quarta-feira, 29 de julho de 2009

JOVENS PROMESSAS

Decorreu entre os dias 24 e 29 (ontem) deste mês, o muito prestigiado GYOKURYUKI HIGH SCHOOL KENDO TOURNAMENT (玉竜旗高校剣道大会) - Torneio Nacional de Kendo Inter-Liceus "Estandarte da Bola do Dragão" (Gyokuryuki - 玉竜旗), nome de facto muito engraçado por inevitavelmente nos trazer à memória o afamado desenho-animado, colecção de bizarrias dilectas de miúdos e graúdos por esse Mundo fora, se bem que, tanto quanto pude apurar, não há qualquer relação entre os dois nomes, desconhecendo a origem da referência.

Este prestigiadíssimo torneio de Kendo inter-escolas, com presença de equipas oriundas e representativas de praticamente todo o Japão, remonta ao ano de 1916, realizando-se, desde então, e com uma relativamente breve interrupção entre os anos de 1942 e 1955, anual e quase invariavelmente sempre nesta nossa cidade de Fukuoka, Kyushu, contando-se já na 88ª edição, sendo acolhido, desde há cerca de 12 anos no espaço do magnífico Fukuoka Marinemesse, espécie de pavilhão desportivo e multi-usos da maior cidade do Sul do país, lugar de características, direi eu, invejáveis para a realização de eventos desta monta.

Este ano, o encontro contou com a presença de um total de 945 equipas - 560 equipas masculinas e 385 femininas - tendo os dias 24 a 26 sido reservados para as competições nas séries delas e os dias 27 a 29 para eles.

As idades dos participantes ficam-se entre os 15 e os 17 anos, sendo esta a competição onde, por excelência, são escrutinados os mais promissores talentos na modalidade, aspirantes a futuros campeões nacionais e, quem sabe?, mundiais nos rankings séniores.


Tive a oportunidade de, no Domingo, dia 26 de Julho, assistir à Grande Final da série feminina (video abaixo) e, ontem, dia 29 - entrada grátis -, ao sempre muito empolado e esperado grande desfecho das séries masculinas (vídeo de cima), que encerram anualmente o torneio em clima cerimonial de grande pompa e circunstância, como aliás é próprio de quase tudo o que é evento desportivo neste país.

Começando pelo fim, a final masculina viu defrontarem-se a equipa do Mitokiryukoukou (水戸葵陵高校, 茨城県), originária da Prefeitura de Ibaraki, Kanto (茨城県 - proximidades de Tóquio) -, com uma equipa oriunda de um meio tido por mais provinciano, a equipa do Meitokugijyuku (明徳義塾高校, 高知県), oriunda da Prefeitura de Kouchi (高知県), ilha de Shikoku, saindo estes últimos como os grandes vencedores do Gyokuryuki 2009.

Bons shiai (combates), por sinal muito equilibrados - tendo ambas as equipas kendoshi de estaturas e porte físico semelhantes, o que no Kendo não será aspecto essencial, mas podendo fazer alguma diferença no desempate - cabendo aos vencedores do Meitokugijyuku a côr vermelha e, aos seus adversários do Mitokiryu, a côr branca.

Lego-vos o vídeo do quinto e último shiai (versão sampling) - as equipas apresentam-se no formato 5 contra 5, um par à vez -, mini-doc feito por este vosso Nanban, handicam em punho, à vossa apreciação.


No meu modesto entender, bem mais interessante foi o desempenho das miúdas, tendo, na keshou'sen (決勝戦 - grande final), a "equipa da casa", as Nakamura Gaku'en Joshi (中村学園女子高校, 福岡県 - literalmente "As Meninas do Parque Escolar de Nakamura" - Prefeitura de Fukuoka -, colégio chique e tido em alta referência numa diversidade de modalidades desportivas), estas apadrinhadas pelo meu querido Kaneko Nobuyoshi Sensei (Kyoshi, 8º Dan - 八段), defrontado as menos afamadas pequenas kenshi de Shimabara, Prefeitura de Nagasaki, que, ao que me pareceu, se apresentaram na final como uma espécie de outsiders-grande-revelação do ano, nesta edição do Gyokuryuki.

