domingo, 31 de julho de 2011

Música para os olhos



Confesso-vos: é verdade, sou cliente da docomo, que, passo a publicidade (totalmente irrelevante para o caso), é mais ou menos o mesmo que a TMN em Portugal.
Mas nem que fosse um anúncio à mais reles banha da cobra, ainda assim acho que partilhava esta pérola publicitária convosco. Que esta tem genuína arte e engenho, como só este país nos dá.

E ainda que seja fã da tecnologia Made in Japan, verdade seja dita, não nutro qualquer espécie de particular interesse por telemóveis e menos ainda pelos deste país que, em minha modesta opinião, são do pior que há (matéria para outra conversa).


☺☺☺

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Mulheres de Armas




A imagem de uma vida.


     Algo me esperava de regresso à Pátria dos Kami e da Nihontō (日本刀).
    Não seria a festa a que alude a entrada anterior nesta folha, mas uma outra festa sim, a tal.
    Sim. Que regressar ao GYOKURYUKI [玉竜旗高校剣道大会] — Campeonato de Kendo Inter-Liceus de Todo-O-Japão é sempre peregrinação digna de especial favor. 
        Um must, absolutamente imperdível por quem por terras de Kyūshū passe ao cair de Julho. 

      E ainda hoje me pergunto como, e havendo tantos desses ditos expats [palavrão pedante] por cá de residência fixa, continuo, e que me lembre, de há três anos a esta parte pelo menos, a ser o único gaijin que nunca falha uma edição do maior torneio juvenil da arte magna nacional de Yamato (bem sei, que há afazeres muitos, responsabilidades, família, escritório, tudo coisas bem mais sérias, e o Gyokuryuki estende-se pela semana útil adentro, mas em cinco dias de combates das 8:00 às 18:00, não me digam que não há uma folga na agenda... Eu próprio não estou lá todos dias e por muito que venere a modalidade e o evento em si, ainda forço uma brecha entre as responsabilidades do dia para apreciar um par d'horinhas que seja do torneio).






     De 24 a 26/07 (as fotos são do dia 25, fase de qualificações) decorreu a metade do torneio entregue às Joshi [女子], bravas legatárias da tradição dos seus ancestrais Bushi, egrégios avós que a seu tempo confiavam a espada tão-só aos varões de suas casas, relegando para as mulheres as funções de oku-san (奥さん, literalmente, as 'lá-de-dentro', a palavra japonesa ainda hoje formalmente em uso para 'esposa', numa sociedade ainda predominantemente patriarcal). Outros tempos, outras vontades. Hoje, as Joshi dão cartas em todas as modalidades de armas tradicionais e o Kendo é hoje, bem mais que a Naginata — tradicionalmente a arma 'delas' — , o seu palco de eleição para brilhar, e oh! se brilham!...




     Não sou propriamente adepto de uma certa retórica que, à força de querer conciliar o altivo firmamento das coisas do intelecto e do espírito com esse bem mais mundano e   negligível patamar das recreatividades  desportivas, se recorre imprudente e impenitentemente de um Camus, da sua paixão pelo futebol e pelo Racing Universitaire d'Alger — clube onde jogou em plena juventude na sua Argélia natal — e desse seu mítico "Tudo o que aprendi na vida, fi-lo com o futebol." (disparate, a citação correcta é esta: «Vraiment le peu de morale que je sais, je l'ai appris sur les terrains de football et les scènes de théâtre qui resteront mes vraies universités. »).


        Contudo posso e devo afirmá-lo: muito do que aprendi sobre o Japão e a sua gente aprendi-lo com o Kendo e em recintos e torneios como o Gyokuryuki, pois que a modalidade em si e eventos como este escondem a cada tornear do olhar em diferentes direcções, uma esplêndida multitude de complexos (ainda que candidamente simples na aparência) códigos e idiossincrasias que só este país e esta gente acolhem como coisa muito íntima e de inconclusivo escrutínio.


        















Há uma combatividade obstinada pelo estandarte e cores envergadas.



Há uma disciplina incorruptível no que às coisas do estandarte e suas cores se refere 
e a ocasião confere.













































Há uma serenidade na espera. Um silente apreciar do desenrolar do jogo.




















































Há vénias feitas a contra-gosto...


















