Algo reminiscente dessas infelizes, grotescas flaktürme ainda hoje entravadas por Viena, a velha torre mineira de Shime (志免鉱業所竪坑櫓 — Shime Kōgyōshō Tatekō Yagura), de altiva, sobranceira vista sobre a cidade das colinas prósperas, não é propriamente uma atracção das redondezas. A sua imponente figura e bem assim seus sombrios traços e definhada cor conferem-lhe, em qualquer recurso, um estranho e mesmerizante encanto, algo que, temo, possa tão-só apelar a diletantes arqueólogos da modernidade como este vosso NanBan.
Encontrei-a por acaso há pouco tempo e foi amor à primeira vista, confesso.
Assiste-lhe uma sui generis fotogenia, e podemos ficar horas a contempla-la e a decifrar-lhe os recônditos detalhes que só um olhar mais demorado permite perscrutar.
Erigida entre 1941-1943, em pleno período de mobilização total dos recursos do país e em prol do esforço de guerra então em curso, a velha torre de betão armado, não foi, de facto, concebida primordialmente para fins militares, mas sim com o peculiar propósito de albergar um ambicioso sistema de perfuração vertical e extracção de carvão a mais de 400 metros de profundidade numa área então tida ainda por bastante afastada do porto de Hakata e ligada ao centro da cidade por uma linha de caminho de ferro hoje totalmente desactivada. Porém, e sendo a mina de Shime então directamente administrada pela Marinha Imperial, e, assim sendo, um alvo de eleição para os raides aéreos americanos sobre a zona, os quais se intensificariam fortemente pelo último ano de guerra, é garantido, assim, que a velha torre tenha desempenhado funções de vigilância e repressão de ataques da aviação inimiga nesse derradeiro fôlego de '45. Mas, esclarecia, o propósito primeiro da sua bizarra atalaia era, antes, o de albergar um poderoso motor de 1000 cv. de potência do qual dependia todo o processo de extracção do precioso minério a grande profundidade.
Com a derrota e subsequente desmantelamento das forças armadas e indústria militar japonesa, a mina de Shime seria encerrada e impedida de laborar por vários anos, retomando a plenitude da sua capacidade produtiva só por volta de 1955. Mas seria sol de pouca dura, posto que os seus recursos revelar-se-iam insuficientes para assegurar a respectiva viabilidade económica e em 1964 a mesma fecharia de vez as suas portas. Dela restam apenas a velha torre e dois túneis de portões escrupulosamente trancados a sete chaves.
A área em redor da velha Yagura [櫓], de altura equivalente a um prédio de quinze andares, é hoje um simpático parque de recreios para miúdos e graúdos, de jovial atmosfera a contrastar fortemente com a ominosa silhueta dessa náufraga carcassa de betão, sobra de um tempo, a cada dia que passa, mais alheio da memória comum.
Gosto de lugares assim, distintos senhores de uma história sofrida.
Lugares assim têm uma alma. Alma essa que vive além da morte dos seus originais propósitos e mais que acicatar a morbidez de outros tantos saudosismos privados, invoca antes a nobreza e a dignidade desse labor humano que o sonhou, ergueu e dele fez uma referência de boa memória.
1955
Há quem se deleite a fotografar a Torre Eiffel, o Big Ben, o Hollywood Sign, castelos medievais ou a Grande Muralha.
Pelos anos fora, ele há-de haver sempre lugares, rostos, vozes e causas dotados desse condão de reter o melhor dos nossos afectos e vontades, por extensos períodos de tempo e contra a experiência adquirida que teima sempre em recordar-nos que nada é para sempre e que nem tudo o que luz é oiro, mas o bem mais das vezes, e por mais que recusemos aceita-lo, mera jóia de fancaria.
Até ao dia em que se opera de per si, e sem aviso prévio, essa inevitável mudança de perspectiva, e então... aquilo, aquilo que idolatrámos em profunda hipnose, se revela, em toda à sua extensão e inelutável verdade. Máscara que cai, cicatriz oculta, míseros bolsos vazios em traje fino. O rei vai nu.
