucede que 418 fotos é cabaz pré-natalício tão pesado quanto um qualquer destes 'Rikishi' de renome. Talvez num futuro próximo me seja possível partilhar convosco a totalidade desta série de um só jorro. 
      
       Por ora, far-lo-emos em fascículos 
      — como já vai sendo norma neste espaço. 
       Aqui ficam quarenta e cinco retratos.


       E com pelo menos uma surpresa de permeio... espero que seja do vosso agrado!...


    




























































































































...E já ao abrir das hostilidades, eis que uma bonita surpresa se faz desfilar entre os comuns mortais...


Visão rara por estas paragens...



















(Girls On Film  [two minutes later]...)















(Girls On Film...)






(Girls On Film  ["Got your picture!"]...)









(Girls On Film!... )





(Lipstick cherry all over the lens as she's falling...)













('Cause the crowd all love pulling Dolly by the hair...)*



[by the hair...]




























































































































































































































































































...E agora...




...



...um breve intervalo para os nossos compromissos publicitários...


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

E Ao Cair Do Pano...







         ...Hakuhō [白鵬], o imbatível Yokuzuna [横綱] Mongol, com um recorde de 63 vitórias consecutivas nos quatro grandes 'Bashô' de Tokyo, Osaka, Nagoya e Hakata, caiu...

          Foi hoje, Segunda-Feira, 15 de Novembro, para surpresa geral dos milhões que assistiam à 2ª jornada do último grande torneio de Sumo do ano, e logo aqui! mesmo defronte da barraca do vosso NanBan, no Fukuoka Kokusai Center [福岡国際センタ], invariável arena do Kyushu Bashô [大相撲九州場].

             Este ano está mais animado do que é hábito! 

             
             E levar com um 'Yokozuna', ou até com um 'Ōzeki', em cima é sempre uma honra...









domingo, 14 de novembro de 2010

De Uma Moderna Nostalgia








Dei com esta relíquia num bazar local, mas não a reclamei.

O preço? 
Uma exorbitância gananciosa que nem aos mais devotos coleccionadores acena. 
E ensinava-nos Goethe que os coleccionadores são pessoas felizes. 
Pois que o sejam, mas assim não.
É nave na qual não embarco, não porque não queira mas porque não posso.
Cruzeiro que só contemplo na distância desses catálogos que anunciam exóticas aventuras...

Single, 7", 45 RPM.

Interpretado pelo protagonista desta jornada e acompanhado à guitarra pelo talento de Fukazawa Shichirō, de quem vos falava ainda há poucas semanas, o tema é cativante. 

Traz o mood parisiense da época. Aquele abanar de ancas de um L'Eau à La Bouche / Chanson De  Prévert. E fica sempre bem numa moldura.  A capa pelo menos. 

É seguir sonhando...


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Gentleman Turned Gangster







     "You could feel the force of his imagination (...) I (still) think of him as part gentleman, part gangster..." 

Henry Scott Stokes, no documentário 








"Karakkaze Yarō" — からっ風野郎 — "Um Gajo Duro" 
("Afraid To Die", na versão americana), 
filme de 1960,  realização de Masumura Yasuzo [増村保造],










Trailer










Stills

































E ainda, da extensa memorabilia e afins que entretanto vão por aí surgindo, 
esta pérola que já não sei onde a descortinei:



A watching companion

      

     A título de complemento ao artigo anterior e para uma melhor compreensão do mesmo, aqui fica, do excelente — ainda que algo datado — documentário BBC "The Strange Case of Yukio Mishima" de 1985, a peça que faltava.

         Aos interessados sugiro ainda que deitem mão a esta edição DVD do já hoje lendário biopic da autoria de Paul Schrader, "Mishima: A Life In Four Chapters", a qual inclui, bónus, a totalidade do documentário em referência, para além de outras peças documentais de grande interesse.












Um Ordálio De Rosas ou O Homem Que Queria Todo Ele Ser Corpo...






           "Perante a câmera de Hosoe, cedo percebi que o meu espírito e suas preocupações se haviam tornado absolutamente redundantes.  Era uma experiência tremenda, um realizar de algo que sonhara havia muito tempo. Hosoe limitar-se-ia a explorar  por intermédio da sua câmera — de um modo em tudo idêntico ao processo pelo qual o escritor recorre às palavras e o compositor aos sons — as múltiplas combinações pelas quais os objectos a fotografar se poderiam dispor, e bem assim as luzes e sombras que possibilitavam essas mesmas combinações. Para ele, em suma, os objectos correspondem a palavras e sons."


MISHIMA YUKIO [三島由紀夫] do prefácio de "Barakei" [薔薇刑], 1963.    