... e um mal-disfarçar de emoções à flor da pele.













Há um pesado apreciar e um minucioso, ainda que tenso, ponderar do outro.



























Há um ver e um conter. E um calar.






































E há discretas confidências em surdina.
E a importância dos caracteres impressos, e não tanto por aquilo que dizem,
mas por aquilo que parecem, ou melhor, sugerem — uma vez impressos.














Há um colectivo reportar aos outros dos feitos de todos e cada um.













E um colectivo partilhar das alegrias e esperanças de todos.

















E esse peso da responsabilidade pelas esperanças depositadas em nós e por nós nos outros.
Nos que dão o exemplo.













Há um cuidar das regras — questão de Dignidade.





















Há um asseio, de corpo e de espírito e de traje — questão de Dignidade.













Há um constante cair.


























E um permanente reerguer, com redobradas forças.









E há uma alegria infatigável em ser parte do clã, em envergar-lhe as cores e defender-lhe o estandarte.



Hoje, 27,  foi já dia de prestações dos mancebos.
Amanhã lá estaremos.


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domingo, 24 de julho de 2011

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Já foi mais fácil...





  


   ...partir.   Fazer a mala e zarpar.

        Sim... já foi bem mais fácil.

          E deixar tudo o que tanto nos disse e nos deu sem olhar atrás. 
     E por mil e uma causas que haja d'amaldiçoar este lugar e tudo quanto nele cresça e dele provenha.
         Não. Não há direito.

         E por tudo o que ficou por fazer e por dizer, e por todos os amargos de boca que pesem no peito e cujos nomes se tatuem na memória para que da memória não mais se desvaneçam. E para memória futura. 
      E por tudo o que amámos e amamos, daqui, dos que são nossos e bem nos querem e do tanto de bem que lhes queremos, e apesar do tudo o que de uns e de outros condenamos.

        E dói muito quando se parte assim, e é tanto mais o que fica no cais que o que a mala carrega e o coração suporta.

          E num lugar assim, sob um céu e um Sol como estes, tamanha tristeza devia ser crime.





My Life Is A Succession Of People Saying Goodbye



✹
     

domingo, 12 de junho de 2011

Reencontro com a Memória










        Redescoberto entre as estantes da Família, "Nanban-Jin — Os Portugueses No Japão/The Portuguese In Japan" (1993), obra da autoria de Luís Filipe Thomaz, edição filatélica, bilingue, a cargo dos CTT, limitada a 15.000 cópias numeradas e autenticadas pelo editor. 
         Indispensável para qualquer amante da temática em causa.
















































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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Viagem Ao Fim Da Madrugada





De malas feitas, pomo-nos em marcha e largamos da Velha Enseada.

Vemo-nos por aí.

じゃ、ね。


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(Entretanto esta casa não encerra portas, 

só muda de ares por umas semanas.

A gerência agradece.)






sexta-feira, 27 de maio de 2011

Fora de época







     
     A caminho do Nordeste e em força, o Songda chega às Ilhas-Mãe amanhã, inesperado e fora de estação. 
    É certo que a Tsuyu [梅雨 — Estação das Chuvas/Monção] abriu oficialmente ontem, e com ela vêm, via de regra, fortes rajadas de chuva e ventania de Sul. Porém, não façamos confusões: a época da 'caça ao tufão' no Pacífico Norte situa-se, por norma, nas semanas compreendidas entre o final de Agosto e meio de Setembro, motivo pelo qual o Songda, chegado de surpresa das Filipinas esta semana, causa particular estranheza aos que por cá estão.






    Para o vosso leal NanBan, a dizer a verdade, a preocupação do momento prende-se sobretudo com a perspectiva de já para a semana vos prestar uma visita — sim, aí mesmo, em abençoado solo pátrio! —, algo que implica voar...  eventualmente em condições menos favoráveis que o que seria desejável... 
    Porém, não temeis: a boa estrela desta ponta-mais-ocidental do Japão — velha baía de Hakata — parece não ter esquecido este vosso peregrino, e o certo é que todos os serviços meteorológicos consultados até ao momento, apontam a franja noroeste de Kyūshū como a região menos exposta à voragem da tempestade, atingindo esta o pico da respectiva dispersão a 1 de Junho — ainda antes da descolagem deste vosso amigo e a caminho da ditosa Pátria, via North by Northwest, Sibéria branca adentro, non-stop até à Velha Europa. 






