sábado, 30 de maio de 2009

AVISO À NAVEGAÇÃO

Cenas dos próximos capítulos: Shofuku-Ji (聖福寺), o mais antigo templo ZEN do Japão.

Caríssimos & Caríssimas NanBans por esse Mundo Fora:
Se nas próximas semanas virem esse sujeito sisudo, na foto, algures pelas vossas bandas, não estranheis: ele está de visita à Pátria por umas semanitas poucas, que a família tem saudades dele e há uns quantos afazeres de permeio.

Ainda por escrever estão um par de capítulos recentes deste meu calcorrear pelos Japões, mas, como sempre, sou franco convosco: ando com uma falta de pachôrra tramada para escrever (isto é crónico) - e o ter que ir aí distribuir passou-bens a todos também não está a ajudar - quem diz a verdade não merece castigo, não é assim? Mas tenho sempre muito gosto em tomar café & dar dois dedinhos de conversa com os amigos, e há muita estorieta por contar de cá que não calha nesta página.

Por isso se virem o tipo sisudo da foto, sentado na esplanada a olhar a Oriente com ar de quem ainda mal chegou já está farto de ali estar, então não hesiteis: vinde sentar-se na mesma mesa que ele adora a vossa companhia.



quarta-feira, 20 de maio de 2009

Silêncio, Scorcese, Shusaku Endo: o Céu e (ou) o Inferno para 2010...


Os três actores já dados como certos no aguardado drama histórico de Martin Scorcese,"Silence", com estreia prevista para 2010: Benicio Del Toro, Daniel Day-Lewis e Gael Carcia Bernal.












Já é dado como certo: 
Martin Scorcese avança mesmo este ano com a produção da sua tão aguardada quanto hesitada quanto adiada versão  de "Silence"  (Chinmoku - 沈黙 - no original), ou "Silêncio" para os mais empedernidos vigilantes da lusofonia. 

Obra-prima de Shusaku Endo, publicada em 1966, "Silêncioterá para mim, certamente um apêlo muito particular; para vós e para um certo público afectivamente atado quer a Portugal quer ao Japão, esta será, porventura, a (tal) obra de eleição - e isto, é ponto assente, quer se partilhe ou não dos sentimentos e preocupações de natureza religiosa que avultam pela obra adentro.

Ora aqui fica um ligeiro aperitivo a aguçar-vos o apetite:

O que terá levado um homem de inabalável fé e inestimável serviço à mesma, a, de um dia para o outro, renunciar-lhe?

Ano de 1614 - após quase seis décadas de acção missionária encabeçada pela missão Jesuíta em Nagasaki, a Cristandade no Japão sofre o pior dos revéses possíveis: o Shogunato dos Tokugawa, recentemente empossado de autoridade absoluta no país, e desta feita empenhado em banir toda e qualquer influência nefasta dos  'bárbaros do Sul'  no Japão, decreta a proibição total do Cristianismo e enceta uma brutal e implacável purga dos fiéis de Cristo, expulsando clérigos - na sua maioria Portugueses e Espanhóis - e seus auxiliares e submtendo crentes e outros suspeitos de o serem a inenarráveis torturas destinadas a levarem todo e qualquer convertido à apostasia

Face à encarniçada bestialidade dos algozes do Shogun, a maioria dos supliciados cedo se verga aos ditames da nova lei...

Mas há ainda os que, no epicentro de tamanha voragem, impassíveis face à razia, insistem em viver na Fé e dela fazer sua causa e bandeira - entre estes um certo prelado dos Jesuítas Portugueses, Cristóvão Ferreira de seu nome, que secretamente permanece por longos anos mais em plena Kyushu, baluarte do Catolicismo Romano em terras do Sol Nascente, recusando peremptoriamente abandonar o seu rebanho e reconhecendo ser esta a mais aflitiva das horas.


Chegádos a 1632, eis quando as notícias trazidas a Roma anunciam o inimaginável para espanto geral e até dos mais cínicos: capturado e submetido à tortura, Ferreira apostatou... sem sequer hesitar!...