            Sim. 
         É um dos mais célebres exercícios de puro narcisismo convertido em disputado objecto de um certo coleccionismo obsessivo. 
      Extravagância exibicionista, genial e escrupulosamente planeada e elevada à suprema categoria de obra-prima de uma certa Arte da Era da Reprodutibilidade Técnica e subversão quase-perfeita daquilo que Walter Benjamin a esse respeito teorizava.
       Sem outra pretensão que não fosse o imortalizar de uma imagem idealizada de si mesmo enquanto estátua viva que se esculpiu esmerada e minuciosamente a si mesma, e que exultava agora, triunfante e pueril, na inefável alegria de poder enfim, reclamar do Mundo o olhar atónito e a auto-indulgência de uma existência superiormente física, vocacionada, antes que tudo o mais, para a via da acção, um corpo feito de sol e aço e nervos à flôr da pele, essa vitalidade corpórea que tanto cobiçara — revanche de uma infância e adolescência agrilhoadas à introversão própria de uma criança sobre-protegida, a salvo das luzes ofuscantes deste Mundo... 





         A história de "Barakei [薔薇刑] — Um Ordálio De Rosas", album fotográfico elevado ao estatuto de 'obra de culto', concebido conjuntamente pelo seu 'autor', propriamente dito,  Eikō Hosoe [細江英公, Hosoe Eikō, n. 1933], e pelo seu 'objecto', Yukio Mishima [三島由紀夫,  14.02.1925 — 25.11.1970] himself, entre Setembro de 1961 e o Verão do ano seguinte, e publicado pela primeira vez, em meados de 1963 numa magnífica edição de dimensões alargadas e cujas escassas cópias — mil e quinhentas ao todo — foram autografadas uma à uma por ambos os seus criadores, atingindo hoje, e no mais dos casos, valores verdadeiramente proibitivos nos mercados livreiros onde circulam, podeis conhecê-la AQUI [in English] pelas palavras do próprio Hosoe Eikō e a propósito de uma reedição muito recente e não menos cobiçada que a APERTURE FOUNDATION, titular dos direitos de edição em Língua Inglesa das obras de Hosoe, cuidou de lançar ainda em 2009, assim creio eu, tendo em vista o eventual interesse que o nome Mishima Yukio (res)suscitaria por altura da passagem dos 40 anos sobre a data da sua morte (25 de Novembro de 1970). 


           Foi, porém, precisamente uma dessas raríssimas cópias da edição original, autografada, de 1963, a que recentemente, e como que por magia, me coube em mãos, gentilmente cedida por uma das várias bibliotecas desta mui nobre cidade de Hakata, por mim regularmente frequentada, e que surpreendentemente, ou nem por isso, se acha disponível  ao grande público para consulta e apreciação no conforto do lar...


          Nesta edição original de 1963, figura ainda a tradução em Inglês do seu título para "Killed By Roses" — VER foto que se segue ☟ —, o qual, posteriormente e por insistência do próprio Mishima, seria re-traduzido e re-impresso como "Ordeal By Roses", título pelo qual a obra passaria a ser melhor conhecida e vulgarmente referenciada, não obstante o facto de até 2009 ter sido objecto de apenas duas reedições no Japão e nos E.U.A, em 1971 e 1985, respectivamente. Numa interpretação literal, Barakei — 薔薇刑 — traduzir-se-ia mais correctamente ou melhor (em Português) para algo como 'Um Castigo de Rosas' ou 'Punido p'las Rosas', sendo 'castigo', 'punição' ou 'sentença', o significado comum do 3º Kanji [刑 — 'Kei']. 















Assinaturas de Hosoe Eikō [細江英公], à esquerda, 
e de Mishima Yukio [三島由紀夫], à direita.
1ª Edição de "Barakei", 1963. 




















           "As palavras constituem um meio pelo qual toda a realidade se vê reduzida a uma abstracção destinada à sua percepção num plano puramente racional, e é precisamente no âmago do seu extraordinário poder corrosivo da própria realidade que espreita o perigo de as próprias palavras se degradarem. 

            "Não será, de todo, despropositado, afinal, comparar a sua acção, e a título de exemplo, a ess'outra de um certo excesso de fluidos gástricos que ao agir na digestão daquilo que nutre um homem, gradual e inevitavelmente procede à destruição do seu próprio estômago.