Como todos sabemos, nestas coisas, o favoritismo pode bem ter o sabor de um presente envenenado: no caso em apreço, as meninas do Nakamura Joshi (faixas brancas, no filme) - que arrecadaram o título do torneio em 2005 e 2007 - apresentaram-se com a fanfarra de quem já canta vitória antes do fim, cenário engalanado pela poderosa assistência de inflamados apoiantes e famílias e demais entusiastas da equipa, aplaudindo apaixonadamente cada esboço de investida e entoando slogans de apoio em uníssono, num estilo muito ensaiado, como só por cá se sabe fazer - não esqueçamos que se tratava de equipa da cidade anfitriã do evento...-, acabando por sofrer os revéses próprios de um certo excesso de confiança...

Já as catraias de Shimabara (faixas vermelhas), em geral com menor porte físico, menos exuberância na execução e, sobretudo!, com menos frissom em seu redor, apresentando-se com uma serenidade surpreendente, acabaram por levar a sua a melhor: houshin (放心 - estado ideal de tranquilidade interior) e zanshin ( 残心 - estado de alerta/prontidão) bem aguçados acabaram por ser os dois condimentos certos para a receita da vitória.

NOTA FINAL: em ambas as equipas masculinas a disputar a final, todos os Kenshi são/eram, à data, titulares do 2º Dan (二段); nas equipas femininas: das sete Kenshi de Shimabara (equipa vitoriosa), seis detêm/detinham à data o 2º Dan (二段) e uma o 3º Dan (三段); já a equipa do Nakamura Joshi apresentou-se com quatro Sandan (3º Dan - 三段) e três Nidan (2º Dan - 二段).

Apreciem que vale a pena!


sexta-feira, 24 de julho de 2009

LAR DOCE LAR...

Aos incautos, frequentadores menos assíduos deste blog-espaço-de-convívio, um esclarecimento prévio: Não... Não se tratam de imagens da minha querida Fukuoka, Kyushu, Japão, lugar do meu domicílio...

De regresso a casa, tempo para uma breve passagem por Shangai, República Popular da China, lugar de muitos (des)encantos, gente de muitas raças, côres e credos, praça de todos os negócios (da China e não só)...
A intenção inicial não seria tanto um apreciar da capital comercial do Império do Meio, mas tão somente contemplar, de regresso a casa - digo-lo uma vez mais - aquele que foi anunciado como sendo o mais longo Eclipse Total Do Sol do Século XXI...

Sim: de retorno à Ásia que trago no peito, tempo para uma litúrgia da Mãe-Natureza em pessoa, de dimensões e solenidade sem igual, como nunca antes me tinha sido dado o privilégio de presenciar, e, claro está, o entusiasmo - para mais sendo esta a 1ª vez que iria pisar o solo da grande promessa do novo século - era mais que muito...

Tripla decepção - um mal nunca vem só! e desta foi a valer: nem Eclipse - antes de mais por pura displiscência deste vosso NanBan, que se meteu num avião que (necessariamente) acabava por o pôr no devido destino demasiado tarde para o efeito ("Oh NanBan! Então não estás já mais que batido em viagens entre a Europa e o Extremo-Oriente??? Então não 'tás fartinho de saber que chegas lá 'um dia depois'?"... Eu sei... Eu sei... Não batam mais no ceguinho... enfim...) - e nem que, ainda que comparecendo a horas, pretendesse gozar o melhor do propósito inicial da minha vinda à China neste 22 de Julho de 2009, o céu do dia era bem o que podeis apreciar das fotos aqui anexadas: e escassos minutos depois de serem tiradas as famosas fotos, chovia a potes como só climas como aquele, nesta altura do ano, permitem... ("Oh NanBan! Então não estás já mais que batido no 'saborear' do clima extremo do Sul do Extremo-Oriente??? Não estás mais-que-esclarecido de como é o 'Verão' de lá??? ... Eu sei... Eu sei... ora, pois...)
Terceira etapa da borrasca: (mais um aviso prévio: ainda que estando longe de partilhar sentimentalismos universalistas de gosto new age mais-que-duvidoso, faço questão de dizer aqui e agora que não gosto, MESMO NADA, de dizer mal de seja quem fôr... mas no caso em apreço fico mesmo sem margem de manobra...) Shangai, a tão badalada, tão apregoada, tão promissora Shangai deste início de Século (o tal a quem já há quem chame O Século da China) ia-me matando de susto!