De entre os mais incrédulos, dois dos seus discípulos de outrora, Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe, decidem empreender a viagem de todos os riscos, a fim de desvendarem a verdade sobre a apostasia de Ferreira...

Este é, sem sombra de dúvida, para mim, território perdilecto para o mesmo Scorcese de"Mean Streets" (1973), "Taxi Driver" (1976) e d'"A Última Tentação De Cristo" (1988). 
 
Para além do realizador em comum, que têm estes filmes de tão próximo entre si e com o romance de Endo? perguntar-me-ão. 

Resposta: os mesmíssimos temas sempre estiveram lá - a Homem enquanto recptáculo de sofrimento, exposto à dúvida, à falha moral, à traição,  à queda em desgraça, e, ainda assim, sempre movido por uma misteriosa necessidade de redenção.

Pela alta referência que sempre tive em Scorcese, mas também pelas muitas decepções a que me habituei da parte dele nos últimos quinze ou vinte anos, tanto podemos esperar - de"Silence" - uma obra digna de standing ovation como o mais perfeito logro.

O projecto para "Silence" ao que se sabe é antigo - consta que Scorcese vem sonhando em fazer este filme vai para mais de dez anos -  e   por efeito de contratempos vários, outros projectos e solicitações, terá ficado na gaveta este tempo todo à espera da altura certa.
Um elenco de primeira água também parece já ter: Daniel Day-Lewis e Benicio Del Toro estão já dados por garantidos e Gael Garcia Bernal também consta da casta dos eleitos para os papéis 'ocidentais'. Resta saber a quem ficarão destinados os papéis 'nipónicos'.

De Scorcese espera-se sempre muito - dele espero eu sempre muito.
Para este "Silêncio" a bitola está já muito alta.



sexta-feira, 15 de maio de 2009

Men! Kote! Dô! - Parte II - O Filme.

Ora aí estão as imagens para os aficcionados do género!  Tinha prometido que as partilhava convosco... pois aqui as tendes!
Ultrapassado o impasse técnico que me havia impedido de as divulgar mais cedo, é, pois, altura de o fazer, sem mais delongas...

Bem... é verdade que há a gritaria de fundo - que faz parte destas coisas, claro está! -, a imagem está um pouco tremida, perscruta-se algum nervosismo, um certo frissom, entre os presentes, e acima de tudo, o préstimo deste vosso 31 não foi propriamente um brilharete... Abona a meu favor o ser relativamente novato nestas artes - afinal era só exame de Ikkiyuu (一級:いっきゅうsó para o Verão do ano que vem é que me terão a fazer o shiken do 1º Dan
Como também não estava ali em representação da Pátria ou coisa-que-o-valha, pouco importa o meu mais-que-perfeito amadorismo, o qual - assim me parece -  transparece por demais de uma ponta à outra do clip

Espero que os que, de entre vós, já se interessavam pela modalidade mas que por seja que motivo fôr ainda não haviam inquirido por aí além sobre a mesma, aqui encontrem a necessária e suficiente inspiração para vasculhar mais, e mais ainda se entusiasmarem.
Para os que que já andam nestas andanças do Kendo há bem mais tempo do que eu, please feel free to criticize: A gerência agradece.
Para os que não sabem, nem sabiam, nem tão-pouco pretendiam saber seja o que fôr sobre a Via da Espada, espero que este meu modesto contributo accione um estranho mecanismo nas respectivas vidas...

Hajime!...




sexta-feira, 8 de maio de 2009

軍艦島 - "Gunkanjima" - A "Ilha-Couraçado": agora já a podemos visitar...

Ele há aficcionados das paisagens civilizacionais obliteradas e decrépitas: eu sou um deles - os que reconhecem nestes lugares uma certa poesia dos escombros - e a esses como eu, por esse mundo fora, dedico este artigo...


Não vos sei explicar este sentimento - limito-me a reencontrar, agora e sempre, uma emoção antiga, inefável, uma suave e terna tristeza feita assombro, como a de quem algures num outro tempo esteve, foi parte daquilo, e para quem aquilo, que o abandono e o esquecimento degradaram, teve um dia um significado vital.


