quarta-feira, 29 de abril de 2009

Men! Kote! Dô!: Hoje É Dia De Kendo, Cantam As Nossas Almas!


Ah Canudo!!! E preparava-me eu para escrever este artigo com redobrado entusiasmo, eis senão quando, mais uma vez, virtude ou defeito da minha falta de apetência por cuidar de aprender a manusear como deve de ser tudo quanto respeite a gadgets electrónicos e afins (eu, logo eu que aqui vim parar, ao País das máquinas-de-bolso),  a câmera de filmar lá tinha que me pregar a partida... Ou melhor, a dizer a verdade, eu é que trouxe para cá a câmera digital comprada em Portugal e nem tive o simples cuidado de verificar se trazia os apetrechos/acessórios todos, necessários para um completo usufruto das 1001 histórias e historietas que ela me dá a partilhar convosco... Ah Borrasca!...

Adiante: há, entre vós, os que me dão o prazer da vossa companhia neste espaço, os que já sabiam ser eu um devoto entusiasta do Kendo, ancestral arte do manuseamento da espada no Japão, disciplina-fundamento dos Samurai d'antigamente, hoje uma actividade mais desportiva que própriamente bélica, ou melhor, marcial, mas, não obstante, dada ao ímpeto combativo e à ferocidade dos kiai, próprios destas coisas. E digo-vos do coração: é a melhor coisa que me aconteceu desde que cá cheguei - faz em breve 1 ano. 

Não é minha intenção dissertar aqui hoje e por aí além sobre a "A Via Da Espada" (剣道 kendō), porque, assim espero, terei outras oportunidades para o fazer com outro empenho e pertinência, e em última análise porque, para os que de entre vós desejem desde já aprofundar os conhecimentos que aqui vos deixo sobre esta magnífica modalidade, não terão falta de boas e mui recomendáveis páginas no ciberespaço sobre o assunto - bem melhores do que o que quer que fosse que eu me propusesse escrever aqui e agora. Mais a diante deixo-vos umas quantas em "link", de minha escolha. 

O certo é que hoje - ou melhor ontem, que aqui e agora, as I write these poor notes, já são 30 -, dia 29 de Abril, feriado nacional por cá - Dia de Shôwa - lá fui eu de manhãzinha, pela fresca, com a Etsu, Amor do meu coração e minha distinta esposa, todo contente ao Minami Taikukan de Fukuoka, espécie de ginásio municipal do departamento Sul da cidade, prestar-me a provas do 4º - Yonkyū (四級:よんきゅう) - ao 1º kyuIkkyū (一級:いっきゅう) - este último o grau de progressão que presentemente me assiste, e com mais uns 200 pequenos kenshi, todos de idades, ao que creio, oscilando entre os 10 e os 16 anos, o que fazia de mim, único canastrão já passado dos 30 e ainda por cima gaijin, uma figura por demais - diriam alguns - destoante em tão cerimonioso quadro. 

Esclarecimento prévio: só no Japão, rezam os números, há hoje perto de 1,2 milhões de praticantes de Kendo, sendo a modalidade encarada por muitos como sendo o verdadeiro repositório do espírito nacional nipónico enquanto legado didático, desportivo e cultural, e é mesmo prática obrigatória para os profissionais das forças de segurança nacionais.


Mas dizia eu, lá fomos nós, manhã adentro, para o centro de provas, comigo carregando shinai, kendo-gi e Bogu, e a Etsu munida da câmera de filmar para que a esta hora pudesse eu partilhar a alegria do dia aqui convosco...

Lá me esperavam os meus queridos Mestres do "Sei Shin Kan" - nome do respeitável dôjo que me acolhe nestas terras, que poder-se-ia traduzir pelo título de "Pavilhão do Coração Sincero" (hei-de, assim espero, num futuro próximo, falar-vos mais do Sei Shin Kan, o "meu Sei Shin Kan") -, Kaneko Sensei (八段, Hachi-dan - 8º Dan -título máximo na modalidade) e Kihara Sensei (七段, Nana-dan - 7º Dan) - dois verdadeiros Pais, assim mesmo com "P" capital, para mim nestes tempos de exílio -, que logo trataram de apaziguar a minha ansiedade em dia de tamanha agitação em meu redor.