Por mais que os anos passem, não há como aprendê-lo, e o amestrar do olhar exigente e escrupuloso é tarefa ingrata. Sempre. Até à cova.
Foi com tristeza de sobra que, pela manhã de ontem, tive a oportunidade de apreciar uma breve reportagem televisiva que dava conta da crescente preocupação e antipatia de que os macacos da pequena cidade de Nikkō [日光市], Prefeitura de Tochigi [栃木県], têm vindo a ser objecto, com as vozes indignadas de alguns comerciantes e habitantes da pequena localidade a Norte de Tokyo-To, conhecida sobretudo pelo seu imponente Tōshō-Gū [東照宮], e seu famoso pórtico dos Três Macacos Místicos ou Três Macacos Sábios [三猿 — Sanzaru, em Japonês simplesmente "Três Macacos"], a subir de tom pedindo uma solução drástica para o problema dos pululantes símios que há séculos partilham o espaço da povoação e respectivos lugares de peregrinação com a população humana local, numa ancestral e sã convivência que parece hoje seriamente ameaçada face a um aparente crescendo de agressividade por parte dos pequenos primatas, algo a que não será estranho o crescimento populacional da região e o seu sucesso enquanto chamariz turístico próximo da capital.
Destino turístico de eleição para quem se encontre nas proximidades de Tóquio e, virtude de albergar alguns dos mais esplendorosos templos Budistas e santuários Shintoo do Período Edo — com destaque para o deslumbrante Tōshō-Gū —, Nikkō desde tempos imemoriais que acolhe igualmente uma expressiva comunidade local de Nihonzaru [ニホンザル/日本猿], os famosos macacos 'albinos' do Japão [nome científico: Macaca Fuscata], espécie nativa deste país e ainda em grande abundância um pouco por todo o território nacional, com excepção de Hokkaido e Okinawa.
Sucede que efeito aparente da pressão exercida pelo imparável afluxo de turistas à pequena localidade e consequente crescimento económico, urbano e demográfico, tem-se vindo a registar um proporcional crescendo de agressividade por parte destes (antes tidos por) simpáticos primatas, que entre ferozes ataques a crianças e adultos e não menos menosprezíveis furtos constantes em pequenas lojas de doçaria regional e afins — onde os omnipresentes omiyage (お土産 — doces ou outros pequenos souvenirs via de regra trazidos por visitantes de uma certa localidade, de regresso a casa, e para deleite de amigos e entes queridos) têm lugar de honra à porta desvelada dos ditos estabelecimentos —, parecem ter declarado guerra aberta ao turismo de Nikkō, principal fonte de dividendos da cidade.
Naturalmente, e em particular no que concerne aos Saru de Nikkō, a última coisa que eu queria aqui escrever seria uma crónica de uma deportação e/ou extermínio anunciados, ademais porque esta é uma espécie autóctone que me inspira o mais genuíno carinho e simpatia, e ainda que a irritação de algumas pessoas possa ter a sua razão de ser, esta é uma espécie que merece a mais benigna das protecções e afecto comum.
Felizmente, Nikkō não é a única região onde estes bonitos bichos podem ser contemplados no cenário de um salutar convívio com populações humanas estabelecidas — outras partes da ilha maior de Honshū e Kyūshū, ilha do vosso NanBan, e em particular a Prefeitura de Oita, são morada de grandes comunidades nativas de Nihonzaru, e por cá não se fazem, até ao momento, ouvir queixas de maior — pelo menos que seja do meu conhecimento...
Ainda assim, destaque e honra devidas são ao soberbo Jigokudani-Yaenkoen [地獄谷野猿公苑], inviolável santuário dos Nihonzaru de Nagano [長野県], em Yamanouchi [山内], um absoluto 'must' para aqueles que, pelo frio Inverno que aí vem, hajam de gozar do especial privilégio e felicidade de uma visita ao Japão central.
Mais sobre este imperdível, ermo lugar do melhor deste Japão que teima em dar mostras de si, AQUI, AQUI e AQUI.