Hashima, (端島), esse lugar desterrado, mais conhecido pela gente daqui como "Gunkanjima" (軍艦島) - a "Ilha-Couraçado" - era, antes de o ser, um mero trecho de terra, ausente do mundo das coisas que importam.
A corrida ao carvão, aquando do período da industrialização do Japão pelo andar da Restauração Meiji, segunda metade do Século XIX, tornou este lugarejo esquecido no mar de Nagasaki, num cobiçado tesouro. 
Não tardou muito para que o progresso imparável dessa potência então em plena ascensão que era o Dai Nippon do virar do século, trata-se do assunto de séria e impiedosamente converter o que era aquela parca parcela de areia e ervas e umas quantas rochas, no complexo enmaranhado-cinzento de monólitos modernos que a Era Das Máquinas, a força desbravante da sobre-indústria nos legou. 
Feita mina de carvão, com a sua gente operária a laborar e a viver lá, Hashima, de seu pouco mais de 1 kilómetro de extensão, chegou, a ser, no seu auge, o lugar do mundo com a maior densidade populacional de sempre  - fala-se de 1,391 pessoas por hectar (139.100 pessoas/km2).

Decaída na sua importância, a produção de carvão cedeu lugar à ascensão do petróleo enquanto rei dos preciosos combustíveis fósseis.

Foi a morte da "Ilha-Couraçado". 
Assim chamada pela gente, pela semelhança que a visão dela sugeria, uma vez vislumbrada no horizonte, com um certo vaso de guerra da época, o Tosa.

Alguma Alma lá ficou - dizem os que sabem - desde que a última embarcação de operários e suas famílias deixou o ilhéu de betão-armado, já  lá vão trinta e cinco anos...

E talvez por essa Alma Operária que o betão guarda em santuário e que está lá, vive lá, há quem a nomeie ainda, com maior temor reverencial que desdém (assim quero eu crer), de Ilha Fantasma...


Não foram muitos os tantos que quiseram saber mais dela nas três décadas e meia que medearam desde o último frete a deixá-la até à Primavera de hoje: as estruturas foram quebrando, as vigas cedendo mais ao peso do oblívio que ao do desleixo, as habitações, outrora insufladas de vida humana, laboriosa, vibrante, tomadas de assalto pelo silêncio de uma memória ausente e pela erva daninha própria dos lugares sem tarefa.

Não mais foi possível ir lá, entrevistar o silêncio, tirar o retrato à ruína.

Mas soube-o hoje: lembraram-se dela, e podemos agora revisitá-la
Há mesmo quem queira fazer, da "Ilha Couraçado", património de todos nós.

Ela certamente o merece...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um Outro Japão...

"Golden Week" no Japão é assim mesmo: dolce fare niente, ou então passear por aí, ver o muito, mesmo muito, que está lá, ainda e sempre por descobrir, num país tanto maior e tão mais deslumbrante quanto melhor o vamos conhecendo.

Desta vez, a escolha foi Karatsu, em Saga, prefeitura a sudoeste da nossa Fukuoka, situada entre esta e a região de Nagasaki. 
Não foi a primeira vez que me deixei ir, Japão telúrico adentro, mas esta é, sem dúvida uma gravura a guardar...

Karatsu é uma cidade de facto e por direito próprio, mas já situada num Japão mais ausente, mais alheio o cosmopolitismo futurista a que nos acostumámos, estejamos em Tokyo-To, em Osaka ou mesmo em Fukuoka.

Este é MESMO outro Japão.
Um Japão de bosques e aldeias pitorescas, de arrozais e casas de portas de correr de cobertura de papel-de-arroz e soalhos forrados de tatamis.

A impressão fica no horizonte num apanhado destes: 

Karatsu faz-se dominar pelo seu castelo altaneiro, cenário perfeito para épicos de Samurais aguerridos e duelos impossíveis: esta é a Kyushu de Miyamoto MusashiSasaki Kojiro e Sakamoto Ryoma...