E estava a tudo a correr em ambiente de grande animação e ordem, e, to cut a long story short, após 2 longas e sentidas horas de espera, lá fiz o meu exame prático, composto de dois shiai, ou melhor dois breves ensaios de shiai ou combates própriamente ditos (correu bem: lá me calhou, para que fique documentado, defrontar dois bravos, jovens kenshi, mais ou menos de talha igual ao meu modesto quase 1,70 m., o que, diga-se a verdade, tornou a responsabilidade do momento mais "confortável" se assim posso dizer - defrontar adversários mais baixos ou mais altos, é, minha opinião, bem mais melindroso...). 

Não me pareceu (nestas coisas a impressão própria não deve contar muito, pois não?), dizia eu, não me pareceu ter desempenhado o meu papel com particular graça ou engenho, a verdade é que o Júri, composto de cinco shinsa'in - termo que designa os senhores sizudos que ali estão, nestas cerimónias, a presidir ao escrutínio dos examinados - por sinal gostaram da minha prestação, e aprovaram-me com a distinta pontuação de Go-nin, 5 pontos em 5.  Fiquei feliz!... Levava o número 31 na lista de examinandos, que é um número do qual não gosto particularmente, mas que, ao que parece, desta, trouxe bom auspício.


E a Etsu até lá teve o cuidado de filmar a prova e o cenário e a miudagem em grande frenesim ali ás voltas... 
A verdade é que, chegados a casa, ia eu feliz da vida guardar o disco do nosso breve e caseiro documentário do dia, e, olha!, queres ver que me falta o cabo "CC" e mais outra treta qualquer que era precisa para descarregar isto no PC? Ah! Sorte torcida!

Queiram dar-me a benésse da vossa boa compreensão: mais um mês, mais coisa menos coisa, dou um salto aí ao vosso/nosso lado do Mundo, resgato os apetrechos da câmera de filmar que estão agora em falta, e dou a volta a marosca d'hoje. 

Até lá, comtemplai as fotos que, à falta de melhor, vos deixo hoje a ilustrar o artigo do dia e que documentam parte da minha preparação para o evento da narrativa de hoje, ao longo dos últimos 6 meses, no "Sei Shin Kan", bairro de Nagazumi, Fukuoka-Shi, Kyushu.

Ah! e para já para já, estes dois magníficos blogues: 
  • USAGI-SAN , blogue do Mestre Joaquim Coelho (二段 Ni-Dan - 2º Dan) do Kendokan - Clube de Kendo de Faro, em bom Português e com muita, rigorosa e útil informação, para os que de entre vós queiram mesmo, mesmo aprender mais sobre Kendo.
  • BLOGUE do Mestre George MacCall, de nacionalidade Britânica (Escocês) e baseado há vários anos em Osaka - MacCall foi membro da Equipa Britânica de Kendo, e este é sem dúvida dos melhores, ou mesmo o melhor blogue sobre Kendo até ao momento, do meu conhecimento.
  E ainda:
Recordo-vos, a título de nota final: coube a Portugal, em 2007, a honra de acolher o 21º Campeonato Europeu de Kendo.

Enjoy!

terça-feira, 7 de abril de 2009

Certamente, Foi Só Uma Cegonha...