Aquilo que eu só posso comparar à Câmera dos Horrores de um certo museu de figuras de cêra, começa, enquanto itinerário, no trânsito automóvel selvático, passa pelo panorama geral dos gigantescos parques habitacionais de arranha-céus de betão barato, dá uma volta pelo centro histórico - o famoso e, de facto, interessantíssimo Bund - alegada e repetidamente apresentado ao Mundo como área protegida (mas protegida do quê??? Digam-me lá... é que sinceramente não percebi!... ide lá e apreciai com os vossos próprios e insuspeitos olhos...), onde abunda o mais nauseabundo lixo por tudo quanto é pedaço de chão, não há um passeio público, um sequer!, em condições mínimas, e as obras (a pôr tudo o que resta do avêsso) para a mui publicitada EXPO 2010, a darem cabo da minha réstia de esperança de sair dali com um sorriso breve-que-fôsse de alguma simpatia...
Dia 23, dia de finalmente! voltar então a casa. Um passeio de duas horitas e pouco, ainda e sempre pelo centro que a cada passo mais e mais se parece - irreversivelmente - com uma versão (very) low budget de Tóquio, de fazer o mais empedernido sinófilo chorar de raiva... e depois... "Basta!": o fedor pestilento do lixo omnipresente, a poluição opressiva (agressiva como nunca tal esperara exprimentar na vida...) que mal deixa os pulmões de quem de fora ambientarem-se por um minuto que seja, o frenesim atropelante, desumano de peões e veículos que só sabem da sua sorte e das horas e lugar onde se devem apresentar, acabavam de deitar por terra o meu último e diplomático esforço de confraternização com esta Nova Babilónia-A-Grande...

À hora da ida para o aeroporto de Pu'dong, num taxi literalmente a voar aos "S"s pelo que parecia ser uma vulgar auto-estrada (tão longe estava eu de perceber ao certo o que aquilo era, nem vos sei dizer ainda... de tão caótico que é!...), a velocidades a oscilarem somente entre os 160 e 200 Km/hora (isto é autêntico meus queridos leitores!!!), com algumas ultrapassagens em movimento quase elíptico pelo meio, e pelo meio de camiões cisterna de combustível com umas quantas buzinadelas de permeio (decididamente em certos lugares do nosso Mundo devia ser crime tocar-se sequer num volante de um veículo a motor...)... tempo para fechar os olhos... tentar respirar correctamente... não pensar demasiado na vida nem na... ouvir alguma música?... talvez?...

A banda sonora para a hipotética morte na estrada de um estrangeiro a caminho do aeroporto internacional de Shangai?... Calhou no Ipod um tema de uma banda de rock Inglesa, destas d'agora, que por acaso tive o prazer de apreciar aqui no Japão, num pequeno clube de Tóquio, há uns meses poucos e de quem gostei bastante, confesso - os White Lies ...
O tema: Fairwell To The Fairground - and the song goes:

Farewell to the fairground, these rides aren't working anymore.
Goodbye to this dead town, until the ice begins to thaw.

This place used to gleam, i see it in my hopeful dreams, now i had to get away.
We move towards the stars, and all that we touch becomes ours, lets keep warm till it's day.

Farewell to the fairground, these rides aren't working anymore.
Goodbye to this dead town, until the ice begins to thaw (...)

(...) Keep on running, keep on running, there's no place like home,

...There's No Place Like Home...



sábado, 30 de maio de 2009

AVISO À NAVEGAÇÃO

Cenas dos próximos capítulos: Shofuku-Ji (聖福寺), o mais antigo templo ZEN do Japão.

Caríssimos & Caríssimas NanBans por esse Mundo Fora:
Se nas próximas semanas virem esse sujeito sisudo, na foto, algures pelas vossas bandas, não estranheis: ele está de visita à Pátria por umas semanitas poucas, que a família tem saudades dele e há uns quantos afazeres de permeio.

