quarta-feira, 29 de julho de 2009

JOVENS PROMESSAS

Decorreu entre os dias 24 e 29 (ontem) deste mês, o muito prestigiado GYOKURYUKI HIGH SCHOOL KENDO TOURNAMENT (玉竜旗高校剣道大会) - Torneio Nacional de Kendo Inter-Liceus "Estandarte da Bola do Dragão" (Gyokuryuki - 玉竜旗), nome de facto muito engraçado por inevitavelmente nos trazer à memória o afamado desenho-animado, colecção de bizarrias dilectas de miúdos e graúdos por esse Mundo fora, se bem que, tanto quanto pude apurar, não há qualquer relação entre os dois nomes, desconhecendo a origem da referência.

Este prestigiadíssimo torneio de Kendo inter-escolas, com presença de equipas oriundas e representativas de praticamente todo o Japão, remonta ao ano de 1916, realizando-se, desde então, e com uma relativamente breve interrupção entre os anos de 1942 e 1955, anual e quase invariavelmente sempre nesta nossa cidade de Fukuoka, Kyushu, contando-se já na 88ª edição, sendo acolhido, desde há cerca de 12 anos no espaço do magnífico Fukuoka Marinemesse, espécie de pavilhão desportivo e multi-usos da maior cidade do Sul do país, lugar de características, direi eu, invejáveis para a realização de eventos desta monta.

Este ano, o encontro contou com a presença de um total de 945 equipas - 560 equipas masculinas e 385 femininas - tendo os dias 24 a 26 sido reservados para as competições nas séries delas e os dias 27 a 29 para eles.

As idades dos participantes ficam-se entre os 15 e os 17 anos, sendo esta a competição onde, por excelência, são escrutinados os mais promissores talentos na modalidade, aspirantes a futuros campeões nacionais e, quem sabe?, mundiais nos rankings séniores.

video

Tive a oportunidade de, no Domingo, dia 26 de Julho, assistir à Grande Final da série feminina (video abaixo) e, ontem, dia 29 - entrada grátis -, ao sempre muito empolado e esperado grande desfecho das séries masculinas (vídeo de cima), que encerram anualmente o torneio em clima cerimonial de grande pompa e circunstância, como aliás é próprio de quase tudo o que é evento desportivo neste país.

Começando pelo fim, a final masculina viu defrontarem-se a equipa do Mitokiryukoukou (水戸葵陵高校, 茨城県), originária da Prefeitura de Ibaraki, Kanto (茨城県 - proximidades de Tóquio) -, com uma equipa oriunda de um meio tido por mais provinciano, a equipa do Meitokugijyuku (明徳義塾高校, 高知県), oriunda da Prefeitura de Kouchi (高知県), ilha de Shikoku, saindo estes últimos como os grandes vencedores do Gyokuryuki 2009.

Bons shiai (combates), por sinal muito equilibrados - tendo ambas as equipas kendoshi de estaturas e porte físico semelhantes, o que no Kendo não será aspecto essencial, mas podendo fazer alguma diferença no desempate - cabendo aos vencedores do Meitokugijyuku a côr vermelha e, aos seus adversários do Mitokiryu, a côr branca.

Lego-vos o vídeo do quinto e último shiai (versão sampling) - as equipas apresentam-se no formato 5 contra 5, um par à vez -, mini-doc feito por este vosso Nanban, handicam em punho, à vossa apreciação.

video

No meu modesto entender, bem mais interessante foi o desempenho das miúdas, tendo, na keshou'sen (決勝戦 - grande final), a "equipa da casa", as Nakamura Gaku'en Joshi (中村学園女子高校, 福岡県 - literalmente "As Meninas do Parque Escolar de Nakamura" - Prefeitura de Fukuoka -, colégio chique e tido em alta referência numa diversidade de modalidades desportivas), estas apadrinhadas pelo meu querido Kaneko Nobuyoshi Sensei (Kyoshi, 8º Dan - 八段), defrontado as menos afamadas pequenas kenshi de Shimabara, Prefeitura de Nagasaki, que, ao que me pareceu, se apresentaram na final como uma espécie de outsiders-grande-revelação do ano, nesta edição do Gyokuryuki.