Ainda a propósito de um dos eventos mais mediatizados desta semana, e dando uma vista d'olhos ao que vai e vem na e da Blogosfera a respeito do mesmo, dei comigo a pensar nisto: mas será que há mesmo quem real e seriamente ainda se questione sobre se o lançamento do tal Taepondong-2 tinha mesmo como propósito colocar um "satélite de telecomunicações" em órbita (?????)...
...Mas entretanto lembrei-me dessa curiosa imagem, aí em cima, já por várias vezes e em diversos foruns, utilizada como ícone ilustrativo da presente condição da DPRK em matéria de desenvolvimento económico, e se bem que a foto do DMSP já terá uns bons anos de circulação, quer-me parecer que hoje e noite adentro neste lado do Mundo, se o mesmo satélite por lá passar, a foto à distância de um "click" não será muito diferente... 
Ou então é impressão minha, espírito alienado pela propaganda imperialista norte-americana, eu que sempre e facilmente me deixo impressionar por estas imagens claramente manipuladas, e que não tenho o necessário e suficiente discernimento para constatar que o povo Norte-Coreano é apenas exemplarmente poupado em matéria de dispêndios energéticos - o que, claro está, não deverá obstar à imperiosa necessidade de ter um satélite de telecomunicações ao serviço do futuro e inevitável triunfo do socialismo, versão Juche, state-of-the-art do estalinismo de Pyonyang.
Ou então aquando do tirar-do-retrato, tinha acabado de acontecer um daqueles "apagões" como o que tivemos algures p'los idos de 2000 no nosso Portugal, espécie de partida de carnaval fora d'época que deixou meio país às apalpadelas no escuro, à busca da vela mais próxima, a resmungar que lá se ia um episódio tão importante daquela telenovela, etc.... Lembram-se?
É. Afinal foi uma cegonha. 
Ou terá sido uma dessas famosas andorinhas do Monte Baekdu, como aquela que anunciou o nascimento do "Querido Líder"? E isto fazendo jus ao credo popular local... 

NOTA: Faço questão de deixar aqui, a nota final, um especial e sentido agradecimento à Rita Colaço pelas actualizações no seu excelente Blogue sobre a matéria supra em apreço.
       



domingo, 5 de abril de 2009

...E Ninguém Deu Por Ela - É A Mais Pura Verdade...


...E pronto. Já está. A DPRK lá mandou outro dos seus brinquedos para nenhures, houve certamente quem desse pulinhos de contente na corte dos Kim e quem se babasse algures num ou noutro triste e decrépito prédio de Pyongyang, entre o serviço "noticioso" local do meio-dia e a hora do corte-por-motivo-de-racionamento da electricidade na área, mas aqui... meus queridos, digo-vos a verdade verdadinha: 'táva-se tudo a BORRIFAR. Assim, sem mais nem menos.
Hoje os únicos espíritos agitados aqui em Fukuoka - pelo menos que dessemos por ela - eram os Uyoku cá da terra - mas há lá democracia burguesa que se preze que não tenha os seus fachozinhos de serviço? - que logo de manhã andaram por estas bandas de Hakata-ku a fazer um escarcéu de todo o tamanho, aos berros, os slogans do costume "Escória comuna ponham-se a andar", etc.... Eh... Estranhais? Eu passo a explicar: é que aqui a uns dois quarteirões de casa temos a sucursal local do Chongryon - uma espécie de "Clube dos Amigos da Coreia do Norte" (é verdade, estas coisas existem mesmo! E é aqui no Japão...) -, um lugar por demais propenso a receber as incursões dos mais acérrimos defensores do "Espírito de Yamato", que não devem ter mais nada de interessante que fazer num Domingo solarengo como o d'hoje, se não sair para as ruas logo de manhãzinha cedo a vociferar a suas delirantes diatribes contra um pobre e "pacífico" povo que só queria pôr um "satélite de telecomunicações" a passear no espaço... 
Fukuoka, de resto, viveu mais um exemplar dia de tranquilidade nipónica, seja lá o que isso fôr.
A noite avança sobre a cidade. Hora de ir à varanda fumar um cigarrinho. Olhar as estrelas no firmamento. Talvez passe uma estrela cadente... Ou estranhe uma luz nova no horizonte... And I think to myself "What A Strange, Wicked World"...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

UMA DISCRETA OBRA-PRIMA - "太陽/Taiyoo - O Sol" de Alexander Sokurov (2004)


É, creio eu, de todos sabido o quanto a figura histórica do Imperador Shôwa - ou Hirohito, como é melhor recordado no Ocidente -, soberano do Japão de 1926 a 1989, permanece enredada em recorrentes controvérsias - designadamente no que respeita ao seu desempenho e responsabilidades política e pessoal nos trágicos eventos que afamaram o Japão desde os anos do expansionismo agressivo na Ásia até ao final da II Guerra Mundial, mas também, e sobretudo, pela peculiar situação em que a vitória aliada sobre o Japão em 1945, o deixou a ele e à casa imperial, enquanto símbolos (alegadamente) maiores e mais sacralizados da cultura, da nação e da identidade nipónicas.