Ainda por escrever estão um par de capítulos recentes deste meu calcorrear pelos Japões, mas, como sempre, sou franco convosco: ando com uma falta de pachôrra tramada para escrever (isto é crónico) - e o ter que ir aí distribuir passou-bens a todos também não está a ajudar - quem diz a verdade não merece castigo, não é assim? Mas tenho sempre muito gosto em tomar café & dar dois dedinhos de conversa com os amigos, e há muita estorieta por contar de cá que não calha nesta página.

Por isso se virem o tipo sisudo da foto, sentado na esplanada a olhar a Oriente com ar de quem ainda mal chegou já está farto de ali estar, então não hesiteis: vinde sentar-se na mesma mesa que ele adora a vossa companhia.



quarta-feira, 20 de maio de 2009

Silêncio, Scorcese, Shusaku Endo: o Céu e (ou) o Inferno para 2010...


Os três actores já dados como certos no aguardado drama histórico de Martin Scorcese,"Silence", com estreia prevista para 2010: Benicio Del Toro, Daniel Day-Lewis e Gael Carcia Bernal.












Já é dado como certo: 
Martin Scorcese avança mesmo este ano com a produção da sua tão aguardada quanto hesitada quanto adiada versão  de "Silence"  (Chinmoku - 沈黙 - no original), ou "Silêncio" para os mais empedernidos vigilantes da lusofonia. 

Obra-prima de Shusaku Endo, publicada em 1966, "Silêncioterá para mim, certamente um apêlo muito particular; para vós e para um certo público afectivamente atado quer a Portugal quer ao Japão, esta será, porventura, a (tal) obra de eleição - e isto, é ponto assente, quer se partilhe ou não dos sentimentos e preocupações de natureza religiosa que avultam pela obra adentro.

Ora aqui fica um ligeiro aperitivo a aguçar-vos o apetite:

O que terá levado um homem de inabalável fé e inestimável serviço à mesma, a, de um dia para o outro, renunciar-lhe?

Ano de 1614 - após quase seis décadas de acção missionária encabeçada pela missão Jesuíta em Nagasaki, a Cristandade no Japão sofre o pior dos revéses possíveis: o Shogunato dos Tokugawa, recentemente empossado de autoridade absoluta no país, e desta feita empenhado em banir toda e qualquer influência nefasta dos  'bárbaros do Sul'  no Japão, decreta a proibição total do Cristianismo e enceta uma brutal e implacável purga dos fiéis de Cristo, expulsando clérigos - na sua maioria Portugueses e Espanhóis - e seus auxiliares e submtendo crentes e outros suspeitos de o serem a inenarráveis torturas destinadas a levarem todo e qualquer convertido à apostasia

Face à encarniçada bestialidade dos algozes do Shogun, a maioria dos supliciados cedo se verga aos ditames da nova lei...

Mas há ainda os que, no epicentro de tamanha voragem, impassíveis face à razia, insistem em viver na Fé e dela fazer sua causa e bandeira - entre estes um certo prelado dos Jesuítas Portugueses, Cristóvão Ferreira de seu nome, que secretamente permanece por longos anos mais em plena Kyushu, baluarte do Catolicismo Romano em terras do Sol Nascente, recusando peremptoriamente abandonar o seu rebanho e reconhecendo ser esta a mais aflitiva das horas.


Chegádos a 1632, eis quando as notícias trazidas a Roma anunciam o inimaginável para espanto geral e até dos mais cínicos: capturado e submetido à tortura, Ferreira apostatou... sem sequer hesitar!...

De entre os mais incrédulos, dois dos seus discípulos de outrora, Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe, decidem empreender a viagem de todos os riscos, a fim de desvendarem a verdade sobre a apostasia de Ferreira...

Este é, sem sombra de dúvida, para mim, território perdilecto para o mesmo Scorcese de"Mean Streets" (1973), "Taxi Driver" (1976) e d'"A Última Tentação De Cristo" (1988). 
 
Para além do realizador em comum, que têm estes filmes de tão próximo entre si e com o romance de Endo? perguntar-me-ão. 