     O certo é que, por estes dias, entre as preocupações dos mais pessimistas, não pesará tanto o montante dos eventuais estragos a assinalar pela passagem do Tufão Songda, mas sobretudo com a previsão de um dano colateral mais sinistro: a eventual sobre-dispersão da radioactividade concentrada na região de Tōhoku e em particular sobre Fukushima e na sequência do Grande Cataclismo de 11.03. Há até quem já tenha feito uma antecipação esquemática e correspondente motion picture do anunciado processo de alastramento desse grande e insinuante mal invisível à solta no firmamento...



Clicar na imagem ou no link para uma melhor apreciação


    Em qualquer recurso — e como podeis apreciar da imagem —, Kyūshū Norte sai desta contenda aparentemente, e uma vez mais, intocada, ilesa, imaculada...



I got an Angel...








(ou melhor) 
Here Comes The Rain Again


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sábado, 21 de maio de 2011

...Do que nós precisamos...




...é de DISCIPLINA!...









...se bem que, e como já dizia o outro,
please, don't try this at home.



良い週末を!
Bom  fim-de-semana.




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quinta-feira, 19 de maio de 2011

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Quem Passa Por Kumamoto...





Castelo de Kumamoto (Kumamoto'Jō — 熊本城),
ontem, ao cair da tarde






















   ...quando a intenção, ontem, não era tanto essa de ir lá, mas antes o pagar de uma promessa, e assim partimos em nova peregrinação.

    
























      Porém, uma vez em Kumamoto (熊本市) não há como evitar ir lá.
    O lugar é simplesmente maior que nós; mais poderoso, apelativo, carismático e insinuante que tudo o mais que possamos eleger num amplo raio de acção, nesta Kyushu de todas as lendas e narrativas. Um portento...








    E depois de uma breve visita à galeria privada da Família Shimada, outro must para quem por cá passe, e ainda que a tarde avançasse a passos largos e contra os ponteiros do relógio, não haveria como eximir-nos a lá irmos: o imponente castelo parece dotado de uma força magnética irresistível que a ele atrai tudo e todos.









      E, de facto, pelas cinco da tarde já não era hora de subir a sua altiva torre-mestra de seis andares e apreciar, a par da deslumbrante vista sobre a cidade,  a vasta colecção de armas, artefactos antigos muitos, mapas, planos de batalha e extensa documentação histórica exposta ao público e que o seu interior orgulhosamente alberga. Porém, houve ainda tempo de uma breve visita ao esplendoroso Honmaru Goten (本丸御殿 — Palácio de Honmaru),  antiga residência dos Senhores de Higo, primeiro com Katō Kiyomasa (加藤清政) — fervoroso adepto do Budismo Nichiren e um dos mais ferozes inimigos dos NanBan e da Cristandade em terras de Kyushu —, e após 1632 do Clã de Hosokawa (細川氏 — Hosokawa-shi), ramo do Clã de Minamoto (源氏 — Minamoto-Shi), casa aristocrática emanada da descendência do Imperador Seiwa (清和天皇 — Seiwa Ten'Ō [850–880]) e dos Shogun de Ashikaga.

























   E devo dizer que, ao entrar aqui, estranhei: é que quando aqui vim pela primeira vez há cinco anos, o Honmaru Goten ainda cá não estava — melhor dizendo, estava em processo de restauro — tendo reaberto ao público em 2008 —, pelo que não me apercebi, na altura, sequer da sua existência, motivo de sobra para ter valido a pena voltar ontem a Kumamoto.

























   E este é, de facto, um lugar para visitar a um ritmo pausado e sem trazer relógio de pulso, para absorver, para 'inalar' e do qual reter detalhes muitos. São mil e uma histórias a contar.

    Parti com muita vontade de cá voltar com mais tempo — felizmente não fica longe. 

    






























Uma visita que nunca cansa.



























































































































































































































































































































































































'Ka'Mon' (家紋 — 'brasões')
dos Clãs de Katō e Hosokawa



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