Deixo-vos com dois bonitos clips a desbravar caminho entre os mais cerrados corações.
Mais e a respeito deste ponto, em Português, AQUI.
De recordar, ainda, que a Molycorp Inc., maior produtor mundial de terras raras até meados da década de 80 do século passado, encerrara já, e ainda no último decénio, todos os seus centros de produção nos E.U.A. face à incapacidade em manter condições de concorrência que lhe permitissem competir contra o grande devorador.
De destacar ainda, e a propósito deste tema, pelo menos uma notícia, não tão distante assim no tempo, sobre o eventual papel que Portugal poderá vir a ser chamado a desempenhar nesta contenda e num futuro próximo — assim se confirme estarmos mesmo defronte de uma importante oportunidade e assim haja visão para a agarrar.
* "Raros são os que nadam (se atrevem/se aventuram) no oceano"
Foi por esta semana que ora finda, que se assinalaram 80 anos sobre o "Incidente de Mukden" (満州事変 — 'Manshu Jihen', em Japonês — 18.09.1931), a insidiosa operação militar com vista à ocupação (libertação, chamar-lhe-ão ainda algumas vozes teimosamente recalcitrantes...) da Manchúria, posteriormente rebaptizada Manchu'kuo.
Mukden, 18 - 23.09.1931
Operação militar meticulosamente planeada e executada por dois oficiais superiores do Exército Kwantung — a força expedicionária, desde o final da Guerra Russo-Nipónica de 1904-1905, instalada no Norte da China e a pretexto de garantir protecçãoaos interesses económicos e às comunidades nipónicas locais —, Ishiwara Kanji e Itagaki Seishirō, e levada a cabo, ao que hoje sabemos, à revelia do Governo de Shōwa, não obstante, os seus efeitos seriam, enquanto fait accompli, sancionados pelo Imperador Hirohito e seus ministros, sendo os próprios Ishiwara e Itagaki, inicialmente objecto de uma reprimenda formal por parte de Tóquio, posteriormente louvados como heróis pela imprensa japonesa, forças armadas e governo e rapidamente promovidos na hierarquia e logo indigitados em cargos de superior responsabilidade... na China...
Parte 1 de um documentário televisivo sobre a história de Mukden, em Japonês, e para os mais interessados — o remanescente nas partes 2e 3.
Por cá e por estes dias, desta efeméride, nem uma nota de roda-pé num jornal, nem uma crónica que se lesse num site de referência, nada, zero.
Normal que não haja lugar a 'festejos', sobretudo por cá.
Porém, e não sem nota digna de apreço, Mukden e os eventos desencadeados a 18 de Setembro de 1931, continuam a ser, por muitos, encarados como o primeiro dos preâmbulos do conflito que oito anos mais tarde tomaria a escala mundial, e sendo certo que em Setembro de 1931 ainda estávamos longe da inenarrável orgia de atrocidades que seis anos volvidos e com o estender da guerra à generalidade do território Chinês, o mundo viria a conhecer, horrorizado, certo é que Mukden não deveria ser esquecido, ainda para mais num tempo em que a sociedade japonesa e os media se preparam já para, em Dezembro, assinalar os 70 anos de um outro evento bem mais presente na memória de todos...
(Em homenagem aos Heróis esquecidos desta extraordinária história que a História quase esqueceu: Katō Tsutomu (加藤孟) e Osanai Tadashi (長内端) — tributo extensível a um seu especial colaborador, Mieda Fumio (三枝文夫), e a pelo menos um seu rival, Kakehashi Ikutaro (梯 郁太郎) — todos Japoneses, todos indivíduos brilhantes, todos com uma história única por contar.)
O hoje lendário DONCA-MATICDA-20 Disk Rotary Electric Auto Rythm Machine — o primeiro engenho concebido pela parceria Katō/Osanai, estávamos no distante ano de 1963. Este seria o primeiro produto comercializado pela KEIO Gijutsu Kenkyujou (京王技術研究所),embrião do futuro império KORG.
