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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Da importância dos tais 'NanBan' explicada à miudagem...







「じろじろ ぞろぞろ」
("Jirojiro Zorozoro" intraduzível, assim me parece, mas a interpretação mais próxima deste original, onomatopeico título seria qualquer coisa como "Olhando os detalhes" [mas em rigor não é bem esse o conteúdo da expressão].)


       Souvenir da minha mais recente passagem pelo Kyūshū Kokuritsu Hakubutsukan — Museu Nacional de Kyushu —, em Dazaifu [太宰府], não podia deixar de partilhar convosco esta singela peça, um verdadeiro bestseller por estas paragens e um daqueles achados que, parecendo que não, tem sempre aquele benévolo efeito de espicaçar, um nadinha que seja, a nossa auto-estima colectiva, tão de rastos que ela anda nestes tempos, e é mesmo uma curiosidade a saudar com entusiasmo.





             Partindo de um dos mais famosos NanBan Byōbu — 南蛮屏風 — da Escola de Kanō — 狩野派 [Kanō-ha] —,  os tais "Biombos dos Bárbaros do Sul", representando a presença dos Portugueses dos Séculos XVI e XVII no Japão e, em particular, a colónia de Nagasaki, fundada  em 1571,  este "Jirojiro Zorozoro", pequeno livro para crianças, publicado pelo próprio Museu Nacional de Kyushu, percorrendo uma variedade de detalhes de manifesto interesse na obra de arte em causa e colocando a tónica nas imagens em detrimento do texto, explica, muito resumida mas ainda assim concisamente, a importância e a influência dessa remota herança da Dai'Kōkai Jidai— 大航海時代, literalmente "a Era das Grandes Viagens Marítimas" — na cultura nipónica.


            Uma pequena pérola a conservar e ideal para folhear ao serão em família.


Ora vejam!


見て下さい!





































































































































































































































































































segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Jóia da Ilha









     Quinta-feira, 10 de Fevereiro, véspera do Kenkoku Kinen-No-Hi, oportunidade para uma visita a um dos lugares de maior interesse em Fukuoka: o Museu Nacional de Kyūshū (九州国立博物館 — Kyūshū Kokuritsu Hakubutsukan) em Dazaifu [太宰府], edifício aberto ao público em Outubro de 2005, casa de um importantíssimo espólio cultural e palco de inúmeras exposições itinerárias de grande destaque.
  O motivo primeiro desta mais recente visita ao Museu Nacional em Dazaifu foi precisamente uma chance única de apreciar uma importante colecção de originais de Van Gogh e outros impressionistas seus contemporâneos, de passagem por este canto remoto do Mundo. Porém, não obstante o protagonismo do evento, foi o próprio edifício deste novíssimo Hakubutsukan o ponto da visita que mais tempo haveria de consumir a este meu  último périplo por Dazaifu.








     Edifício de magnífica concepção e contornos, o Kyūshū Kokuritsu Hakubutsukan é uma verdadeira jóia, delicadamente inserida na paisagem circundante, não obtsante a sua altiva modernidade e imponência. 
    Um marco de orgulho para as gentes deste Japão ocidental, menos exposto às luzes da ribalta que, com maior frequência, brilham sobre Tóquio, Osaka, Kyoto e outras cidades de superior nomeada.

      Lugar de peregrinação obrigatória para todos quantos um dia se dignem por aqui passar.


      Aqui ficam os retratos.


     Boa semana!


     でわまた!











































































































































































































































sexta-feira, 13 de agosto de 2010

二天






Entre o espólio de uma certa colecção privada no Japão, conta-se uma pintura absolutamente notável, com mais de quatrocentos anos, representando um picanço no alto de um junco seco.
Elaborada a tinta-da-china e medindo cerca de um metro e vinte por sessenta, esta excepcional imagem exibe uma tensão e uma clarividência de espírito que sugerem exceder largamente os modestos limites impostos pelos breves traços e estreitas dimensões que a compõem.
O picanço, a ave atenta, pousada no alto do junco, exprime uma atenção e uma concentração simplesmente extraordinárias; o bico proeminente, pronunciado numa breve, quase-cruel, curvatura; o olhar fixo contemplando o Vazio que se estende ali defronte... Trata-se, sem dúvida, de um pássaro como esses que, de quando em vez, observamos nos nossos terraços e jardins. Porém, ao fixarmos o nosso olhar nesta obra, é, na verdade, aquele um-só traço, longo, tenso e'inda assim fluído, esse que compõe o junco ou a quase totalidade da sua extensão, o elemento que mais nos intimida.
Principiando do fundo, à esquerda, e como que cortando a tela num só movimento ascendente que se detém num ponto coincidente com o seu centro, ele há ali uma graça e uma força cega, indómita, no fluir daquele um-só traço tenso e estacionário, enfrentando, desafiante, aquele 'Nada' no horizonte; e o observador é levado a concluir que o pintor desta obra seria, certamente, um homem absolutamente isento de qualquer medo. De outro modo, como poderia ele ter a confiança e simultaneamente a destreza únicas daquele um-só traço comparável tão-só ao golpe letal de uma espada afiada?