No Japão, o tabú que vela a figura do Ten'Ô Shôwa, não poderia ser mais firme, espesso e inexpugnável, do que é hoje: fala-se, ao que parece, muito mais hoje do que há 30, ou mesmo há 20 ou 15 anos atrás, da "Grande Guerra da Ásia Oriental" (como certos círculos políticos e "educativos" no Japão, insistem em didacticamente nomear o somatório dos conflitos e campanhas militares envolvendo o Japão de 1931 a 1945), publicam-se mais livros de teor crítico e acusatório sobre os alegados crimes perpetrados pelo exército imperial (como o massacre de Nanking, ou as operações levadas a cabo pela sinistra Unidade 731), fazem-se mais filmes, mais séries de televisão, mais exposições, mais debates públicos e com maior (?) abertura (? - e tenho mesmo que deixar aqui as interrogações...) à sociedade e ao mundo do que alguma vez antes se vira...
...Mas, quando queremos ouvir falar, um pouco só que seja, do Ten'Ô (termo que significa literalmente Soberano Celestial) Shôwa, o silêncio é sepulcral.
E foi, por isso, que, com surpresa, em data bem recente, dei de caras, aqui no Japão e pude apreciar - mercê do facto de o título se achar disponível em DVD por cá - esta extraordinária obra cinematográfica do cineasta russo Alexander Sokurov, "Solntse" no original, "The Sun" de seu nome na versão anglo-americana, "太陽" - lê-se "Tai-you" -, na cópia de cá.

O espanto não poderia ser maior, uma vez que se trata de um filme trazido a público, ao que parece, em 2004, altura em que eu me achava ainda em Portugal e, das duas uma, ou andaria eu muito distraído na altura em que terá sido exibido nas salas de cinema do nosso país, ou então nunca lá passou de todo... E corrijam-me, por favor, se estiver a cometer algum equívoco.
E também, porque ao que sabemos, o filme correu o risco de pur'e simplesmente não ser visionável no Japão, devido aos receios que, à época do seu lançamento, se avolumaram, de uma possível recepção hostil e boicote por parte dos chamados Uyoku - grupos de extrema-direita locais.

"Solntse/O Sol" insere-se, ao que consta, numa tetralogia idealizada por Sokurov, centrada, esta, em lideranças/tiranias do Século XX (caberá a cada espectador captar o significado do elo entre os protagonistas de cada um dos filmes e falta ainda, ao que parece, concluir o último dos quatro, o qual permanece ainda envolto num certo mistério...), e, a par do filme que foca Hirohito, contam-se os já estreados "Moloch" (Hitler) de 1999, e "Taurus" (Lenine) de 2000.

Confesso que não tive ainda a oportunidade de ver os outros dois filmes.
A verdade é que este "Taiyoo/O Sol" é uma obra em tudo singular e de inequívoco mérito maior.
O filme foca precisamente o momento da assunção da derrota em 1945, pelo Imperador, pelo seu governo e pelo seu povo, e a hora em que se joga a verdade do destino que lhe(s) será reservado, pelos vencedores, para o que o futuro ditar...