Resposta: os mesmíssimos temas sempre estiveram lá - a Homem enquanto recptáculo de sofrimento, exposto à dúvida, à falha moral, à traição,  à queda em desgraça, e, ainda assim, sempre movido por uma misteriosa necessidade de redenção.

Pela alta referência que sempre tive em Scorcese, mas também pelas muitas decepções a que me habituei da parte dele nos últimos quinze ou vinte anos, tanto podemos esperar - de"Silence" - uma obra digna de standing ovation como o mais perfeito logro.

O projecto para "Silence" ao que se sabe é antigo - consta que Scorcese vem sonhando em fazer este filme vai para mais de dez anos -  e   por efeito de contratempos vários, outros projectos e solicitações, terá ficado na gaveta este tempo todo à espera da altura certa.
Um elenco de primeira água também parece já ter: Daniel Day-Lewis e Benicio Del Toro estão já dados por garantidos e Gael Garcia Bernal também consta da casta dos eleitos para os papéis 'ocidentais'. Resta saber a quem ficarão destinados os papéis 'nipónicos'.

De Scorcese espera-se sempre muito - dele espero eu sempre muito.
Para este "Silêncio" a bitola está já muito alta.



sexta-feira, 15 de maio de 2009

Men! Kote! Dô! - Parte II - O Filme.

Ora aí estão as imagens para os aficcionados do género!  Tinha prometido que as partilhava convosco... pois aqui as tendes!
Ultrapassado o impasse técnico que me havia impedido de as divulgar mais cedo, é, pois, altura de o fazer, sem mais delongas...

Bem... é verdade que há a gritaria de fundo - que faz parte destas coisas, claro está! -, a imagem está um pouco tremida, perscruta-se algum nervosismo, um certo frissom, entre os presentes, e acima de tudo, o préstimo deste vosso 31 não foi propriamente um brilharete... Abona a meu favor o ser relativamente novato nestas artes - afinal era só exame de Ikkiyuu (一級:いっきゅうsó para o Verão do ano que vem é que me terão a fazer o shiken do 1º Dan
Como também não estava ali em representação da Pátria ou coisa-que-o-valha, pouco importa o meu mais-que-perfeito amadorismo, o qual - assim me parece -  transparece por demais de uma ponta à outra do clip

Espero que os que, de entre vós, já se interessavam pela modalidade mas que por seja que motivo fôr ainda não haviam inquirido por aí além sobre a mesma, aqui encontrem a necessária e suficiente inspiração para vasculhar mais, e mais ainda se entusiasmarem.
Para os que que já andam nestas andanças do Kendo há bem mais tempo do que eu, please feel free to criticize: A gerência agradece.
Para os que não sabem, nem sabiam, nem tão-pouco pretendiam saber seja o que fôr sobre a Via da Espada, espero que este meu modesto contributo accione um estranho mecanismo nas respectivas vidas...

Hajime!...




sexta-feira, 8 de maio de 2009

軍艦島 - "Gunkanjima" - A "Ilha-Couraçado": agora já a podemos visitar...

Ele há aficcionados das paisagens civilizacionais obliteradas e decrépitas: eu sou um deles - os que reconhecem nestes lugares uma certa poesia dos escombros - e a esses como eu, por esse mundo fora, dedico este artigo...


Não vos sei explicar este sentimento - limito-me a reencontrar, agora e sempre, uma emoção antiga, inefável, uma suave e terna tristeza feita assombro, como a de quem algures num outro tempo esteve, foi parte daquilo, e para quem aquilo, que o abandono e o esquecimento degradaram, teve um dia um significado vital.


Hashima, (端島), esse lugar desterrado, mais conhecido pela gente daqui como "Gunkanjima" (軍艦島) - a "Ilha-Couraçado" - era, antes de o ser, um mero trecho de terra, ausente do mundo das coisas que importam.
A corrida ao carvão, aquando do período da industrialização do Japão pelo andar da Restauração Meiji, segunda metade do Século XIX, tornou este lugarejo esquecido no mar de Nagasaki, num cobiçado tesouro. 
Não tardou muito para que o progresso imparável dessa potência então em plena ascensão que era o Dai Nippon do virar do século, trata-se do assunto de séria e impiedosamente converter o que era aquela parca parcela de areia e ervas e umas quantas rochas, no complexo enmaranhado-cinzento de monólitos modernos que a Era Das Máquinas, a força desbravante da sobre-indústria nos legou. 
Feita mina de carvão, com a sua gente operária a laborar e a viver lá, Hashima, de seu pouco mais de 1 kilómetro de extensão, chegou, a ser, no seu auge, o lugar do mundo com a maior densidade populacional de sempre  - fala-se de 1,391 pessoas por hectar (139.100 pessoas/km2).

