quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Hakata tem mais encanto quando coberta de branco...

Hakata - 博多 -, ontem, 13.01.2010.

Queiram perdoar-me uma certa repetitividade temática, mas sucede que para mim, nado e criado em Lisboa - cidade que nunca me deu o encanto desta alvura -, a neve tem um confesso fascínio infantil.
De tal modo estonteante, no que a mim respeita, que dou comigo capaz de deixar os meus afazeres de lado só para ter o gozo de contemplar, assim, em grande e sem entraves, os tons de sonho de um dia como este.

Em qualquer recurso, dias assim, em Hakata/Fukuoka, não fazem regra, nem sequer nos dias mais frios do ano.
O que torna um dia como este particularmente cobiçado para o propósito de uma sortie por lugares dilectos em redor da minha base de operações!

恵比寿橋 - Yebisu Bashi

Acresce que nunca me canso de regressar a um certo número de terreiros nas minhas proximidades.
Sítios onde, a cada dia que passa, parece que lhes descubro um detalhe novo qualquer...


聖福寺 - Shofuku-Ji

Chance, tempo, pois, para um regresso a Shofuku-Ji (聖福寺) - daqueles lugares onde só não vou mais vezes, nem eu sei ao certo porquê...

E é realmente memorável, um dia assim, em que as côres deste tudo ora fixo, ora a girar pelas artérias da cidade, se transfiguram como que por indecifrável magia.

E se bem que neste meu propósito de, amadoristicamente, fazer por captar os tons do dia em imagens próprias, me permito um certo experimentalismo no tratamento das mesmas, asseguro-vos: é assim que as imagens fazem sentido, para mim...



Sortido de impressões ao acaso.

Ao passar aqui. E acolá.



Selbstportrait mit Kälte



E para que as guardais, vós também, num lugar só vosso...















美しい、ですね。

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Outro Simulacro do Inferno...

Decididamente, estes trailers maçam-me...


Ele houve um tempo em que este género épico-bombástico feito de heroicidades esgaravatadas dos confins da memória recente, me emocionava. Com acutilância.

Lendas de baioneta em riste e aluviões de sangue frio, recordadas, talvez, aqui ali, neste ou naquele cenotáfio de Washington D.C., acalentado por umas parcas flores depostas pelos poucos vivos que realmente recordam esses mortos, esses bravos caídos d'outrora, e os homenageiam em qualquer dia do ano - excepção feita às celebrações oficiais desses dias que a História gravou em frio mármore, com a devida pompa e circunstância, com direito a parada de Marines de uniforme de gala, silent drills de luvas brancas, salvas de M14 meticulosamente ensaiadas, toques fúnebres de clarim, discursos graves de oficiais superiores - de rostos graves - admoestando os vivos, a que lembrem o impagável sacrifício no Altar da Pátria e pela Liberdade, e vetustos veteranos dessas campanhas longínquas, de bivaque e muitas condecorações ao peito, disfarçando, em expressões de empedernida ausência deste tempo d'agora, a comoção que estas invocações exumam...
Protocólos escrupulosamente observados e cumpridos. Culto da Pátria. Culto dos Mortos.
Sim: tudo isto ainda encerra genuína comoção. E inesgotável encanto.



Mas há, depois, essa indústria do entretenimento das imagens em movimento, imparável a capitalizar a repetição exaustiva dos clichés destas colossais epopeias das operações anfíbias em ilhas e praias de Neverland, verde mar, alva areia e coqueiros a estoirar em explosões medonhas, em tempestades de aço a excederem a modesta moldura da nossa imaginação...
A previsível gritaria de "Fir'in the hole!", diálogos e solilóquios pretensamente lírico-filosóficos, uma pitada de cinismo aqui e uns pozinhos d'humor-negro ali a apimentar o palavreado habitual, e atiradores furtivos em foxholes desalojados a diabólicos bafos de lança-chamas e retratos em slow motion do pavor sofrido e da ferocidade desses infelizes soldados desconhecidos, imolados na grande voragem da batalha inenarrável, História feita para enlatar e servir em HD, Blu-ray ou o que mais eles entretanto inventem...