Segunda-Feira, feriado nacional por cá — Dia do Respeito pelos Idosos (敬老の日 — Keirō no Hi), dia propício a uma crónica mais extensa e elaborada que as demais que os tempos mais recentes me têm permitido escrever e convosco partilhar.
E porque esta é uma história que, bem além do tema central que lhe dá vida, abrange todo um vasto leque de reflexões sobre matérias, conceitos e questões que me são particularmente caras e que nos últimos tempos muito têm vindo a baila neste e noutros blogoespaços de minha eleição — temas como criatividade, individualidade, uma apetência pelo risco, inovar, criar, ir onde os outros não ousam, cortar amarras, e a busca de uma vida melhor, num lugar melhor, sonhos de juventude, eldorados por conquistar, expectativas goradas, sucessos e fracassos, a música como escape, lugares que esquecemos, de como eram, de como foram outrora, de vidas que esquecemos, e que quiséssemos ter vivido em lugar da que nos calhou...
Paul Humphreys & Andrew McCluskey, OMD (Orchestral Manoeuvres In The Dark), Liverpool, circa 1980: "Comprámos o nosso primeiro KORG 500 micro-presset através de um catálogo caseiro. Custou-nos, na altura, 17.6 libras por semana, a trinta e seis prestações, uma pequena fortuna para a época, sobretudo para miúdos como nós, que contavam cada tostão. Foi com ele que fizemos os nossos três primeiros albúns."
Foi pelo fundo da noite de ontem, adentro, que, à falta de melhor entretenimento, dei comigo, subitamente, e sem que desse pelo passar das horas, a visionar, fascinado, mesmerizado, como raros são os programas televisivos com o condão de me prender assim, esse extraordinário documentário que ao fim deste escrito vos deixo, em versão integral de uma hora e meia aproximadamente.
Com a criteriosa chancela BBC, a peça audivisual que conclui este escrito, primorosa, simplesmente intitulada "Synth Britannia", mais que um mero documentário 'musical' ou sobre música, transporta-nos para um tempo que parecendo tão recente — uma certa 'década de '80' (que, para o caso concreto, sofre como que uma espécie de antecipação imprevista, e vai, mais exactamente, de 1973/5 a 1983/5, e ireis, mais adiante, perceber o porquê deste aparente desfasamento cronológico, mas já lá vamos... ) —, nos é hoje tão estranhamente remoto.
E a um lugar que nos é tão difícil de conceber, hoje, como seria realmente então: um país deprimido, em profunda crise económica e social e sob os astros de uma urgente carência de mudança; um cenário de subúrbios cinza-betão e céu carregado, cuja mocidade residente, nutrida a sci-fi distópico via J.G. Ballard, Anthony Burgess, Kubrick e Lucas, e embalada a riffs de Glam Rock e Krautrock importado, conspirava um futuro que teimava em tardar. Esta é também uma história de sonhosingénuos, num tempo de tensões à flôr da pele, e de muita angústia, esperanças falidas, emprego escasso e amanhãs adiados, reconhecimentos por conquistar, escrita entre o consumo de maços de tabaco barato comprados a meias entre amigos e a rodar por todos, televisões lá de casa alugadas (é verdade meus amigos, parece mentira, mas era mesmo assim!), e a incontida ânsia de sair dali, partir, ver e ter na palma da mão esse admirável mundo novo de então que tudo prometia.
Kraftwerk, 1976
Não é só, nem é tanto sequer, uma história feita de melodias simples entrelaçadas em silvos eléctricos saídos de pequenas e herméticas máquinas e outras cacofonias ridículas e penteados bizarros, mas sobretudo de descoberta, invenção, ousadia e persistência. E é na improvável aventura das ideias que ninguém ousaria tomar por sérias, que lhe está a graça.
Uma pequena maravilha "Made in Japan", hoje uma peça de museu — KORG 500 micro-preset: lançado no mercado em 1979, por um preço tido por acessível, foi dele que saíram verdadeiros clássicos dos OMD como este, este e ainda este...