Decaída na sua importância, a produção de carvão cedeu lugar à ascensão do petróleo enquanto rei dos preciosos combustíveis fósseis.

Foi a morte da "Ilha-Couraçado". 
Assim chamada pela gente, pela semelhança que a visão dela sugeria, uma vez vislumbrada no horizonte, com um certo vaso de guerra da época, o Tosa.

Alguma Alma lá ficou - dizem os que sabem - desde que a última embarcação de operários e suas famílias deixou o ilhéu de betão-armado, já  lá vão trinta e cinco anos...

E talvez por essa Alma Operária que o betão guarda em santuário e que está lá, vive lá, há quem a nomeie ainda, com maior temor reverencial que desdém (assim quero eu crer), de Ilha Fantasma...


Não foram muitos os tantos que quiseram saber mais dela nas três décadas e meia que medearam desde o último frete a deixá-la até à Primavera de hoje: as estruturas foram quebrando, as vigas cedendo mais ao peso do oblívio que ao do desleixo, as habitações, outrora insufladas de vida humana, laboriosa, vibrante, tomadas de assalto pelo silêncio de uma memória ausente e pela erva daninha própria dos lugares sem tarefa.

Não mais foi possível ir lá, entrevistar o silêncio, tirar o retrato à ruína.

Mas soube-o hoje: lembraram-se dela, e podemos agora revisitá-la
Há mesmo quem queira fazer, da "Ilha Couraçado", património de todos nós.

Ela certamente o merece...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um Outro Japão...

"Golden Week" no Japão é assim mesmo: dolce fare niente, ou então passear por aí, ver o muito, mesmo muito, que está lá, ainda e sempre por descobrir, num país tanto maior e tão mais deslumbrante quanto melhor o vamos conhecendo.

Desta vez, a escolha foi Karatsu, em Saga, prefeitura a sudoeste da nossa Fukuoka, situada entre esta e a região de Nagasaki. 
Não foi a primeira vez que me deixei ir, Japão telúrico adentro, mas esta é, sem dúvida uma gravura a guardar...

Karatsu é uma cidade de facto e por direito próprio, mas já situada num Japão mais ausente, mais alheio o cosmopolitismo futurista a que nos acostumámos, estejamos em Tokyo-To, em Osaka ou mesmo em Fukuoka.

Este é MESMO outro Japão.
Um Japão de bosques e aldeias pitorescas, de arrozais e casas de portas de correr de cobertura de papel-de-arroz e soalhos forrados de tatamis.

A impressão fica no horizonte num apanhado destes: 

Karatsu faz-se dominar pelo seu castelo altaneiro, cenário perfeito para épicos de Samurais aguerridos e duelos impossíveis: esta é a Kyushu de Miyamoto MusashiSasaki Kojiro e Sakamoto Ryoma...

Do topo do Monte Kagami, é-nos oferecida esta visão estonteante, sobre o Estreito da Coreia:


É de facto um lugar de levar o último fôlego de um homem...
Karatsu é território a revisitar, sempre.
São aquelas ilhotas ao longe quem nos chama. Quero estar em cada margem, em cada praia, em cada breve estreito de mar entre redutos de terra...

Este é o Japão que eu amo...

terça-feira, 5 de maio de 2009

道祖神 - "Dosojin" Ou O Mistério Dos Dois Monólitos Sugestivos...





 



Eu juro: levou algum tempo... até que se fizesse luz no meu espírito...

A Etsu dizia-me: "...será que não vês?... o que elas são?..."


...E eu olhava... e olhava... e passaram aí uns três minutinhos e eu já estava a sentir-me muuuuuuiiiiiito estúpido, muito, muito estúpido, muito ESTÚPIDO mesmo! é verdade...