Do topo do Monte Kagami, é-nos oferecida esta visão estonteante, sobre o Estreito da Coreia:


É de facto um lugar de levar o último fôlego de um homem...
Karatsu é território a revisitar, sempre.
São aquelas ilhotas ao longe quem nos chama. Quero estar em cada margem, em cada praia, em cada breve estreito de mar entre redutos de terra...

Este é o Japão que eu amo...

terça-feira, 5 de maio de 2009

道祖神 - "Dosojin" Ou O Mistério Dos Dois Monólitos Sugestivos...





 



Eu juro: levou algum tempo... até que se fizesse luz no meu espírito...

A Etsu dizia-me: "...será que não vês?... o que elas são?..."


...E eu olhava... e olhava... e passaram aí uns três minutinhos e eu já estava a sentir-me muuuuuuiiiiiito estúpido, muito, muito estúpido, muito ESTÚPIDO mesmo! é verdade...

...E depois a Etsu lá me disse: "É um Dosojin ... e representa um casal feliz..."

Dosojin - escreve-se assim 道祖神 e por favor!: que não vos passe pela cabeça tatuarem esta sacro-santa palavrinha num dos vossos braços (eu sei que os kanjis têm os seus encantos, eu sei...), não vá calhar passar um grupo de Japoneses por vós, aí na vossa praia de eleição, no Verão, e desatarem-se todos a rir à gargalhada e a rebolar que nem uns possessos na areia!... ainda acaba tudo de cana!...

Apreciai as fotos e depois dizei-me de vossa justiça... Escusado será dizer que não tem qualquer relação com o Stanley Kubrick - acho eu... -, se bem que não me surpreenderia nada vir a saber que este Kami lhe serviu de inspiração aquando do processo de idealização do "2001"...
Afinal, tem uma certa relação, ou não?...

Próximo capítulo: o resto da história d'hoje...

 

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Men! Kote! Dô!: Hoje É Dia De Kendo, Cantam As Nossas Almas!


Ah Canudo!!! E preparava-me eu para escrever este artigo com redobrado entusiasmo, eis senão quando, mais uma vez, virtude ou defeito da minha falta de apetência por cuidar de aprender a manusear como deve de ser tudo quanto respeite a gadgets electrónicos e afins (eu, logo eu que aqui vim parar, ao País das máquinas-de-bolso),  a câmera de filmar lá tinha que me pregar a partida... Ou melhor, a dizer a verdade, eu é que trouxe para cá a câmera digital comprada em Portugal e nem tive o simples cuidado de verificar se trazia os apetrechos/acessórios todos, necessários para um completo usufruto das 1001 histórias e historietas que ela me dá a partilhar convosco... Ah Borrasca!...

Adiante: há, entre vós, os que me dão o prazer da vossa companhia neste espaço, os que já sabiam ser eu um devoto entusiasta do Kendo, ancestral arte do manuseamento da espada no Japão, disciplina-fundamento dos Samurai d'antigamente, hoje uma actividade mais desportiva que própriamente bélica, ou melhor, marcial, mas, não obstante, dada ao ímpeto combativo e à ferocidade dos kiai, próprios destas coisas. E digo-vos do coração: é a melhor coisa que me aconteceu desde que cá cheguei - faz em breve 1 ano. 

Não é minha intenção dissertar aqui hoje e por aí além sobre a "A Via Da Espada" (剣道 kendō), porque, assim espero, terei outras oportunidades para o fazer com outro empenho e pertinência, e em última análise porque, para os que de entre vós desejem desde já aprofundar os conhecimentos que aqui vos deixo sobre esta magnífica modalidade, não terão falta de boas e mui recomendáveis páginas no ciberespaço sobre o assunto - bem melhores do que o que quer que fosse que eu me propusesse escrever aqui e agora. Mais a diante deixo-vos umas quantas em "link", de minha escolha. 