Mas não era esta a história que vos queria contar — essa está aí mais abaixo, em full length, e vale mesmo a pena vê-la, mesmo para aqueles que não têm o menor interesse pelo género musical em causa ou pelo tema em si: é que é mais que um relato de estilos passageiros, um esmerado retrato de uma época que vivemos à distância e da qual estivemos e estamos ainda tão perto, e tão digna, em-si, de recordar.
DM, Basildon, circa 1980
É sim ess'outra história que ficou por contar, a de quem possibilitou, como mais ninguém, que o guião da primeira fosse escrito. Gente que fez o impossível, criar os meios para que a história que se segue fosse possível. A fôrma e o forno onde o bolo foi cozido.
E essa história não tem lugar na Inglaterra de 1975 - '83, mas sim no Japão que aqui celebramos e principia perto de uma década antes, numa insuspeita área de Tokyo-to.
Aos seus principais protagonistas — nota prévia — não deverá ser outorgada a totalidade do mérito pela criação dos meios que possibilitaram a revolução synthpop de finais de '70/primórdios de '80 em Inglaterra.
Porém, é inegável, que sem o seu especial contributo, absolutamente fulcral, enquanto impulsionadores de uma indústria de equipamentos até então ora olhados com desconfiança por potenciais investidores, ora acessíveis tão-só a uma mão-cheia de privilegiados, nada do que hoje em matéria de electrónica aplicada à música conhecemos, teria sido possível.
A verdade é que, até à introdução no mercado, em meados da década de '70, dos pequenos e acessíveis-à-carteiramini/micro-KORG analógicos, entre os quais primavam os hoje raros e muito disputados mini 700s — preferidos, no auge do seu sucesso, por artistas tão distintos com Stevie Wonder, Human League, Vangelis ou The Cure —, a música electrónica era simplesmente um luxo reservado a uma pequena elite de entusiastas e especialistas como Walter (hoje Wendy) Carlos — espécie de 'piloto de ensaios' da então mais sofisticada e promissora MOOG —, 'magos' do Prog Rock como Rick Wakeman e Keith Emmerson, gente de boas referências e já bem posicionada e cortejada pela indústria, como um Richard Wright/Pink Floyd ou um Eno/Roxy Music, ou uns distintos e inacessíveis forasteiros dotados de insondáveis recursos como uns Kraftwerk ou uns Tangerine Dream.
Ralph & Florian, Düsseldorf, circa 1970 — Kraftwerk dando os seus primeiros passos.
Até meados da década de '70, raríssimos eram aqueles que podiam possuir/adquirir um sintetizador — mais raros ainda eram os que ousavam projectar e montar as suas próprias máquinas. Ralph Hutter e Florian Schneider contavam-se entre os poucos e audazes capazes de o fazer, e bem.
E fora precisamente na Alemanha Ocidental de uns Kraftwerk ou de uns CAN e demais camaradagem de Krautrock, que alguns dos antepassados dos mais modernos sintetizadores haviam logrado marcar pontos — máquinas como o mítico Trautonium de Oskar Sala, proeminente nesse também ele mítico "The Birds"de Alfred Hitchcock, de 1963.
Ora é precisamente em 1963, que a história da hoje giganteKORG principia, e logo com uma irritação de um dos seus fundadores, Osanai Tadashi (長内端), um então jovem acordeonista que entretinha as noites de um pequeno bar de música ao vivo gerido pelo principal protagonista deste conto, Katō Tsutomu (加藤孟): Osanai fazia-se, então, acompanhar por um rudimentar Wurlitzer Sideman rhythm machine, uma caixa de ritmos muito simples de fabrico americano, engenhoca cujos préstimos muito deixavam a desejar no entender do jovem músico. É então que convence o patrão a financiar-lhe a montagem de um sucedâneo para a modesta Wurlitzer, de acordo com certas especificações por si idealizadas e à medida do que reclamava serem as suas reais necessidades como profissional do palco.