...E depois a Etsu lá me disse: "É um Dosojin ... e representa um casal feliz..."

Dosojin - escreve-se assim 道祖神 e por favor!: que não vos passe pela cabeça tatuarem esta sacro-santa palavrinha num dos vossos braços (eu sei que os kanjis têm os seus encantos, eu sei...), não vá calhar passar um grupo de Japoneses por vós, aí na vossa praia de eleição, no Verão, e desatarem-se todos a rir à gargalhada e a rebolar que nem uns possessos na areia!... ainda acaba tudo de cana!...

Apreciai as fotos e depois dizei-me de vossa justiça... Escusado será dizer que não tem qualquer relação com o Stanley Kubrick - acho eu... -, se bem que não me surpreenderia nada vir a saber que este Kami lhe serviu de inspiração aquando do processo de idealização do "2001"...
Afinal, tem uma certa relação, ou não?...

Próximo capítulo: o resto da história d'hoje...

 

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Men! Kote! Dô!: Hoje É Dia De Kendo, Cantam As Nossas Almas!


Ah Canudo!!! E preparava-me eu para escrever este artigo com redobrado entusiasmo, eis senão quando, mais uma vez, virtude ou defeito da minha falta de apetência por cuidar de aprender a manusear como deve de ser tudo quanto respeite a gadgets electrónicos e afins (eu, logo eu que aqui vim parar, ao País das máquinas-de-bolso),  a câmera de filmar lá tinha que me pregar a partida... Ou melhor, a dizer a verdade, eu é que trouxe para cá a câmera digital comprada em Portugal e nem tive o simples cuidado de verificar se trazia os apetrechos/acessórios todos, necessários para um completo usufruto das 1001 histórias e historietas que ela me dá a partilhar convosco... Ah Borrasca!...

Adiante: há, entre vós, os que me dão o prazer da vossa companhia neste espaço, os que já sabiam ser eu um devoto entusiasta do Kendo, ancestral arte do manuseamento da espada no Japão, disciplina-fundamento dos Samurai d'antigamente, hoje uma actividade mais desportiva que própriamente bélica, ou melhor, marcial, mas, não obstante, dada ao ímpeto combativo e à ferocidade dos kiai, próprios destas coisas. E digo-vos do coração: é a melhor coisa que me aconteceu desde que cá cheguei - faz em breve 1 ano. 

Não é minha intenção dissertar aqui hoje e por aí além sobre a "A Via Da Espada" (剣道 kendō), porque, assim espero, terei outras oportunidades para o fazer com outro empenho e pertinência, e em última análise porque, para os que de entre vós desejem desde já aprofundar os conhecimentos que aqui vos deixo sobre esta magnífica modalidade, não terão falta de boas e mui recomendáveis páginas no ciberespaço sobre o assunto - bem melhores do que o que quer que fosse que eu me propusesse escrever aqui e agora. Mais a diante deixo-vos umas quantas em "link", de minha escolha. 

O certo é que hoje - ou melhor ontem, que aqui e agora, as I write these poor notes, já são 30 -, dia 29 de Abril, feriado nacional por cá - Dia de Shôwa - lá fui eu de manhãzinha, pela fresca, com a Etsu, Amor do meu coração e minha distinta esposa, todo contente ao Minami Taikukan de Fukuoka, espécie de ginásio municipal do departamento Sul da cidade, prestar-me a provas do 4º - Yonkyū (四級:よんきゅう) - ao 1º kyuIkkyū (一級:いっきゅう) - este último o grau de progressão que presentemente me assiste, e com mais uns 200 pequenos kenshi, todos de idades, ao que creio, oscilando entre os 10 e os 16 anos, o que fazia de mim, único canastrão já passado dos 30 e ainda por cima gaijin, uma figura por demais - diriam alguns - destoante em tão cerimonioso quadro. 

Esclarecimento prévio: só no Japão, rezam os números, há hoje perto de 1,2 milhões de praticantes de Kendo, sendo a modalidade encarada por muitos como sendo o verdadeiro repositório do espírito nacional nipónico enquanto legado didático, desportivo e cultural, e é mesmo prática obrigatória para os profissionais das forças de segurança nacionais.