É assim este The Pacific, em breve num pequeno-ecrã perto de si - lá par'ó Verão...-, pela mão dos artesãos do costume, Steven Spielberg, Tom Hawks e Gary Goetzman, para a HBO, trupe que fez ess'outro Band Of Brothers - Irmãos De Armas, que alguns de vós recordarão com maior ou menor saudade dos serões entedeados de quando não havia melhor que ver em casa ou no cinema, e do qual a nova mini-série de 10 episódios, mais que uma sequela, é uma espécie de lado B... e vira o disco e toca o mesmo.
Se na primeira série íamos com os páras da Easy Company da 101ª Divisão Aerotransportada, da Normandia ao Reich dos 1000 Anos em galopante derrocada, desta feita vamos com a 1st Marine Division, de Guadalcanal a Okinawa, dando um giro pela Nova Guiné, Peleliu e Iwo Jima...
Ferro, fogo e tripas esventradas para toda a família. E tal como uma Coca Cola fresquinha, Enjoy!

domingo, 3 de janeiro de 2010

Romaria Shintoísta

Tempo ainda para uma breve crónica de Ano Novo.
Dia de Ano Novo no Japão é dia de oração.
Não há cidade, bairro, comuna, aldeia, que não tenha o seu Jinja (神社 - "santuário") de eleição, pronto a receber as preces dos fiéis locais em dias festivos - cada qual entregue a este ou aquele Kami (神 - "espírito/deus"), um Jinja é, por definição, relicário de coisas sérias, assim os de cá asseveram.
Daí, a solenidade própria de certos dias exigir que os devotos e respectivas famílias se dignem deslocar-se ao seu santuário local a fim de prestar tributo ao Kami venerado na sua comunidade. É assim o Shintoísmo (Shintoo - 神道 - "a Via dos Espíritos"), complexo legado de crenças animistas do Povo de Yamato, que, junto com o Budismo, completa o corpo sincrético-religioso do Japão.
Não há como escapar-lhe quando se vive aqui.

E porque também eu já vou carregando algo desta Grande Pátria Insular dentro de mim, dia 1 lá me fiz ao frio e à chuva e vai de ir, de manhã p'la fresca, ao Kushida-Jinja (櫛田神社), santuário-mór das gentes de Fukuoka/Hakata, de sua feita consagrado ao Tengu (天狗), estranha deidade semi-demoníaca e de má reputação segundo as sutras budistas; via de regra figurado numa máscara de côr vermelha ou negra representando um ancião de expressão feroz, espessas sobrancelhas franzidas e rangendo os dentes afiados, e destacando um distinto longo nariz que lhe confere a fisionamia mais característica.
O Tengu, sendo sobretudo conhecido como patrono dos Yamabushi (山伏), fraternidade monástico-militar da região de Kumano, próxima de Nara, a uns bons 500 km daqui, portanto, aqui confesso-vos não fazer a menor ideia de como se estabeleceu este culto na baía de Hakata, nem tão pouco que espécie de fervor, mística ou temor reverencial inspira, este demiurgo, aos locais.

Verdade verdadinha é que em dia de prece ninguém falta à chamada...


Por volta das 9:00 da manhã o cenário era este:

O cortejo dos devotos do Tengu seguia rua abaixo, dobrava a esquina, dava a volta ao quarteirão e parecia não cessar de crescer até por volta da hora de almoço que aqui coincide com o meio-dia...

E não seria o 1ºC. de temperatura no ar quem fôsse demover os crentes de prosseguir na sua demanda de ir colher o bom auspício ao narigudo Espírito. Ali, bem enfileirados ao frio, lá aguardavam estoicamente a sua vez de chegar junto do haiden (拝殿), relicário propriamente dito diante do qual se deposita a prece, suplica ou simples deferente vénia.

Enquanto aguardávamos, também nós, pacientemente, a nossa vez de chegar junto da veneranda deiade, tempo para apreciar alguns detalhes do lugar.

Sobre o pórtico da Torii (鳥居), dois kanji ilegíveis, mas bem bonitos, por sinal.

Os dois Komainu (狛犬) ou Shiishi (石獅子) - como por vezes são referidos aqui -, leões de guarda em bronze, completam o tríptico da entrada no recinto religioso.


Curioso adereço, este, ainda sobre as nossas cabeças ao transpormos o pórtico: representação do Sheng Xiao (生肖) chinês, ou Eto (干支), como lhe chamam os d'aqui
- esse Zodíaco d'Oriente, que nos mistifica...

Aqui o zoom possível...

...e lá íamos, passo a passo, chegando próximo do altar desta hermética liturgia, dando, de escapada, uma vista aqui e ali, nas omnipresentes bancas de doçaria, amuletos e souvenirs...