O certo é que hoje - ou melhor ontem, que aqui e agora, as I write these poor notes, já são 30 -, dia 29 de Abril, feriado nacional por cá - Dia de Shôwa - lá fui eu de manhãzinha, pela fresca, com a Etsu, Amor do meu coração e minha distinta esposa, todo contente ao Minami Taikukan de Fukuoka, espécie de ginásio municipal do departamento Sul da cidade, prestar-me a provas do 4º - Yonkyū (四級:よんきゅう) - ao 1º kyuIkkyū (一級:いっきゅう) - este último o grau de progressão que presentemente me assiste, e com mais uns 200 pequenos kenshi, todos de idades, ao que creio, oscilando entre os 10 e os 16 anos, o que fazia de mim, único canastrão já passado dos 30 e ainda por cima gaijin, uma figura por demais - diriam alguns - destoante em tão cerimonioso quadro. 

Esclarecimento prévio: só no Japão, rezam os números, há hoje perto de 1,2 milhões de praticantes de Kendo, sendo a modalidade encarada por muitos como sendo o verdadeiro repositório do espírito nacional nipónico enquanto legado didático, desportivo e cultural, e é mesmo prática obrigatória para os profissionais das forças de segurança nacionais.


Mas dizia eu, lá fomos nós, manhã adentro, para o centro de provas, comigo carregando shinai, kendo-gi e Bogu, e a Etsu munida da câmera de filmar para que a esta hora pudesse eu partilhar a alegria do dia aqui convosco...

Lá me esperavam os meus queridos Mestres do "Sei Shin Kan" - nome do respeitável dôjo que me acolhe nestas terras, que poder-se-ia traduzir pelo título de "Pavilhão do Coração Sincero" (hei-de, assim espero, num futuro próximo, falar-vos mais do Sei Shin Kan, o "meu Sei Shin Kan") -, Kaneko Sensei (八段, Hachi-dan - 8º Dan -título máximo na modalidade) e Kihara Sensei (七段, Nana-dan - 7º Dan) - dois verdadeiros Pais, assim mesmo com "P" capital, para mim nestes tempos de exílio -, que logo trataram de apaziguar a minha ansiedade em dia de tamanha agitação em meu redor.

E estava a tudo a correr em ambiente de grande animação e ordem, e, to cut a long story short, após 2 longas e sentidas horas de espera, lá fiz o meu exame prático, composto de dois shiai, ou melhor dois breves ensaios de shiai ou combates própriamente ditos (correu bem: lá me calhou, para que fique documentado, defrontar dois bravos, jovens kenshi, mais ou menos de talha igual ao meu modesto quase 1,70 m., o que, diga-se a verdade, tornou a responsabilidade do momento mais "confortável" se assim posso dizer - defrontar adversários mais baixos ou mais altos, é, minha opinião, bem mais melindroso...). 

Não me pareceu (nestas coisas a impressão própria não deve contar muito, pois não?), dizia eu, não me pareceu ter desempenhado o meu papel com particular graça ou engenho, a verdade é que o Júri, composto de cinco shinsa'in - termo que designa os senhores sizudos que ali estão, nestas cerimónias, a presidir ao escrutínio dos examinados - por sinal gostaram da minha prestação, e aprovaram-me com a distinta pontuação de Go-nin, 5 pontos em 5.  Fiquei feliz!... Levava o número 31 na lista de examinandos, que é um número do qual não gosto particularmente, mas que, ao que parece, desta, trouxe bom auspício.


E a Etsu até lá teve o cuidado de filmar a prova e o cenário e a miudagem em grande frenesim ali ás voltas... 
A verdade é que, chegados a casa, ia eu feliz da vida guardar o disco do nosso breve e caseiro documentário do dia, e, olha!, queres ver que me falta o cabo "CC" e mais outra treta qualquer que era precisa para descarregar isto no PC? Ah! Sorte torcida!

Queiram dar-me a benésse da vossa boa compreensão: mais um mês, mais coisa menos coisa, dou um salto aí ao vosso/nosso lado do Mundo, resgato os apetrechos da câmera de filmar que estão agora em falta, e dou a volta a marosca d'hoje. 