Mas dizia eu, lá fomos nós, manhã adentro, para o centro de provas, comigo carregando shinai, kendo-gi e Bogu, e a Etsu munida da câmera de filmar para que a esta hora pudesse eu partilhar a alegria do dia aqui convosco...

Lá me esperavam os meus queridos Mestres do "Sei Shin Kan" - nome do respeitável dôjo que me acolhe nestas terras, que poder-se-ia traduzir pelo título de "Pavilhão do Coração Sincero" (hei-de, assim espero, num futuro próximo, falar-vos mais do Sei Shin Kan, o "meu Sei Shin Kan") -, Kaneko Sensei (八段, Hachi-dan - 8º Dan -título máximo na modalidade) e Kihara Sensei (七段, Nana-dan - 7º Dan) - dois verdadeiros Pais, assim mesmo com "P" capital, para mim nestes tempos de exílio -, que logo trataram de apaziguar a minha ansiedade em dia de tamanha agitação em meu redor.

E estava a tudo a correr em ambiente de grande animação e ordem, e, to cut a long story short, após 2 longas e sentidas horas de espera, lá fiz o meu exame prático, composto de dois shiai, ou melhor dois breves ensaios de shiai ou combates própriamente ditos (correu bem: lá me calhou, para que fique documentado, defrontar dois bravos, jovens kenshi, mais ou menos de talha igual ao meu modesto quase 1,70 m., o que, diga-se a verdade, tornou a responsabilidade do momento mais "confortável" se assim posso dizer - defrontar adversários mais baixos ou mais altos, é, minha opinião, bem mais melindroso...). 

Não me pareceu (nestas coisas a impressão própria não deve contar muito, pois não?), dizia eu, não me pareceu ter desempenhado o meu papel com particular graça ou engenho, a verdade é que o Júri, composto de cinco shinsa'in - termo que designa os senhores sizudos que ali estão, nestas cerimónias, a presidir ao escrutínio dos examinados - por sinal gostaram da minha prestação, e aprovaram-me com a distinta pontuação de Go-nin, 5 pontos em 5.  Fiquei feliz!... Levava o número 31 na lista de examinandos, que é um número do qual não gosto particularmente, mas que, ao que parece, desta, trouxe bom auspício.


E a Etsu até lá teve o cuidado de filmar a prova e o cenário e a miudagem em grande frenesim ali ás voltas... 
A verdade é que, chegados a casa, ia eu feliz da vida guardar o disco do nosso breve e caseiro documentário do dia, e, olha!, queres ver que me falta o cabo "CC" e mais outra treta qualquer que era precisa para descarregar isto no PC? Ah! Sorte torcida!

Queiram dar-me a benésse da vossa boa compreensão: mais um mês, mais coisa menos coisa, dou um salto aí ao vosso/nosso lado do Mundo, resgato os apetrechos da câmera de filmar que estão agora em falta, e dou a volta a marosca d'hoje. 

Até lá, comtemplai as fotos que, à falta de melhor, vos deixo hoje a ilustrar o artigo do dia e que documentam parte da minha preparação para o evento da narrativa de hoje, ao longo dos últimos 6 meses, no "Sei Shin Kan", bairro de Nagazumi, Fukuoka-Shi, Kyushu.

Ah! e para já para já, estes dois magníficos blogues: 
  • USAGI-SAN , blogue do Mestre Joaquim Coelho (二段 Ni-Dan - 2º Dan) do Kendokan - Clube de Kendo de Faro, em bom Português e com muita, rigorosa e útil informação, para os que de entre vós queiram mesmo, mesmo aprender mais sobre Kendo.
  • BLOGUE do Mestre George MacCall, de nacionalidade Britânica (Escocês) e baseado há vários anos em Osaka - MacCall foi membro da Equipa Britânica de Kendo, e este é sem dúvida dos melhores, ou mesmo o melhor blogue sobre Kendo até ao momento, do meu conhecimento.
  E ainda:
Recordo-vos, a título de nota final: coube a Portugal, em 2007, a honra de acolher o 21º Campeonato Europeu de Kendo.

Enjoy!