O espanto não poderia ser maior, uma vez que se trata de um filme trazido a público, ao que parece, em 2004, altura em que eu me achava ainda em Portugal e, das duas uma, ou andaria eu muito distraído na altura em que terá sido exibido nas salas de cinema do nosso país, ou então nunca lá passou de todo... E corrijam-me, por favor, se estiver a cometer algum equívoco.
E também, porque ao que sabemos, o filme correu o risco de pur'e simplesmente não ser visionável no Japão, devido aos receios que, à época do seu lançamento, se avolumaram, de uma possível recepção hostil e boicote por parte dos chamados
Uyoku - grupos de extrema-direita locais.
"
Solntse/O Sol" insere-se, ao que consta, numa tetralogia idealizada por
Sokurov, centrada, esta, em lideranças/tiranias do Século XX (caberá a cada espectador captar o significado do elo entre os protagonistas de cada um dos filmes e falta ainda, ao que parece, concluir o último dos quatro, o qual permanece ainda envolto num certo mistério...), e, a par do filme que foca Hirohito, contam-se os já estreados "
Moloch" (Hitler) de 1999, e "
Taurus" (Lenine) de 2000.
Confesso que não tive ainda a oportunidade de ver os outros dois filmes.
A verdade é que este "Taiyoo/O Sol" é uma obra em tudo singular e de inequívoco mérito maior.
O filme foca precisamente o momento da assunção da
derrota em 1945, pelo Imperador, pelo seu governo e pelo seu povo, e a hora em que se joga a verdade do destino que lhe(s) será reservado, pelos vencedores, para o que o futuro ditar...
Sokurov descarta desde logo as pretensões de
rigôr histórico ou de
fiabilidade dos diálogos que, às mãos de outras produções assumiriam um relevo próprio de
encenações documentais, ao estilo History Channel.
Porque não é necessariamente da verdade ou do que queiramos fazer dela que o filme trata.
É antes e isso sim, o retratar num estilo muito
sui generis de um
homem - que era "mais-que-homem", antes
um deus proclamado como tal pela e entre a sua gente - sobre quem pesa uma inadiável urgência de se converter tão só... num homem de facto: comum, cárneo, mundano, falível, risível -
"This guy is Charlie!" avençam entre risos e incredulidade os fotógrafos americanos que cobrem de flashes um sorridente e simplificado
Heikka (Majestade) junto a um canteiro de flores, trajando um leve e turístico fato de verão (e depois de previamente haverem tomado um dos seus criados pelo próprio...), numa das mais memoráveis cenas do filme.
Hirohito - na figura do actor
Issey Ogata, numa das mais conseguidas e perturbantes criações interpretativas que vi nos últimos dez anos - vagueia sereno, conduzido como que por uma força fantasmagórica, pela cerca de hora e meia de película, entre a ante-câmara palaciana do seu refúgio privado (o laboratório de biologia), o
bunker onde se reúne pela última vez com o seu estado-maior, os jardins da vila imperial, o salão de recepções da embaixada americana, entretanto re-confiada a
Douglas MacArthur, pelos escombros de uma
Tokyo desvastada por sucessivos bombardeamentos de saturação...
Entre diálogos muito sóbrios e de grande acessibilidade e silêncios mais-que-eloquentes, "O Sol" traz-nos ainda um pequeno leque de prestações irrepreensíveis, numa, geral, magnífica direcção de actores - onde apenas estranha a escolha de um menos adequado Robert Dawson no papel de MacArthur, num registo pálido e até mesmo algo frouxo, diria, para a qualificção pretendida, e face aos desempenhos magistrais de Ogata (Hirohito) e de Shiro Sano (no papel do sobre-escrupuloso camareiro do imperador).
"O Sol" é, sem dúvida, um filme que transcende largamente a estreiteza dos cenários - histórico e visual - em que se desenlaça, e suspeito, que ficará mesmo como uma referência maior (pelo menos para mim) para uma certa cinematografia de excelência do nosso tempo.
Se não o viram já, então vasculhem onde vos aprouver, mas tratem lá de sacar uma cópia em DVD ou n'outro formato qualquer e ver a estranha luz deste Sol.
Imperdível.