Como todos sabemos, nestas coisas, o favoritismo pode bem ter o sabor de um presente envenenado: no caso em apreço, as meninas do Nakamura Joshi (faixas brancas, no filme) - que arrecadaram o título do torneio em 2005 e 2007 - apresentaram-se com a fanfarra de quem já canta vitória antes do fim, cenário engalanado pela poderosa assistência de inflamados apoiantes e famílias e demais entusiastas da equipa, aplaudindo apaixonadamente cada esboço de investida e entoando slogans de apoio em uníssono, num estilo muito ensaiado, como só por cá se sabe fazer - não esqueçamos que se tratava de equipa da cidade anfitriã do evento...-, acabando por sofrer os revéses próprios de um certo excesso de confiança...

Já as catraias de Shimabara (faixas vermelhas), em geral com menor porte físico, menos exuberância na execução e, sobretudo!, com menos frissom em seu redor, apresentando-se com uma serenidade surpreendente, acabaram por levar a sua a melhor: houshin (放心 - estado ideal de tranquilidade interior) e zanshin ( 残心 - estado de alerta/prontidão) bem aguçados acabaram por ser os dois condimentos certos para a receita da vitória.

NOTA FINAL: em ambas as equipas masculinas a disputar a final, todos os Kenshi são/eram, à data, titulares do 2º Dan (二段); nas equipas femininas: das sete Kenshi de Shimabara (equipa vitoriosa), seis detêm/detinham à data o 2º Dan (二段) e uma o 3º Dan (三段); já a equipa do Nakamura Joshi apresentou-se com quatro Sandan (3º Dan - 三段) e três Nidan (2º Dan - 二段).

Apreciem que vale a pena!


sexta-feira, 24 de julho de 2009

LAR DOCE LAR...

Aos incautos, frequentadores menos assíduos deste blog-espaço-de-convívio, um esclarecimento prévio: Não... Não se tratam de imagens da minha querida Fukuoka, Kyushu, Japão, lugar do meu domicílio...

De regresso a casa, tempo para uma breve passagem por Shangai, República Popular da China, lugar de muitos (des)encantos, gente de muitas raças, côres e credos, praça de todos os negócios (da China e não só)...
A intenção inicial não seria tanto um apreciar da capital comercial do Império do Meio, mas tão somente contemplar, de regresso a casa - digo-lo uma vez mais - aquele que foi anunciado como sendo o mais longo Eclipse Total Do Sol do Século XXI...

Sim: de retorno à Ásia que trago no peito, tempo para uma litúrgia da Mãe-Natureza em pessoa, de dimensões e solenidade sem igual, como nunca antes me tinha sido dado o privilégio de presenciar, e, claro está, o entusiasmo - para mais sendo esta a 1ª vez que iria pisar o solo da grande promessa do novo século - era mais que muito...

Tripla decepção - um mal nunca vem só! e desta foi a valer: nem Eclipse - antes de mais por pura displiscência deste vosso NanBan, que se meteu num avião que (necessariamente) acabava por o pôr no devido destino demasiado tarde para o efeito ("Oh NanBan! Então não estás já mais que batido em viagens entre a Europa e o Extremo-Oriente??? Então não 'tás fartinho de saber que chegas lá 'um dia depois'?"... Eu sei... Eu sei... Não batam mais no ceguinho... enfim...) - e nem que, ainda que comparecendo a horas, pretendesse gozar o melhor do propósito inicial da minha vinda à China neste 22 de Julho de 2009, o céu do dia era bem o que podeis apreciar das fotos aqui anexadas: e escassos minutos depois de serem tiradas as famosas fotos, chovia a potes como só climas como aquele, nesta altura do ano, permitem... ("Oh NanBan! Então não estás já mais que batido no 'saborear' do clima extremo do Sul do Extremo-Oriente??? Não estás mais-que-esclarecido de como é o 'Verão' de lá??? ... Eu sei... Eu sei... ora, pois...)
Terceira etapa da borrasca: (mais um aviso prévio: ainda que estando longe de partilhar sentimentalismos universalistas de gosto new age mais-que-duvidoso, faço questão de dizer aqui e agora que não gosto, MESMO NADA, de dizer mal de seja quem fôr... mas no caso em apreço fico mesmo sem margem de manobra...) Shangai, a tão badalada, tão apregoada, tão promissora Shangai deste início de Século (o tal a quem já há quem chame O Século da China) ia-me matando de susto!

