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segunda-feira, 12 de março de 2012

Ainda e sempre, Tōhoku — um ano depois




Imagens e informações a reter — nem todas particularmente animadoras (nada de novo, é certo...), porém sempre saudando o esforço de tantos e o tanto que já foi feito:








Reconstruir Tōhoku não será tarefa fácil, bem o sabemos — uma perspectiva optimista aponta para 20 anos o tempo que levará até que a região regresse em pleno à normalidade — e não esquecendo os gigantescos quebra-cabeças que a situação actual impõe, como os milhões de toneladas de entulho que ninguém quer e que ameaçam hoje tornar-se parte da paisagem, o realojamento de centenas de milhar de pessoas que tarda, e, claro, Fukushima, com tudo o que este nome hoje omina...


Porém muito já foi feito, está a ser feito e será feito, com o amor e o incansável empenho e dedicação de tantos que se entregaram já, de alma e coração, à causa do renascimento do Nordeste do Japão.
Também esses não devemos esquecer e ainda que pouco os vejamos nos noticiários e foto-documentários, pois são eles quem, a cada dia que passa, restitui à paisagem de Tōhoku um pouco mais da vida que as imagens de há um ano atrás sofismavam ter-se perdido para sempre.




A esses que lá estão, uma especial dedicatória nesta hora, um ano e um dia depois.


    

   愛郷精神 

[あいきょうせいしん]

"Amai A Vossa Terra"






("Spared, I've been spared, all the powder,on a trumpet of Gabriel")











  



sexta-feira, 8 de maio de 2009

軍艦島 - "Gunkanjima" - A "Ilha-Couraçado": agora já a podemos visitar...

Ele há aficcionados das paisagens civilizacionais obliteradas e decrépitas: eu sou um deles - os que reconhecem nestes lugares uma certa poesia dos escombros - e a esses como eu, por esse mundo fora, dedico este artigo...


Não vos sei explicar este sentimento - limito-me a reencontrar, agora e sempre, uma emoção antiga, inefável, uma suave e terna tristeza feita assombro, como a de quem algures num outro tempo esteve, foi parte daquilo, e para quem aquilo, que o abandono e o esquecimento degradaram, teve um dia um significado vital.


Hashima, (端島), esse lugar desterrado, mais conhecido pela gente daqui como "Gunkanjima" (軍艦島) - a "Ilha-Couraçado" - era, antes de o ser, um mero trecho de terra, ausente do mundo das coisas que importam.
A corrida ao carvão, aquando do período da industrialização do Japão pelo andar da Restauração Meiji, segunda metade do Século XIX, tornou este lugarejo esquecido no mar de Nagasaki, num cobiçado tesouro. 
Não tardou muito para que o progresso imparável dessa potência então em plena ascensão que era o Dai Nippon do virar do século, trata-se do assunto de séria e impiedosamente converter o que era aquela parca parcela de areia e ervas e umas quantas rochas, no complexo enmaranhado-cinzento de monólitos modernos que a Era Das Máquinas, a força desbravante da sobre-indústria nos legou. 
Feita mina de carvão, com a sua gente operária a laborar e a viver lá, Hashima, de seu pouco mais de 1 kilómetro de extensão, chegou, a ser, no seu auge, o lugar do mundo com a maior densidade populacional de sempre  - fala-se de 1,391 pessoas por hectar (139.100 pessoas/km2).

Decaída na sua importância, a produção de carvão cedeu lugar à ascensão do petróleo enquanto rei dos preciosos combustíveis fósseis.

Foi a morte da "Ilha-Couraçado". 
Assim chamada pela gente, pela semelhança que a visão dela sugeria, uma vez vislumbrada no horizonte, com um certo vaso de guerra da época, o Tosa.

Alguma Alma lá ficou - dizem os que sabem - desde que a última embarcação de operários e suas famílias deixou o ilhéu de betão-armado, já  lá vão trinta e cinco anos...

E talvez por essa Alma Operária que o betão guarda em santuário e que está lá, vive lá, há quem a nomeie ainda, com maior temor reverencial que desdém (assim quero eu crer), de Ilha Fantasma...


Não foram muitos os tantos que quiseram saber mais dela nas três décadas e meia que medearam desde o último frete a deixá-la até à Primavera de hoje: as estruturas foram quebrando, as vigas cedendo mais ao peso do oblívio que ao do desleixo, as habitações, outrora insufladas de vida humana, laboriosa, vibrante, tomadas de assalto pelo silêncio de uma memória ausente e pela erva daninha própria dos lugares sem tarefa.

Não mais foi possível ir lá, entrevistar o silêncio, tirar o retrato à ruína.

Mas soube-o hoje: lembraram-se dela, e podemos agora revisitá-la
Há mesmo quem queira fazer, da "Ilha Couraçado", património de todos nós.

Ela certamente o merece...