Até lá, comtemplai as fotos que, à falta de melhor, vos deixo hoje a ilustrar o artigo do dia e que documentam parte da minha preparação para o evento da narrativa de hoje, ao longo dos últimos 6 meses, no "Sei Shin Kan", bairro de Nagazumi, Fukuoka-Shi, Kyushu.

Ah! e para já para já, estes dois magníficos blogues: 
  • USAGI-SAN , blogue do Mestre Joaquim Coelho (二段 Ni-Dan - 2º Dan) do Kendokan - Clube de Kendo de Faro, em bom Português e com muita, rigorosa e útil informação, para os que de entre vós queiram mesmo, mesmo aprender mais sobre Kendo.
  • BLOGUE do Mestre George MacCall, de nacionalidade Britânica (Escocês) e baseado há vários anos em Osaka - MacCall foi membro da Equipa Britânica de Kendo, e este é sem dúvida dos melhores, ou mesmo o melhor blogue sobre Kendo até ao momento, do meu conhecimento.
  E ainda:
Recordo-vos, a título de nota final: coube a Portugal, em 2007, a honra de acolher o 21º Campeonato Europeu de Kendo.

Enjoy!

terça-feira, 7 de abril de 2009

Certamente, Foi Só Uma Cegonha...

Ainda a propósito de um dos eventos mais mediatizados desta semana, e dando uma vista d'olhos ao que vai e vem na e da Blogosfera a respeito do mesmo, dei comigo a pensar nisto: mas será que há mesmo quem real e seriamente ainda se questione sobre se o lançamento do tal Taepondong-2 tinha mesmo como propósito colocar um "satélite de telecomunicações" em órbita (?????)...
...Mas entretanto lembrei-me dessa curiosa imagem, aí em cima, já por várias vezes e em diversos foruns, utilizada como ícone ilustrativo da presente condição da DPRK em matéria de desenvolvimento económico, e se bem que a foto do DMSP já terá uns bons anos de circulação, quer-me parecer que hoje e noite adentro neste lado do Mundo, se o mesmo satélite por lá passar, a foto à distância de um "click" não será muito diferente... 
Ou então é impressão minha, espírito alienado pela propaganda imperialista norte-americana, eu que sempre e facilmente me deixo impressionar por estas imagens claramente manipuladas, e que não tenho o necessário e suficiente discernimento para constatar que o povo Norte-Coreano é apenas exemplarmente poupado em matéria de dispêndios energéticos - o que, claro está, não deverá obstar à imperiosa necessidade de ter um satélite de telecomunicações ao serviço do futuro e inevitável triunfo do socialismo, versão Juche, state-of-the-art do estalinismo de Pyonyang.
Ou então aquando do tirar-do-retrato, tinha acabado de acontecer um daqueles "apagões" como o que tivemos algures p'los idos de 2000 no nosso Portugal, espécie de partida de carnaval fora d'época que deixou meio país às apalpadelas no escuro, à busca da vela mais próxima, a resmungar que lá se ia um episódio tão importante daquela telenovela, etc.... Lembram-se?
É. Afinal foi uma cegonha. 
Ou terá sido uma dessas famosas andorinhas do Monte Baekdu, como aquela que anunciou o nascimento do "Querido Líder"? E isto fazendo jus ao credo popular local... 

NOTA: Faço questão de deixar aqui, a nota final, um especial e sentido agradecimento à Rita Colaço pelas actualizações no seu excelente Blogue sobre a matéria supra em apreço.
       



domingo, 5 de abril de 2009

...E Ninguém Deu Por Ela - É A Mais Pura Verdade...