           "A maioria de vós manifestar-se-á descrente da ideia de que um tal processo se possa instaurar no íntimo de alguém logo desde os primeiros anos de vida.  Porém, sem sombra de dúvida, foi precisamente o que se passou comigo, e a um nível muito pessoal,  desbravando-se assim o território onde duas tendências que se me impuseram desde então e em conflito, haveriam de colidir. Uma levar-me-ia a prosseguir  com determinação e compromisso na demanda da força corrosiva das palavras, convertendo-se na obra da minha vida. A outra era o desejo irreprimível de encontrar uma outra realidade, um foro no qual às palavras não coubesse qualquer desempenho."




MISHIMA YUKIO,  in "Sol e Aço" [太陽と鋼], 1967   











          Mishima trataria de desenvolver o tema da apetência pela aquisição de força física, musculada, apta a uma vida de acção, numa das suas últimas obras: o ensaio de 1967 intitulado "Sol e Aço" [太陽と鋼 — "Taiyō to Hagane"], escrito sobremaneira hermético no seu esforço dissertante, mas ainda assim fundamental enquanto leitura incontornável para todos quantos pretendam inteligir o peculiar processo espiritual pelo qual o reverenciado homem de letras se forçara à conversão numa figura ero-vilânica, um dandy de posters 'camp', ícone de um certo estrelato mediático do seu tempo e que acabaria por se tornar numa espécie de 'embaraço de referência' para as gerações sucedâneas e em particular para aqueles que haveriam de ocupar o seu lugar enquanto vulto maior do Século XX literário do seu país.





          O narcisismo militante de "Barakei" poderá surgir, aos olhos de alguns, como um mero e execrável exercício de auto-promoção desenfreada, puro kitsch, paródia inconsciente e inconsistente de um fardo de quimeras do íntimo a roçar o grotesco. 
              Não deixa, contudo de ser um momento extraordinário numa vida ela mesma absolutamente extraordinária. 
           Mishima sabia perfeitamente o que estava a fazer quando, pela primeira vez, se deixou fotografar pela câmera de Hosoe, nesse fim de Verão de '61, e quando lançou mão à preparação da obra em formato encadernado. O controle que exercia sobre empreitadas desta monta era total e intransmissível.
          E recordemos ainda, a este respeito e a fechar, a 'advertência' de Henry Scott Stokes, amigo dos seus últimos anos de vida e seu biógrafo, ao citar o próprio Mishima: "Queria fazer da minha vida um poema..." — palavras dispersas entre as suas anotações do tempo da redacção de "Confissões de Uma Máscara"[仮面の告白], de 1949.


             Se outros versos não houvesse, haveria sempre os deste Ordálio de Rosas.


             A contemplar. 

















































































































































































sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Bunka-No-Hi — 文化の日

        

        
        A esta hora já todos os amantes da modalidade, de São Paulo a Coimbra, da Galiza à Tasmânia, de Santiago do Chile a Hong Kong, saberão que nesta 58ª edição do Zen Nippon Kendo Senshuken Taikai [第58回全日本剣道選手権大会], após oito sofridas participações em edições anteriores, coube a Takanabe Susumu [高鍋進], 34 anos de idade, Renshi [錬士], Roku Dan [6º Dan — 六段], profissional da Polícia da Prefeitura de Kanagawa [神奈川県] e discípulo do já hoje lendário Miyazaki Masahiro [宮崎正裕] — seis vezes Campeão Nacional do Japão (em 1990, '91, '93, '96, '98 e 1999) —, arrecadar este glorioso título.
          Em todo o caso, não podia deixar passar a notícia.

      Aqui fica o vídeo do 'nervoso' shiai final que opôs o novo campeão ao guardião do título conquistado na edição anterior, Uchimura Ryōichi [内村良一], 30 anos de idade, também ele profissional da Polícia de Tokyo-Tō, num embate onde o ippon da vitória ainda ia dando azo a polémica, não fosse os três Shimpan (árbitros), quase em simultâneo e no momento de reconhecer/atribuir o ponto vencedor, haverem erguido, cada um a sua, as bandeiras da cor do vencido (Uchimura — 'mejirushi' [目印 — fita nas costas] de cor BRANCA) — numa daquelas gafes que fazem milhões erguer-se das cadeiras! — para logo de imediato, e com a mesma quase-perfeita sincronia, reporem a 'normalidade' em face do que todos, in loco ou via NHK, tinham acabado de apreciar...

          É ver.      


TAKANABE [高鍋],  Akai 'mejirushi',  
UCHIMURA [内村], Shiroi 'mejirushi'.


      E ainda, em jeito de 'bónus', para os que gostam mesmo, mesmo, mesmo muito destas coisas, um breve 'apanhado', cortesia da NHK, canal público da televisão Nipónica, dos melhores momentos de ambos ao longo da edição deste magnífico torneio: