sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sim, estamos atentos.



e num jornal deste calibre, então é porque não há que ter medo da verdade.
Já não há nada a esconder?
Parecia que sim.

Agora, e de uma vez por todas, parece mesmo que não.



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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Da Euforia à Hecatombe (II)






Singapura conquistada, Fevereiro de 1942

  • Os Anos da Euforia (II.a)



计划*

"Ao optardes pela guerra, primeiro calculai-lhe os custos (...)
O fim último da guerra não é mais que a vitória.
Se est'última se atrasar, as armas perderão aprumo 
e o moral dos homens dissipar-se-á (...)
E ao avançar contra múltiplas cidades, a força dos exércitos dispersar-se-á.
Em guerras que se arrastam, os recursos comuns de um estado não hão de bastar.
Quando as armas perdem aprumo e o ardor dos homens esmorece,
quando as forças e os tesouros se esgotam,
outros estados na vizinhança cuidarão de tomar vantagem 
da vossa dificuldade em prosseguir.
E mesmo que vos precaveis pela prudência de sábios e leais conselheiros,
não haverá plano que heis de conduzir com sucesso 
e pelos tempos que se avizinhem.
E se heis de ver retumbantes vitórias em guerras breves,
 jamais as vereis em guerras que se arrastam.
Pois que nunca houve guerra que se arrastasse,
que estado, fosse ele qual fosse, dela colhesse proveito."






SUN TZU, "A Arte da Guerra" [孫子兵法], 
Capítulo II: "De Como Fazer A Guerra" [作戰]*   











   Antes que possamos prosseguir — e porque as imagens que estimulam o espírito de reflexão, uma vez destituídas da substância dos factos, se arriscam, assim, a promiscuir-se com a pornografia própria da crueza que lhes assiste, e, desse modo, a reduzir-se ao mero e indolente espectáculo da História feita entretenimento —, façamos então uma revisão da matéria dada.

     Para um país parco em recursos naturais necessários a uma industralização galopante, no início do último século, o controle político e militar de extensas áreas onde os mesmos abundassem, surgia como a opção óbvia para um Japão que, em menos de cinquenta anos, se promovera directamente, e num esforço sem paralelo na História, de sociedade feudal e atrasada a estado plenamente industrializado e na linha das grandes potências mundiais do seu tempo. 

   As grandes vitórias militares da Primeira Guerra Sino-Nipónica de 1894-95 e da Guerra Russo-Nipónica de 1904-1905 — guerras breves e categoricamente vencidas mediante três, quatro golpes certeiros e decisivos infligidos ao inimigo — haviam aberto as comportas de uma ambição maior e mais audaz, no sentido de uma indisfarçada expansão territorial no continente asiático e até onde os meios político-diplomáticos, militares e navais ao dispor do Império do Sol Nascente lhe permitissem estender a sua esfera de controle e influência. 

   As sementes da ideia de uma 'Grande Esfera de Co-prosperidade para a Ásia Oriental' (大東亜共栄圏, Dai'Tō-A Kyōeiken) — fórmula via de regra atribuída a Matsuoka Yosuke,  que  daria o leitmotiv para o ímpeto agressivo das décadas de 30 e inícios de 40,  e a seu tempo re-interpretado como pouco mais que um rebuscado eufemismo para um ambicioso império ultramarino a estender-se da Ásia-Pacífico ao Índico e sob as rédeas do Trono do Crisântemo — haviam, pois, sido semeadas em plena viragem do século, graças à espectacular ascensão do Japão de Meiji enquanto potência maior, militar e economicamente falando. 

   Já os avanços do Exército Kwantung (à revelia da vontade expressa de Tóquio em sentido inverso) sobre a Manchúria, a partir de 1928, e em plena guerra aberta (ainda que não declarada) com o regime Nacionalista de Chiang Kai'shek desde o Incidente de Mukden em Setembro de 1931, haviam, desde o seu início, se visto ensombrados pelo alvor de uma nova ordem mundial pós-Grande Guerra de 1914-18, que ao distante e distinto Japão impusera todo um quadro institucional inteiramente novo e agora notoriamente incompatível com as suas reivindicações expansionistas no continente Asiático — processo iniciado com o Acordo Lansing-Ishii de 1917, ainda em plena I Guerra Mundial, e a adesão ao Convénio da Liga das Nações de 1919 (em cujo texto os representantes do Japão, Makino e Chinda, insistiriam na inserção de uma cláusula que expressamente reconhecesse um princípio geral de igualdade racial entre povos, e paralelamente ao princípio/cláusula referente à igualdade religiosa, proposta esta  liminarmente rejeitada por Woodrow Wilson e a delegação Norte-Americana... — e prosseguido com as Conferências e Tratados Navais de Washington (1921-22, Tratado das Cinco Potências em particular) e Londres (1930), de permeio com o Pacto Kellogg-Briand (de 1928, que instituiria a noção jurídica do que viria a designar-se por Crimes contra a Paz), e os Tratados das Quatro e das Nove Potências (neste último, Portugal figurando como signatário e enquanto detentor de interesses específicos na China [Macau]).

      A crescente intransigência por parte das elites militares e políticas nipónicas em permitir que aquilo que agora denunciavam como uma 'intolerável e arrogante ingerência anglo-americana nos assuntos da Ásia', obstasse à legitimidade das suas ambições na Manchúria Interior — território vasto e pródigo em matérias-primas, e desde 1931 seccionada da grande China pelo Exército Kwantung, formalmente re-baptizado Manchukuo e confiado então a um governo fantoche nominalmente tutelado por um monarca na pessoa de Pu'Yi, o último Imperador da Dinastia Qing, a dinastia Manchu, última linhagem imperial a residir na Cidade Proibida, em Pequim, e a reinar sobre o Império do Meio, e até à proclamação da República da China em Janeiro de 1912 — arrastaria o Japão para o acumular das tensões internas e externas que desembocariam no processo conducente à Guerra do Pacífico

    O documentário que se segue, em cinco breves partes, resume, com louvável rigor e sem tomar partido ou aplaudir causas, assim me parece, os factos de maior relevância para uma compreensão sucinta dos termos que estenderam um conflito em particular opondo inicialmente o Japão à China, ao palco maior da II Guerra Mundial. Foi, salvo melhor opinião, a escolha apropriada.

   Da Grande Muralha a Rabaul e Guadalcanal, do Hawaii a Madagáscar — limite máximo do progresso militar Japonês, em 1942 —, os anos da euforia, das vitórias rápidas, porém inconclusivas, que arrastariam o Japão para uma cruel e agonizante guerra suicida contra os E.U.A, o Império Britânico, a França, a Holanda, ainda e sempre a China de Chiang e Mao, e ao cair do pano, last but not least, a U.R.S.S. ...

    À vossa apreciação.

   (... e a continuar)































*Do Mandarim arcaico  para 'Cálculo'
             — embora seja o Capítulo I da obra de referência atribuída a Sun Tzu, a ser via de regra interpretado como se tratando da parte referente ao tema da planificação da guerra (始计), é no Capítulo II que encontramos o segmento supra citado e a generalidade das considerações relativas ao planeamento do que hoje entendemos como a essência de uma economia de guerra.









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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Eterna Paz



Joe O'Donnell: 'Torched Airplanes', Fukuoka, 1945
Foto documentando uma queima, em grande escala, de aviões japoneses, enquanto parte do processo de desmilitarização geral do país, no imediato pós-derrota. A Base Aérea de Itazuke, onde esta fotografia foi tirada em finais de 1945, havia sido estabelecida dois anos antes e então adstrita ao Exército Imperial, que dela faria o principal centro de treinos dos seus Tokko'tai (esquadrilhas Kamikaze). O lugar é hoje o Aeroporto Internacional de Fukuoka, um dos principais centros de ligações aéreas do Japão ao continente asiático.

(Da Euforia à Hecatombe, I)

   No dia em que se assinalam 70 anos sobre o Shinshu'Wan Kogeki — 真珠湾攻撃, o ataque da aviação naval imperial de 7.12.1941 a Pearl Harbor, e como o mesmo é referido no Japão —,  mais do que reverter para as costumeiras evocações do antes, do porquê e do como — tudo potenciais presas fáceis de uma certa paranóia prodigalizada em múltiplas teorias conspiratórias e mitomanias que nos dias de hoje se reproduzem como coelhos em cativeiro e a propósito de tudo e mais alguma coisa —, afigura-se-me bem mais adequado convosco hoje partilhar uma mão-cheia de reflexões pessoais sobre o depois, e porque é bem mais esse depois que sobre o Japão de hoje ainda pesa, funesto, absoluto e intransigente, e mais que toda a restante memória histórica recente, e num tempo de mudança acelerada no cenário político e geo-estratégico da Ásia, a que assistimos hoje, impassíveis, pelo que urge, agora mais que nunca, agitar o debate — um debate que se quer sério, rigoroso e conclusivo.

   Foi em Setembro passado, se não me falha a memória, e, ao que creio, em jeito de antecipação da memória comum hoje invocada, que tive o privilégio de, em casa, um certo serão, visionar um documentário televisivo via NHK, onde a tragédia dos anos da Guerra se despia defronte das câmeras, com um despudor sem precedentes que aqui pudesse recordar a título de referência. 

   No dito programa, destacava-se uma impressionante colecção de testemunhos na primeira pessoa, saídos das bocas desses homens que a História do último século fez protagonistas à força de alguns dos mais medonhos episódios de desumanização em massa de que há memória, e como a imaginação comum de hoje mal consegue conceber algo assim ser possível. 

    Veteranos de Kokoda e Brigade Hill, combatentes das selvas da Nova Guiné — veneráveis idosos de hoje — e outrora destinados ao supremo sacrifício de defender até ao último homem posições desesperadas em território mais hostil que o próprio inimigo, meses e meses a fio cortados de abastecimentos e desprovidos dos mais elementares recursos necessários a uma sobrevivência condigna, assim entregues à inclemência da selva, do calor ardente dos trópicos, da doença e da fome, e tudo isto narrado num surpreendente registo em tom genericamente sereno e descomprometido, dissertando sobre o recurso à necrofagia e ao canibalismo como último expediente de sustento do corpo, num tempo de desespero e completo abandono do amanhã... 

  Os relatos sucediam-se numa cadência descritiva quase neutra, ainda que ponteada aqui e ali por sorrisos envergonhados, olhares cabisbaixos, silêncios agudos entre afirmações corroídas por emoções mal contidas, onde orgulho, mágoa e incredulidade se imiscuem e dissipam... Depoimentos de frente para a câmera, e sem trejeitos de língua, sem eufemismos, sem auto-comiseração.
   
   Um relato, porém, se destacava. Este, de rosto deliberadamente ocultado na penumbra das sombras de um quarto modesto, feito só da voz de quem, como uma arca de pesadelos que se abrisse à estupefacção geral, esgravatava o fundo da memória má e esmiuçava detalhes, detalhes de um horror inenarrável, e sem disfarçar a angústia do exumar da vergonha e da dor que se carrega uma vida inteira contra à vontade própria de quem ainda se afirma humano. E a voz concluía o seu depoimento com uma interrogação comovida e desarmante: "Que fui eu lá fazer?... Diga-me... Que fui eu lá fazer, miúdo de vinte anos, àquela selva?... Porquê passar o que ali passámos?... "

    O documentário prosseguia noite adentro, se bem me lembro, revisitando outros cenários, outras tragédias, outras más recordações desse tempo delas só feito, cápsula apertada de toda a dor de uma nação — a chacina de guarnições inteiras na defesa de cada frente indefensável, ilha a ilha, em vãs cargas de baioneta e sabre em riste, rechaçadas pela fria mecânica da metralha inimiga, o melhor da juventude de um país atirada em inúteis voos suicidas contra navios impávidos na arrogância da sua notória superioridade, a frente doméstica de '44-'45, o sofrimento jamais esquecido das populações civis, alvo das bombas de fósforo branco de Le May sobre Tokyo, Nagoya, Osaka, Kobe, Sasebo, Fukuoka, da tempestade de aço sobre Okinawa, da fúria atómica sobre Hiroshima e Nagasaki, e ainda a fome, a destruição, as labaredas a consumir casas, fábricas, escolas, templos, igrejas e hospitais, bairros inteiros; a orfandade de quem nunca entendeu o porquê de tanto sacrifício, tanta miséria, tanta devastação e tanta morte vã. 

      Um país inteiro, de milenar história e cultura, precipatado em menos de uma década para a sua quase-aniquilação total, eis o saldo final do aventureirismo belicista e inconsequente de um tempo hoje estranhamente distante.

    E ao fim e ao cabo, tudo se resume à incógnita dess'outro incógnito veterano da frente da Nova Guiné: "Que fomos NÓS lá fazer?... Porquê passar o que ali passámos?..."

    É impossível, pois, e face a tamanho mostruário de sacrifício apocalíptico, duvidar da genuinidade do pacifismo ainda dominante na sociedade nipónica de hoje, e ainda que a memória colectiva sofra a erosão, efeito da mudança dos ventos e marés da história mais recente, mormente quando o esporádico flectir do músculo militar de uma República Popular da China ou de uma Coreia do Norte ecoa o medo do esquecimento e da má ventura da guerra no horizonte.

  O pacifismo japonês enraizado na hecatombe de 1945 tem, portanto, mais-que-ampla razão de ser, e o anseio de Eterna Paz não peca, pois, por cinismo. Porém, e como em  Setembro de 2009, num artigo de opinião publicado então no Mainichi Shinbun e a propósito dos ecos do programa nuclear Norte-Coreano, nos recordava o Professor Iokibe Makoto, Presidente da Academia de Defesa Nacional do Japão, citando então Sun-Tzu: "Um país viciado na guerra aniquilar-se-á a si mesmo, mas um país que se esquece de como fazer a guerra será aniquilado por outros."


(A continuar)



太平洋戦争開戦ラジオ放送
(Anúncios radiofónicos à Nação, 1941-42)




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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Eterno Retorno











Hirao Reien [平尾霊園], 1.XII.2011.


E assim nos reencontramos. 


























































































































(Yes, I know... Like love, it's a worn-out 'cliché'... Yet a beautiful, thoughtful... an heartfelt one...)






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秋 — Aki











      ...E foi o Kōyō [紅葉] possível este ano.
        Longe do deslumbre de igual época noutros anos mais felizes, e de outros lugares, porém e ainda assim, digno de figurar aqui e para nosso contentamento.

         Foram os inesperados ventos quentes de Sul, a fustigar a baía de Hakata até à terceira semana de Novembro, quem veio estragar a festa, que bem podia ter sido de arromba e assim o não foi.

         Compromissos vários do curador desta casa, a somar à vista enganosa que o Shōfuku-Ji [聖福寺], da varanda de casa, todas as manhãs lhe proporciona — ... e porque não havia meio de as árvores de lá mudarem de traje e até hoje... — impediram uma surtida mais expedita aos lugares de nossa referência — alguns dos quais já bem conhecidos de todos quantos por cá regularmente passam (...é favor lá regressar e recordar outras cores e outros dias felizes...) —, e antes que os ramos de azáleas, acácias e cerejeiras se despissem de vez, oferecendo-se ao frio que já vem serpenteando, insinuante, p'la cidade...

         












Imagens de 30.XI.2011, e há mais uma, última, surtida contra o frio, no prelo...








































































































































"...'cause my autumn's done come..."






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domingo, 27 de novembro de 2011

薩摩藩 | Satsuma









    Faria agora três anos que aqui estivera pela primeira e última vez, então a caminho dess'outra mais distante e recôndita Yakushima [屋久島].

   Orgulhosa Kagoshima [鹿児島], primeira praça, porto e baluarte do entretanto e há muito extinto Han [藩] de Satsuma, cais de São Francisco Xavier, raiz da Restauração Meiji e terra do seu líder Saigo Takamori,  lugar maior da História do Japão...








...e enseada encoberta pela sombra de Sakurajima [桜島], esse circunspecto vulcão, tão sereno quão activo, ali contra o azul do horizonte...











   Foi bom voltar.
   Aqui tornaria muitas mais vezes se o tempo e as circunstâncias m'o permitissem.
   Ideal cenário para escapismos do coração.





















































鹿児島小原良節






Maru juji.svg


Maru juji.svgMaru juji.svg


 




sexta-feira, 25 de novembro de 2011

鹿児島













   Amanhã, pela madrugada, a caminho de Kagoshima (鹿児島), último cais a Sul, desta feita mais em dever e menos em lazer. 


   Tenho horas livres pelo andar da tarde e até à hora do 'shinkansen' de regresso a casa e como tal conto trazer recuerdos.


    じゃね。























✣ ✣ ✣








25.XI (Reprise)




多摩霊園, Tama Reien, Tokyo, 4.XII.2010













"When our shadow falls in tears,
Time turns voices into stone."




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sábado, 19 de novembro de 2011

ほとんど




ほとんど — hotondo… — 'Quase'…


'This photograph taken on Nov. 16, 2011, of a silhouette of a man standing in front of lit up red and yellow azalea leaves at Ankoku-Zenji Temple in Toyooka, Hyogo Prefecture, looks almost like a painting in a frame. The temple, popular for its "dodantsutsuji" (a type of azalea) fall foliage scenery, will hold the special autumn illumination event through Nov. 20.' (Photo: MAINICHI SHINBUN [毎日新聞])




Kōyō [紅葉] — Quase, quase a chegar aqui...











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domingo, 13 de novembro de 2011

A Secreta Visita de um Anjo





     Parece impossível que até há bem pouco tempo eu nem o suspeitasse sequer: Mishima Yukio um dia passou por Portugal, e ao encanto e magia da nossa atlântica Pátria, um dia se rendeu.

   Sabia, testemunho do meu saudoso Professor Hakamada, que o irmão mais novo, Hiraoka Chiyuki, fora em tempos Embaixador do Japão no nosso país, mas quanto ao périplo do autor desse grandiloquente "Mar da Fertilidade" (「豊饒の海」— "Hōjō no Umi") pelo nosso Extremo Ocidente, é dado biográfico mil vezes omitido.

     A história pela voz e olhar da bela Tokiwa Takako (常盤貴子), para meu contentamento, ao serão deste Domingo (21h de cá) no canal BS-Asahi.










Liszt:  Consolo Nº 3










弌  弍  弎