...Ah! Pois é o Ano Do Tigre - (Tora toshi [虎年])!
E a respectiva estatuária, neste dia, não poderia, de modo algum, escassear.
E já mais próximos do haiden, escutamos o rufar dos taiko (太鼓) que seguem, disciplinadamente, o entoar do solene mantra que ecôa do interior do relicário...
E não cuideis de fazer juízos precipitados acerca de tão elaborado cerimonial.
Enquanto as orações decorrem, as insondáveis Miko (巫女), imprescindíveis auxiliares de acção religiosa, vão zelando escrupulosamente pelo asseio do recinto e observância de todas as exigências ritualísticas em curso...
Findas as orações, tempo ainda para escolher um talismã ou oferecer um Ema (絵馬).
Hamaya, flechas protectoras contra os maus espíritos, primam entre os amuletos mais requisitados.
Que os Kami vos abençoem a todos.

明けましておめでとう!
Akemashite omedetoo!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Antes que venha O Ano Do Tigre...

...nada como uma tarde bem passada, de neve e frio, em Shofuku-Ji (聖福寺), o mais antigo Templo Zen do Japão, cuja edificação, remontando ao Ano de 1195, é atribuída ao Monje Eisai Zenji (栄西禅師 - 1141-1215).
Fica aqui, a uns escassos quinhentos metros de casa, em Hakata, mas, por motivos vários, pouco lá passo.
Hoje, véspera do Ano Do Tigre, não queria deixar de lá ir uma última vez antes do costumeiro rito de passagem.

O céu parecia, de um certo prisma, não favorecer a visita, ainda breve que fôsse.

Uma neve suave.
Uma ligeira interferência na textura do ar.
Como essa sasameyuki (細雪), intraduzível, que deu título original à obra de Tanizaki Jun'Ichiro (谷崎潤一郎) mais conhecida entre nós pelo nome "As Irmãs Makioka".

Há algum tempo que queria escrever qualquer coisa sobre o Shofuku-Ji.
Vai-me escapando o tempo e o engenho.

Pensei antes em conceder-lhe o privilégio de inaugurar um ciclo de artigos que trago em mente há algum tempo, e ao qual achei por bem atribuir o nome genérico de Capítulos Omissos, por versarem, na sua totalidade, sobre temas e lugares por mim visitados ao longo deste tempo que me viu de passagem por este Japão, mas que, por império d'este ou d'aquele contratempo, aqui não calharam em seu momento próprio.

O dia de hoje, e a tímida neve que lhe deu a côr, quiseram antecipar este meu passo.

À vossa disposição: um lugar onde reposam (e reflectem) Almas Antigas...

...à cabeça das pontes sobre um rio d'oblívio...

...na margem da mais-ocidental das cidades deste Oriente...

...e cujo céu d'Inverno, antes que venha o Ano Do Tigre, reclama que o vosso olhar se detenha...

よいお年を - Yoi o'toshi wo.
Feliz Ano Novo.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

メリー クリスマス! - Lê-se "Meri Kurisumasu"...

Feliz NATAL a todos os leitores, amigos e quem vier por bem e a todos os demais que por cá passem, são os votos do coração do vosso NanBan.

...E não abusem das gulodices que vos faz mal (...ai que saudades de umas farturas... de uma rabanadazinha em vinho-do-Porto, que isso por cá não se arranja... ai, ai...).


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

23/XII: Parabéns Ten'O!

Hoje, 23 de Dezembro, dia do 76º Aniversário de Sua Majestade, o Ten'O (天皇) Akihito, Soberano do Japão, pontífice da mais antiga monarquia em exercício no Mundo, a qual remonta à longínqua data do Ano 660 A.C.
A data em si é o último feriado do ano no País do Sol-Nascente.
Muito poderíamos aqui dizer acerca do Ten'O, da sua eventual (ir)relevância no Japão d'hoje, da natureza das suas funções enquanto patriarca da Casa Imperial Nipónica e de Chefe de Estado, da sua menos conhecida e distinta carreira como Ictólogo - seguindo, aliás, neste campo, as pisadas de seu pai, o Imperador Shôwa (昭和天皇) - do muito ou pouco ou muito pouco que os d'aqui se permitem descortinar, de íntimo ou de público, sobre o assunto - esta é matéria de mais silêncios que falatório -, do passado que o antecedeu e do futuro que está ainda e sempre por escrever.

Da minha parte gostaria só de dizer que gosto muito do Ten'O.
Gosto dele, tenho por ele uma simpatia e um carinho quase-filiais, como se eu próprio de súbdito de facto do mesmo me tratásse; é daquelas coisas que não se explica, não dá direito a debates ou devaneios: sente-se. No coração. Pronto.