*in "Go'Sho'Rin — 五書輪 — O Livro Dos Cinco Anéis",
Miyamoto Musashi, do Prefácio
ed. bilingue Japonês-Inglês,
a cargo de William Scott Wilson e Matsumoto Michihiro,
Kodansha International, Tokyo, 2001.





sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Da persistência da memória


Ele há dias assim. Dois ou três dissabores de enfiada. Uma quezília com os astros, assim dá de parecer. E depois há aquela minha melancolia crónica, que teima em dar sinais de vida em alturas destas. Coisa de fígados, diriam os nossos egrégios avós...

E num dia assim, nada como ser presenteado com um recuerdo desses de valor mais emocional que outro que se lhe queira atribuir, com as côres correctas e um peculiar ar-de-sua-graça.


Foi ao passarmos, pela tarde de ontem, pelo Museu Nacional de Kyushu (九州国立博物館 - Kyushu Hakubutsukan), em Dazaifu, nos arrabaldes da nossa Fukuoka, que demos de caras com o simpático artefacto na imagem, ali, relativamente incógnito, esse tenugui (手拭い) invocativo da memória NanBan por terras de Kyushu... A Etsu insistiu em dar-mo de prenda de dia-não, se há lá coisa para dar em dias destes... Coisa boa para sorrir como um miúdo a quem é dado um brinquedo novo... Até porque é particularmente reconfortante, em dias de má-memória como o de ontem, constatar haver merchandising deste com fartura em lugares como o Kyushu Hakubutsukan - havia lá, entre canetas, postais-ilustrados, blocos de notas, pisa-papéis e bibelots ligeiros para gostos menos exigentes, todo um sem-número de pequeninas lembranças dessas de fazer o gosto ao dedo ou de dar de omiyage quando se visita a família por cá, invocativos de uma certa portugalidade remota, todas elas ostentando a invariável carraca, essa icástica Nau do Trato, o Kurofune (黒船 - a Nau Negra) como lhe chamavam os daqui, e que nos idos de quinhentos, e por mais de seis décadas, ligou as praças de Gôa, Macau, Malaca e Nagasaki, entre longas e arriscadas empreitadas da fortuna prometida por mares d'Oriente, na reclusa solidão da tormenta, e que os ilustradores dos byôbu (屏風) de então trataram de imortalizar num certo imaginário colectivo.

E tudo isto não seria mais que um anedótico fait-divers, não fôsse o facto de por esse Japão fora, este vosso NanBan ter tantas vezes sido confrontado com a mais cruel e inusitada das ignorâncias acerca do seu país de origem: isto num país que além de afamadamente próspero e tido por 'educado' (era há não tanto tempo assim um dos campeões pêsos-pesados do investimento público em matéria de educação), viveu perto de um século da sua história com o nome de Portugal escrito nos respectivos anais, e que para além de uma muito significativa presença hoje de uma vasta comunidade imigrante Brasileira - e de uma forte e bem propagandeada ligação ao país que por seu turno acolheu, desde 1908, vários fluxos migratórios oriundos daqui -, reconhece a importância desta presença transoceânica, dando à Língua Portuguesa um merecido destaque de que não comungam outros idiomas ocidentais - veja-se, a título de exemplo, que em qualquer ATM aqui, figura um menú de opções/acções que além do idioma nacional contempla o Mandarim, Coreano, Inglês e, pasme-se, o PORTUGUÊS, assim bem escrito e claro, e não há espaço para mais (Français, Deutsch, Español, ficam de fora). Pois é verdade, caríssimos: já por uma mão-cheia de ocasiões, autóctones presumivelmente (bem-)educados, me perguntaram sem trejeitos de descaro que língua se fala em Portugal, fora as vezes, que já lhe perdi a conta, que nem com um planisfério à frente ou sequer um mapa da Europa diante dos olhos me souberam apontar com o dedo o país do Kurofune. Nem invocando o nome de São Cristiano Ronaldo o mais das vezes sequer lá vão.
E assim sofre o nome da Lusa Pátria no Mundo.

Valha-nos haver quem insista em remar contra esta maré vazante do oblívio colectivo e faça por vindicar a memória que é de todos, como os mentores desse exemplar NanBan BunkaKan (南蛮文化館 - Museu/Galeria da Cultura Nanban), instituição privada sita em Osaka, que recomendo a todos os interessados nestas coisas da lusitanidade no Mundo, e se por lá passardes.

Bom fim-de-semana a todos.

気をつけて / Ki o'tsukete.