...E pronto. Já está. A DPRK lá mandou outro dos seus brinquedos para nenhures, houve certamente quem desse pulinhos de contente na corte dos Kim e quem se babasse algures num ou noutro triste e decrépito prédio de Pyongyang, entre o serviço "noticioso" local do meio-dia e a hora do corte-por-motivo-de-racionamento da electricidade na área, mas aqui... meus queridos, digo-vos a verdade verdadinha: 'táva-se tudo a BORRIFAR. Assim, sem mais nem menos.
Hoje os únicos espíritos agitados aqui em Fukuoka - pelo menos que dessemos por ela - eram os Uyoku cá da terra - mas há lá democracia burguesa que se preze que não tenha os seus fachozinhos de serviço? - que logo de manhã andaram por estas bandas de Hakata-ku a fazer um escarcéu de todo o tamanho, aos berros, os slogans do costume "Escória comuna ponham-se a andar", etc.... Eh... Estranhais? Eu passo a explicar: é que aqui a uns dois quarteirões de casa temos a sucursal local do Chongryon - uma espécie de "Clube dos Amigos da Coreia do Norte" (é verdade, estas coisas existem mesmo! E é aqui no Japão...) -, um lugar por demais propenso a receber as incursões dos mais acérrimos defensores do "Espírito de Yamato", que não devem ter mais nada de interessante que fazer num Domingo solarengo como o d'hoje, se não sair para as ruas logo de manhãzinha cedo a vociferar a suas delirantes diatribes contra um pobre e "pacífico" povo que só queria pôr um "satélite de telecomunicações" a passear no espaço... 
Fukuoka, de resto, viveu mais um exemplar dia de tranquilidade nipónica, seja lá o que isso fôr.
A noite avança sobre a cidade. Hora de ir à varanda fumar um cigarrinho. Olhar as estrelas no firmamento. Talvez passe uma estrela cadente... Ou estranhe uma luz nova no horizonte... And I think to myself "What A Strange, Wicked World"...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

UMA DISCRETA OBRA-PRIMA - "太陽/Taiyoo - O Sol" de Alexander Sokurov (2004)


É, creio eu, de todos sabido o quanto a figura histórica do Imperador Shôwa - ou Hirohito, como é melhor recordado no Ocidente -, soberano do Japão de 1926 a 1989, permanece enredada em recorrentes controvérsias - designadamente no que respeita ao seu desempenho e responsabilidades política e pessoal nos trágicos eventos que afamaram o Japão desde os anos do expansionismo agressivo na Ásia até ao final da II Guerra Mundial, mas também, e sobretudo, pela peculiar situação em que a vitória aliada sobre o Japão em 1945, o deixou a ele e à casa imperial, enquanto símbolos (alegadamente) maiores e mais sacralizados da cultura, da nação e da identidade nipónicas.

No Japão, o tabú que vela a figura do Ten'Ô Shôwa, não poderia ser mais firme, espesso e inexpugnável, do que é hoje: fala-se, ao que parece, muito mais hoje do que há 30, ou mesmo há 20 ou 15 anos atrás, da "Grande Guerra da Ásia Oriental" (como certos círculos políticos e "educativos" no Japão, insistem em didacticamente nomear o somatório dos conflitos e campanhas militares envolvendo o Japão de 1931 a 1945), publicam-se mais livros de teor crítico e acusatório sobre os alegados crimes perpetrados pelo exército imperial (como o massacre de Nanking, ou as operações levadas a cabo pela sinistra Unidade 731), fazem-se mais filmes, mais séries de televisão, mais exposições, mais debates públicos e com maior (?) abertura (? - e tenho mesmo que deixar aqui as interrogações...) à sociedade e ao mundo do que alguma vez antes se vira...
...Mas, quando queremos ouvir falar, um pouco só que seja, do Ten'Ô (termo que significa literalmente Soberano Celestial) Shôwa, o silêncio é sepulcral.
E foi, por isso, que, com surpresa, em data bem recente, dei de caras, aqui no Japão e pude apreciar - mercê do facto de o título se achar disponível em DVD por cá - esta extraordinária obra cinematográfica do cineasta russo Alexander Sokurov, "Solntse" no original, "The Sun" de seu nome na versão anglo-americana, "太陽" - lê-se "Tai-you" -, na cópia de cá.