Aquilo que eu só posso comparar à Câmera dos Horrores de um certo museu de figuras de cêra, começa, enquanto itinerário, no trânsito automóvel selvático, passa pelo panorama geral dos gigantescos parques habitacionais de arranha-céus de betão barato, dá uma volta pelo centro histórico - o famoso e, de facto, interessantíssimo Bund - alegada e repetidamente apresentado ao Mundo como área protegida (mas protegida do quê??? Digam-me lá... é que sinceramente não percebi!... ide lá e apreciai com os vossos próprios e insuspeitos olhos...), onde abunda o mais nauseabundo lixo por tudo quanto é pedaço de chão, não há um passeio público, um sequer!, em condições mínimas, e as obras (a pôr tudo o que resta do avêsso) para a mui publicitada EXPO 2010, a darem cabo da minha réstia de esperança de sair dali com um sorriso breve-que-fôsse de alguma simpatia...
Dia 23, dia de finalmente! voltar então a casa. Um passeio de duas horitas e pouco, ainda e sempre pelo centro que a cada passo mais e mais se parece - irreversivelmente - com uma versão (very) low budget de Tóquio, de fazer o mais empedernido sinófilo chorar de raiva... e depois... "Basta!": o fedor pestilento do lixo omnipresente, a poluição opressiva (agressiva como nunca tal esperara exprimentar na vida...) que mal deixa os pulmões de quem de fora ambientarem-se por um minuto que seja, o frenesim atropelante, desumano de peões e veículos que só sabem da sua sorte e das horas e lugar onde se devem apresentar, acabavam de deitar por terra o meu último e diplomático esforço de confraternização com esta Nova Babilónia-A-Grande...

À hora da ida para o aeroporto de Pu'dong, num taxi literalmente a voar aos "S"s pelo que parecia ser uma vulgar auto-estrada (tão longe estava eu de perceber ao certo o que aquilo era, nem vos sei dizer ainda... de tão caótico que é!...), a velocidades a oscilarem somente entre os 160 e 200 Km/hora (isto é autêntico meus queridos leitores!!!), com algumas ultrapassagens em movimento quase elíptico pelo meio, e pelo meio de camiões cisterna de combustível com umas quantas buzinadelas de permeio (decididamente em certos lugares do nosso Mundo devia ser crime tocar-se sequer num volante de um veículo a motor...)... tempo para fechar os olhos... tentar respirar correctamente... não pensar demasiado na vida nem na... ouvir alguma música?... talvez?...

A banda sonora para a hipotética morte na estrada de um estrangeiro a caminho do aeroporto internacional de Shangai?... Calhou no Ipod um tema de uma banda de rock Inglesa, destas d'agora, que por acaso tive o prazer de apreciar aqui no Japão, num pequeno clube de Tóquio, há uns meses poucos e de quem gostei bastante, confesso - os White Lies ...
O tema: Fairwell To The Fairground - and the song goes:

Farewell to the fairground, these rides aren't working anymore.
Goodbye to this dead town, until the ice begins to thaw.

This place used to gleam, i see it in my hopeful dreams, now i had to get away.
We move towards the stars, and all that we touch becomes ours, lets keep warm till it's day.

Farewell to the fairground, these rides aren't working anymore.
Goodbye to this dead town, until the ice begins to thaw (...)

(...) Keep on running, keep on running, there's no place like home,

...There's No Place Like Home...