Sokurov descarta desde logo as pretensões de rigôr histórico ou de fiabilidade dos diálogos que, às mãos de outras produções assumiriam um relevo próprio de encenações documentais, ao estilo History Channel.
Porque não é necessariamente da verdade ou do que queiramos fazer dela que o filme trata.
É antes e isso sim, o retratar num estilo muito sui generis de um homem - que era "mais-que-homem", antes um deus proclamado como tal pela e entre a sua gente - sobre quem pesa uma inadiável urgência de se converter tão só... num homem de facto: comum, cárneo, mundano, falível, risível - "This guy is Charlie!" avençam entre risos e incredulidade os fotógrafos americanos que cobrem de flashes um sorridente e simplificado Heikka (Majestade) junto a um canteiro de flores, trajando um leve e turístico fato de verão (e depois de previamente haverem tomado um dos seus criados pelo próprio...), numa das mais memoráveis cenas do filme.

Hirohito - na figura do actor Issey Ogata, numa das mais conseguidas e perturbantes criações interpretativas que vi nos últimos dez anos - vagueia sereno, conduzido como que por uma força fantasmagórica, pela cerca de hora e meia de película, entre a ante-câmara palaciana do seu refúgio privado (o laboratório de biologia), o bunker onde se reúne pela última vez com o seu estado-maior, os jardins da vila imperial, o salão de recepções da embaixada americana, entretanto re-confiada a Douglas MacArthur, pelos escombros de uma Tokyo desvastada por sucessivos bombardeamentos de saturação...

Entre diálogos muito sóbrios e de grande acessibilidade e silêncios mais-que-eloquentes, "O Sol" traz-nos ainda um pequeno leque de prestações irrepreensíveis, numa, geral, magnífica direcção de actores - onde apenas estranha a escolha de um menos adequado Robert Dawson no papel de MacArthur, num registo pálido e até mesmo algo frouxo, diria, para a qualificção pretendida, e face aos desempenhos magistrais de Ogata (Hirohito) e de Shiro Sano (no papel do sobre-escrupuloso camareiro do imperador).

"O Sol" é, sem dúvida, um filme que transcende largamente a estreiteza dos cenários - histórico e visual - em que se desenlaça, e suspeito, que ficará mesmo como uma referência maior (pelo menos para mim) para uma certa cinematografia de excelência do nosso tempo.

Se não o viram já, então vasculhem onde vos aprouver, mas tratem lá de sacar uma cópia em DVD ou n'outro formato qualquer e ver a estranha luz deste Sol.
Imperdível.




quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

TAKARAZUKA e as mulheres...



Este artigo d'hoje, vem sobretudo a propósito de um outro escrito ontem ou anteontem pelo Nuno-San no seu blogue "O Brito No Japão", por mim muito apreciado, e onde essencialmente era levantada a questão sobre umas estranhas filas compostas exclusivamente por senhoras que surgem um pouco por todo esse Japão urbano fora - se bem que, no caso do artigo do Nuno-San, o inquérito se referia exclusivamente a uma dessas filas com que o próprio costuma dar de caras vez por outra, junto à estação de Shinagawa, Tokyo.
 
Eu, da minha parte, trouxe à caixa de comentários daquele artigo, uma ou outra proposta para-científica ácerca  das misteriosas origens e significado de tão peculiar fenómeno esse das longas e insondáveis filas de mulheres aqui e ali por estas terras. No entanto, momento para vos aqui deixar um senão: aquilo que na verdade me veio logo à cabeça, quando li o artigo do Nuno-San, no blogue dele, foi, em bom rigôr, o estranho caso da TAKARAZUKA REVUE ( http://en.wikipedia.org/wiki/Takarazuka_Revue ) - aos que se interessam mesmo por estas coisas, o conselho é de que primeiro tratem de ler o artigo na 'Wikipedia' cujo 'link' vos deixo aí supra entre parêntisis, porque realmente está muito bem escrito, é distanciado e sobremaneira elucidativo. Já agora, o correspondente artigo na 'Wiki' mas desta em Português, também está muito aceitável (mormente para os que não gostam ou não têm aptidão para ler em Inglês).