Eles podem dizer o quiserem e bem lhes apetecer sobre Sua Majestade e o papel da monarquia aqui, que tanto se me dá como se lhe deu. Couldn't care less. Eu gosto do Ten'O e penso que ele é uma figura de relêvo e a última força fundacional da Alma do Japão. Sem Ten'O, o Japão seria, de uma vez por todas, um país amputado do seu próprio coração. Por isso, fico feliz de ver O Imperador sorridente e de saúde, acenando à nobre gente que o veio saudar, hoje, ao Kokyô (皇居).
Parabéns Ten'O! Muita Saúde e Felicidade. Conte muitos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Da persistência da memória


Ele há dias assim. Dois ou três dissabores de enfiada. Uma quezília com os astros, assim dá de parecer. E depois há aquela minha melancolia crónica, que teima em dar sinais de vida em alturas destas. Coisa de fígados, diriam os nossos egrégios avós...

E num dia assim, nada como ser presenteado com um recuerdo desses de valor mais emocional que outro que se lhe queira atribuir, com as côres correctas e um peculiar ar-de-sua-graça.


Foi ao passarmos, pela tarde de ontem, pelo Museu Nacional de Kyushu (九州国立博物館 - Kyushu Hakubutsukan), em Dazaifu, nos arrabaldes da nossa Fukuoka, que demos de caras com o simpático artefacto na imagem, ali, relativamente incógnito, esse tenugui (手拭い) invocativo da memória NanBan por terras de Kyushu... A Etsu insistiu em dar-mo de prenda de dia-não, se há lá coisa para dar em dias destes... Coisa boa para sorrir como um miúdo a quem é dado um brinquedo novo... Até porque é particularmente reconfortante, em dias de má-memória como o de ontem, constatar haver merchandising deste com fartura em lugares como o Kyushu Hakubutsukan - havia lá, entre canetas, postais-ilustrados, blocos de notas, pisa-papéis e bibelots ligeiros para gostos menos exigentes, todo um sem-número de pequeninas lembranças dessas de fazer o gosto ao dedo ou de dar de omiyage quando se visita a família por cá, invocativos de uma certa portugalidade remota, todas elas ostentando a invariável carraca, essa icástica Nau do Trato, o Kurofune (黒船 - a Nau Negra) como lhe chamavam os daqui, e que nos idos de quinhentos, e por mais de seis décadas, ligou as praças de Gôa, Macau, Malaca e Nagasaki, entre longas e arriscadas empreitadas da fortuna prometida por mares d'Oriente, na reclusa solidão da tormenta, e que os ilustradores dos byôbu (屏風) de então trataram de imortalizar num certo imaginário colectivo.

E tudo isto não seria mais que um anedótico fait-divers, não fôsse o facto de por esse Japão fora, este vosso NanBan ter tantas vezes sido confrontado com a mais cruel e inusitada das ignorâncias acerca do seu país de origem: isto num país que além de afamadamente próspero e tido por 'educado' (era há não tanto tempo assim um dos campeões pêsos-pesados do investimento público em matéria de educação), viveu perto de um século da sua história com o nome de Portugal escrito nos respectivos anais, e que para além de uma muito significativa presença hoje de uma vasta comunidade imigrante Brasileira - e de uma forte e bem propagandeada ligação ao país que por seu turno acolheu, desde 1908, vários fluxos migratórios oriundos daqui -, reconhece a importância desta presença transoceânica, dando à Língua Portuguesa um merecido destaque de que não comungam outros idiomas ocidentais - veja-se, a título de exemplo, que em qualquer ATM aqui, figura um menú de opções/acções que além do idioma nacional contempla o Mandarim, Coreano, Inglês e, pasme-se, o PORTUGUÊS, assim bem escrito e claro, e não há espaço para mais (Français, Deutsch, Español, ficam de fora). Pois é verdade, caríssimos: já por uma mão-cheia de ocasiões, autóctones presumivelmente (bem-)educados, me perguntaram sem trejeitos de descaro que língua se fala em Portugal, fora as vezes, que já lhe perdi a conta, que nem com um planisfério à frente ou sequer um mapa da Europa diante dos olhos me souberam apontar com o dedo o país do Kurofune. Nem invocando o nome de São Cristiano Ronaldo o mais das vezes sequer lá vão.
E assim sofre o nome da Lusa Pátria no Mundo.

Valha-nos haver quem insista em remar contra esta maré vazante do oblívio colectivo e faça por vindicar a memória que é de todos, como os mentores desse exemplar NanBan BunkaKan (南蛮文化館 - Museu/Galeria da Cultura Nanban), instituição privada sita em Osaka, que recomendo a todos os interessados nestas coisas da lusitanidade no Mundo, e se por lá passardes.

Bom fim-de-semana a todos.

気をつけて / Ki o'tsukete.