Surge assim a curiosa e hoje lendária DONCA-MATIC DA-20, a primeira 'drum machine' digna de nome e produto de estreia da então baptizada KEIO Gijutsu Kenkyujou(京王技術研究所). Em 1966, são já várias as DONCAs em circulação e uso e a sua popularidade é crescente entre organistas, músicos de sessão e outros entusiastas. Mas é em 1967, com a aproximação à pequena empresa de Katō e Osanai, de um jovem engenheiro obcecado (coisa tão de cá...) em construir instrumentos electrónicos, Mieda Fumio (三枝文夫) de seu nome, que a KEIO toma um novo impulso rumo a horizontes antes impensados. É, ainda assim, a Katō Tsutomu que muitas das grandes inovações e apostas daKEIO ELECTRONIC, devem ser atribuídas — o próprio teria um lugar determinante na direcção do grupo KORG até à sua morte, vítima de cancro, a 15 de Março deste ano.
A KORG não seria a única impulsionadora do synthpop britânico de finais da década de 70/princípios de 80, o tal período que muitos identificam, não sem equívoco, com essa mal-amada 'década de 80' , esses injustamente 'unremembered Eighties', como a eles se referia, em tom de sarcasmo, James Murphy, dos LCD Soundsystem, em "Losing My Edge" — tema, também ele de per si, uma extraordinária e alucinada viagem em menos de cinco minutos, pelos grandes momentos da história da música popular dos últimos quatro ou cinco decénios —, a era dos sintetizadores em que ninguém queria usar guitarras e "tocar música a sério".
The Normal (D. Miller): Warm Leatherette / T.V.O. D. 1.05.1978
Ao grupo de Katō, Osanai e Mieda — que contava já no seus primórdios com a competição aguerrida de empresas oriundas sobretudo dos E.U.A. entre as quais primava a inventiva MOOG — juntar-se-iam nas décadas seguintes outros grupos empresariais japoneses entre os quais há a destacar os desempenhos de uma ROLAND, de uma YAMAHA, ou de uma AKAI. Contudo é de notar que a concorrência além-ilhas, e a norte-americana em particular — MOOG, OBERHEIM, ou BUCHLA — nunca logrou produzir instrumentos verdadeiramente acessíveis, em termos de relação preço/qualidade, capazes de fazer a diferença e potenciar uma verdadeira revolução como foi o synthpop de '80. No domínio da criação e comercialização de instrumentos musicais electrónicos de alta qualidade, sintetizadores, drum machines, e outras geringonças capazes de gerar sons nunca antes sonhados, por valores e em circuitos de distribuição acessíveis ao comum dos mortais, ainda hoje o nome KORG é rei.
Quanto à restante história deste hoje grande grupo empresarial e seus inventos, e porque o tempo já escasseia e este escrito tende a alongar-se mais que o inicialmente previsto, remeto-vos para esta versão compacta, ainda que detalhada, da mesma ou para esta mais esparsa em um, dois, três capítulos — e para aqueles que se interessem mesmo, mesmo muito por estas coisa, como é o meu caso.
Tornando à origem: agora recomendo-vos firmemente que deis uma espreitadela a este fabuloso teledocumentário que se segue. Vereis que a história que vos será narrada faz jus a este texto, omitindo contudo alguns dos nomes que aqui destaquei. Mas este relato é sobre a música e sobre quem a fez e porque a fez e não tanto, como é óbvio e natural, sobre as máquinas que o possibilitaram. Hora e meia, o tempo de um desafio de futebol e tem muito mais piada, informação digna de nota e entretenimento de primeira água.
Repleto de clássicos que, aposto, tantos de vós já terão arrumado num soturno canto da memória, conta ainda com um elenco de luxo, assim e aos pares: Kubrick & Carlos, Ralph und Florian, Moroder & Summer, Oakey & Ware, McCluskey & Humphreys, Foxx & Ure, Chris & Cosey, Moyet & Clarke, Tennant & Lowe....
E ainda com os préstimos individuais de um Numan, de um Gore, de um Sumner, de um Ball, de um R.H. Kirk, do maior e mais influente de todos eles, um certo Daniel Miller, e até de um Ballard — cameo e as himself.
A segunda parte, então, é imperdível...
Just can't get enough.
* O título deste escrito obteve a sua inspiração d'AQUI.