Para os que, de todo, não gostam de ler nada na 'Wikipedia', então ora cá vai de minha lavra: 
TAKARAZUKA REVUE é um fenómeno exclusiva e genuinamente Japonês (VER: caixa de vídeo já aí mesmo ao lado).
TAKARAZUKA REVUE, ou só TAKARAZUKA prós amigos e conhecidos, dir-me-ão os espíritos mais agitados, é de um gosto mais-que-duvidoso, é uma foleirada intragável, é de fazer o próprio conceito de kitsch empalidecer de vergonha de tão fatela-lamechas-e-poluídovisual que é.
        TAKARAZUKA, direi eu, tem uma graça muito própria (ainda que só por pouco mais de 10 minutos, admito).
 
Mas afinal, perguntais vós, concretamente que treta é essa da takara...tata, taka-não-sei-quê ou lá como é qu'isso se chama
 
Bom, TAKARAZUKA é, ao que parece, uma prestigiadíssima companhia de teatro, fundada em 1913 (Ano 1 da Era Taishoo), na cidade do mesmo nome, na perfeitura de Hyoogo, por iniciativa do então presidente da companhia de caminhos-de-ferro Hankyu, que tratava de ligar, à época, a cidade de Osaka à perfeitura de Hyogo - e tendo, a dita linha de caminho-de-ferro, precisamente a cidade de Takarazuka como última estação. 

A terriola de Takarazuka, ao que parece, já era então um afamado destino turístico, por virtude dos seus magníficos Onsen (estâncias termais, ou spas, prós snobes) teve, a dada altura, o dito senhor presidente da companhia dos comboios Hankyu, a visão genial de criar uma atracção extra para a cidade, destinada a cativar mais clientes para a linha de caminho-de-ferro em causa e dar uma subida ao preço dos bilhetes.

Dado que em 1913, sentia-se já, por muito desse Japão fora, um crescente apetite por tudo quanto fosse ocidental e moderno, os responsáveis pela implementação da ideia, concluíram que o ideal seria criar uma companhia de teatro ao estilo cabaret/teatro de variedades parisiense, com cenários grandiosos, grandes cliques de coristas emplumadas e de perna bonita, dramas de palco cheios de emoção e aventura e, claro está, o melhor do cançonetismo popular romântico  da época - de matriz fundamentalmente europeia, note-se.
Mas nada disto seria muito de estranhar ou de achar muita graça, não fosse a dita companhia de teatro - que com o andar dos tempos e sucesso após sucesso se tranformou num extraordinário fenómeno de massas - não fosse, dizia eu, ser a casa exclusivamente, é verdade, exclusivamente composta por... mulheres!
 
É verdade: elas fazem os papéis femininos (musumeyaku). Elas fazem os papéis dos homens (otokoyaku). 
 
E pasmem os meus queridos leitores: são precisamente as/os otokoyaku (personificações de homens - é o que a palavra significa) que constituem a grande e principal atracção de tudo quanto provenha das trupes (5 ao todo) TAKARAZUKA que enchem matinés e soirées por este país fora, e - digam-me lá agora se a estranheza que isto parece causar é ou não da minha cabeça - com um público e para um público constituído em 90% por... mulheres. 

Sim, é isso mesmo: senhoras e meninas de todas as idades acorrem entusiasticamente a cada nova estreia de qualquer uma das 5 trupes da TAKARAZUKA, fãs incorruptíveis dos 7 aos 77, com a mesma paixão e dedicação trans-geracional, que só mesmo os Rolling Stones devem bater nos números.

Há pelo menos um par de teorias sociológicas sobre a atracção que esta celebrada companhia de teatro/cabaret romântico-delico-doce-e-flamejante exerce sobre o público feminino japonês (LER: artigo na 'WIKIPEDIA, supra em referência). Mas quanto a mim qualquer uma das duas conjecturas académicas não me convence muito. 

Mas já agora, vejam os videos aí ao vosso dispor, leiam mesmo o artigo em 'link', e 
dizei-me de vossa justiça.

sábado, 24 de janeiro de 2009

"BATE LEVE, LEVEMENTE..."