O espanto não poderia ser maior, uma vez que se trata de um filme trazido a público, ao que parece, em 2004, altura em que eu me achava ainda em Portugal e, das duas uma, ou andaria eu muito distraído na altura em que terá sido exibido nas salas de cinema do nosso país, ou então nunca lá passou de todo... E corrijam-me, por favor, se estiver a cometer algum equívoco.
E também, porque ao que sabemos, o filme correu o risco de pur'e simplesmente não ser visionável no Japão, devido aos receios que, à época do seu lançamento, se avolumaram, de uma possível recepção hostil e boicote por parte dos chamados Uyoku - grupos de extrema-direita locais.

"Solntse/O Sol" insere-se, ao que consta, numa tetralogia idealizada por Sokurov, centrada, esta, em lideranças/tiranias do Século XX (caberá a cada espectador captar o significado do elo entre os protagonistas de cada um dos filmes e falta ainda, ao que parece, concluir o último dos quatro, o qual permanece ainda envolto num certo mistério...), e, a par do filme que foca Hirohito, contam-se os já estreados "Moloch" (Hitler) de 1999, e "Taurus" (Lenine) de 2000.

Confesso que não tive ainda a oportunidade de ver os outros dois filmes.
A verdade é que este "Taiyoo/O Sol" é uma obra em tudo singular e de inequívoco mérito maior.
O filme foca precisamente o momento da assunção da derrota em 1945, pelo Imperador, pelo seu governo e pelo seu povo, e a hora em que se joga a verdade do destino que lhe(s) será reservado, pelos vencedores, para o que o futuro ditar...

Sokurov descarta desde logo as pretensões de rigôr histórico ou de fiabilidade dos diálogos que, às mãos de outras produções assumiriam um relevo próprio de encenações documentais, ao estilo History Channel.
Porque não é necessariamente da verdade ou do que queiramos fazer dela que o filme trata.
É antes e isso sim, o retratar num estilo muito sui generis de um homem - que era "mais-que-homem", antes um deus proclamado como tal pela e entre a sua gente - sobre quem pesa uma inadiável urgência de se converter tão só... num homem de facto: comum, cárneo, mundano, falível, risível - "This guy is Charlie!" avençam entre risos e incredulidade os fotógrafos americanos que cobrem de flashes um sorridente e simplificado Heikka (Majestade) junto a um canteiro de flores, trajando um leve e turístico fato de verão (e depois de previamente haverem tomado um dos seus criados pelo próprio...), numa das mais memoráveis cenas do filme.

Hirohito - na figura do actor Issey Ogata, numa das mais conseguidas e perturbantes criações interpretativas que vi nos últimos dez anos - vagueia sereno, conduzido como que por uma força fantasmagórica, pela cerca de hora e meia de película, entre a ante-câmara palaciana do seu refúgio privado (o laboratório de biologia), o bunker onde se reúne pela última vez com o seu estado-maior, os jardins da vila imperial, o salão de recepções da embaixada americana, entretanto re-confiada a Douglas MacArthur, pelos escombros de uma Tokyo desvastada por sucessivos bombardeamentos de saturação...

Entre diálogos muito sóbrios e de grande acessibilidade e silêncios mais-que-eloquentes, "O Sol" traz-nos ainda um pequeno leque de prestações irrepreensíveis, numa, geral, magnífica direcção de actores - onde apenas estranha a escolha de um menos adequado Robert Dawson no papel de MacArthur, num registo pálido e até mesmo algo frouxo, diria, para a qualificção pretendida, e face aos desempenhos magistrais de Ogata (Hirohito) e de Shiro Sano (no papel do sobre-escrupuloso camareiro do imperador).

"O Sol" é, sem dúvida, um filme que transcende largamente a estreiteza dos cenários - histórico e visual - em que se desenlaça, e suspeito, que ficará mesmo como uma referência maior (pelo menos para mim) para uma certa cinematografia de excelência do nosso tempo.

Se não o viram já, então vasculhem onde vos aprouver, mas tratem lá de sacar uma cópia em DVD ou n'outro formato qualquer e ver a estranha luz deste Sol.
Imperdível.