...Como quem chama por mim... Será chuva, será gente? Gente não é, certamente. E a chuva não bate assim..."
Pois é verdade: ele há a danada da crise, o €uro a Yen:115,00 (o que dá para chorar), o malfadado Nihon-Go que é bicho que não há meio de o domesticar, as saudades do bacalhau à Gomes de Sá, das idas a Melides e à Foz do Arelho, a falta que os entes queridos lá longe nos fazem, e o que mais podia vir par'aqui reinvidicar. Mas a verdade é que o dia de hoje 24-01-2009 vai ficar positivissimamente (faço questão de deixar aqui o neologismo) gravado na minha memória: NEVOU EM HAKATA!!! nevou em Hakata e de que maneira! e a cidade ficou linda de morrer!
Não é que eu não goste da cidade sem neve, não, não é nada disso - Fukuoka (Hakata prós amigos) é certamente das cidades mais aprazíveis do Japão (sem desmérito para as outras), mas há que dizê-lo: a neve confere-lhe um especial encanto.
E para mim, que sou natural de São Sebastião da Pedreira, como 75/80% dos Lisboetas, e na capital lusa vivi 34 anos, neve assim, à grande, a cair sobre nós, com pompa e circunstância e a deixar tudo coberto de branco em redor - é realmente uma visão avassaladora, do mais encantador e poético que se possa viver.
Sinto-me um puto!
WISH YOU WERE HERE...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Capítulo 0

E pronto! Está feito.
De uma vez por todas declaro-me rendido às evidências: ter um blogue (pelo menos nas circunstâncias peculiares em que me encontro,  e adiante já me explico melhor) começa a ser uma daquelas "necessidades inventadas", como o telemóvel ou o micro-ondas ou o IPod, que acabam por se transformar - com o tempo, e por força das circunstâncias - numa necessidade de facto.
E há que dizer isto, porque os meus prezados leitores, como logo poderão depreender, ao darem--se à maçada de apreciar este "Capítulo 0" do meu novíssimo blogue, estão precisamente a participar na inauguração da obra de um blogger que não gosta particularmente de "blogues", ou sequer do ciberespaço, ou sequer de escrever umas pobres linhas. Em 5 palvras: Sou preguiçoso para estas coisas. Ponto final.
E estranhar-me-á porventura, o meu querido leitor, se eu lhe revelar neste preciso instante, que me encontro a residir - é verdade! a residir - no Japão - celebrada pátria da mais extravangante criatividade tecnologica e da mais delirante sobre-modernidade, país que alberga as mégalópoles de Tokyo e Osaka  (desculpai-me a versão anglófona destes nomes, mas a verdade é que o hábito já está demasiado assimilado para deixar agora de escrever os nomes assim -, fontes directas , dizia eu, de inspiração do clássico de Ridley Scott "Blade Runner" ou quasi-cenário das odisseias pós-apocalíticas-versão-desenho-animado de "Akira" e "Ghost In The Shell" - quem nunca ouviu falar destas coisas?
Momento para um especial esclarecimento: acabei à instantes de mencionar os nomes de duas das maiores e mais conhecidas cidades do País do Sol Nascente, mas a verdade é que me encontro bem longe de ambas: os meus queridos leitores terão melhores chances de me ver algures no Tenjin, centro da mais pacata, ou melhor, "moderada" cidade de Fukuoka, também por vezes tratada pelo nome mais coloquial de Hakata, Kyushu-Norte, a uns bons 500 Kilómetros a sudoeste de Osaka, ou seja, bem mais próximo dos lugares onde aportavam outrora os tais Nan Ban Jin, remotos "bárbaros do sul" que pela segunda metade do Século XIV trataram de dar à costa, vindos de um certo Portugal, e intrometer-se nos modos e costumes das gentes "dos Japões". Mas esse é assunto ao qual espero tornar noutra altura, em momento mais oportuna e com outra pertinência.
Não sei ainda se vim para ficar - não me refiro tanto ao Japão, mas antes à bloggoesfera (é assim que se escreve? ou leva só um ?), mas, enfim, deu-me para isto e afinal para que servem os "blogues" se não para quando nos dá para isto?
Conto, sempre, dar-vos BOAS NOTÍCIAS.