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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Um Lugar Em Paz (V)




旧志免鉱業所竪坑櫓 — 16.X.2011



    Algo reminiscente dessas infelizes, grotescas flaktürme ainda hoje entravadas por Viena, a velha torre mineira de Shime (志免鉱業所竪坑櫓 — Shime Kōgyōshō Tatekō Yagura), de altiva, sobranceira vista sobre a cidade das colinas prósperas, não é propriamente uma atracção das redondezas. A sua imponente figura e bem assim seus sombrios traços e definhada cor conferem-lhe, em qualquer recurso, um estranho e mesmerizante encanto, algo que, temo, possa tão-só apelar a diletantes arqueólogos da modernidade como este vosso NanBan.

     Encontrei-a por acaso há pouco tempo e foi amor à primeira vista, confesso.
   Assiste-lhe uma sui generis fotogenia, e podemos ficar horas a contempla-la e a decifrar-lhe os recônditos detalhes que só um olhar mais demorado permite perscrutar.

    









    Erigida entre 1941-1943, em pleno período de mobilização total dos recursos do país e em prol do esforço de guerra então em curso, a velha torre de betão armado, não foi, de facto, concebida primordialmente para fins militares, mas sim com o peculiar propósito de albergar um ambicioso sistema de perfuração vertical e extracção de carvão a mais de 400 metros de profundidade numa área então tida ainda por bastante afastada do porto de Hakata e ligada ao centro da cidade por uma linha de caminho de ferro hoje totalmente desactivada. Porém, e sendo a mina de Shime então directamente administrada pela Marinha Imperial, e, assim sendo, um alvo de eleição para os raides aéreos americanos sobre a zona, os quais se intensificariam fortemente pelo último ano de guerra, é garantido, assim, que a velha torre tenha desempenhado funções de vigilância e repressão de ataques da aviação inimiga nesse derradeiro fôlego de '45. Mas, esclarecia, o propósito primeiro da sua bizarra atalaia era,  antes, o de albergar um poderoso motor de 1000 cv. de potência do qual dependia todo o processo de extracção do precioso minério a grande profundidade.
     

    






  Com a derrota e subsequente desmantelamento das forças armadas e indústria militar japonesa, a mina de Shime seria encerrada e impedida de laborar por vários anos, retomando a plenitude da sua capacidade produtiva só por volta de 1955. Mas seria sol de pouca dura, posto que os seus recursos revelar-se-iam insuficientes para assegurar a respectiva viabilidade económica e em 1964 a mesma fecharia de vez as suas portas. Dela restam apenas a velha torre e dois túneis de portões escrupulosamente trancados a sete chaves.








































































   A área em redor da velha Yagura [櫓], de altura equivalente a um prédio de quinze andares, é hoje um simpático parque de recreios para miúdos e graúdos, de jovial atmosfera a contrastar fortemente com a ominosa silhueta dessa náufraga carcassa de betão, sobra de um tempo, a cada dia que passa, mais alheio da memória comum.









       Gosto de lugares assim, distintos senhores de uma história sofrida. 
      Lugares assim têm uma alma. Alma essa que vive além da morte dos seus originais propósitos e mais que acicatar a morbidez de outros tantos saudosismos privados, invoca antes a nobreza e a dignidade desse labor humano que o sonhou, ergueu e dele fez uma referência de boa memória.


































1955























    Há quem se deleite a fotografar a Torre Eiffel,  o Big Ben, o Hollywood Sign, castelos medievais ou a Grande Muralha.

    Um lugar assim diz-me infinitamente mais.

    Não é um esqueleto.
    É um farol.












"Un Grand Sommeil Noir"
(1906)



 ▧ ▩ ▨  



sábado, 17 de setembro de 2011

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

1º de Setembro

博多、9月1日




"If there were only water amongst the rock
Dead mountain mouth of carious teeth that cannot spit
Here one can neither stand not lie nor sit
There is not even silence in the mountains
But dry sterile thunder without rain
There is not even solitude in the mountains
But red sullen faces sneer and snarl
From doors of mudcracked houses
			        If there were water
And no rock
If there were rock
And also water
And water  
A spring
A pool among the rock
If there were the sound of water only
Not the cicada
And dry grass singing
But sound of water over a rock
Where the hermit-thrush sings in the pine trees
Drip drop drip drop drop drop drop"




T.S. Eliot, The Waste Land, V. What the Thunder Said







Stravinsky: Elegy for Solo Viola (1944)




✺ ✺ ✺


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Oh sim! Gosto muito de Kyoto... (II)


Mais que de cidades livres, 
gosto de cidades-livros,
de páginas abertas ao céu entre as lombadas dos rios.

E onde os prólogos se lêem como epílogos e vice-versa.


✿✿✿

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Enseada

Fukuoka — 福岡 — 9.6.2010





















E mesmo entre os destroços de outras naves — de outras vidas 
— que te assolam as margens —
Toda Tu és Luz 
E Céu
E Sonho
No reflexo das águas.
































Fotos: NBJ, 06.2010









"Streets damp and warm
Empty smell metal
Weeds between buildings
Pictures on my hard drive
But I'm the luckiest guy
Not the loneliest guy..."



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ali mesmo, ao virar da esquina...








Sōfuku-Ji  —  崇福寺





Certamente ter-se-á passado, já, o mesmo convosco:




      
      Vivermos a cinco, dez, vinte minutos de caminho, a pé, de um certo lugar que ali sempre esteve, à nossa espera, ou do nosso deslumbramento, e que, porém, por este ou aquele motivo de força menor — ora porque se acha duas ruas por detrás daquele mesmo-de-sempre percurso que nos leva de A a B, de casa à escola, do escritório à mercearia, do dia de trabalho árduo, saturado, ao sossego letárgico do lar —, nos escapou... durante anos...












...E assim foi comigo e o Sōfuku-Ji [崇福寺], O'Tera [寺] — templo, mosteiro — da facção Rinzai [臨済宗Rinzai-Shū] do Budismo Zen, outrora erguido pelo Clã Kuroda [黒田], honrado nome dos outrora senhores desta terra, numa primeira instância em Dazaifu, arrabaldes desta cidade de Fukuoka, e posteriormente trazido ao lugar que hoje lhe serve de solo.




     O imponente e austero 'Mon' [門] que se abre diante dos nossos olhos ao fundo dessa singular viela esquecida entre tantos outros discretos terreiros do distrito de Higashi (東区 — Higashi'ku — o 'Distrito Oriental' da cidade), foi outrora porta do Castelo de Fukuoka, hoje desaparecido...

      E este não seria mais que um outro desses meus fugazes 'fâit-divers' com que de tempos a tempos vos brindo, não fosse este lugar que serve de mausoléu ao Clã Kuroda e, em particular, a um homem, Kuroda Nagamasa [黒田長政], ser meritório do nosso maior interesse enquanto Portugueses de olhos postos a Oriente...




Kuroda Nagamasa — 黒田長政 — 1568 - 1623

     
     E tanto porque foi este Senhor, 'Campo Negro' ['Kuroda'] de seu nome, quem após a queda de Konishi Yukinaga [小西行長], este vencido em Sekigahara — campanha da qual tornaremos a falar muito em breve... — se prestou a assumir o encargo de zelar pelo bem-estar desses NanBan e seu sacerdócio que temiam agora pela sua sorte, despojados do primeiro dos seus benfeitores, Konishi, Daimyo cristão do feudo de Higo — hoje Prefeitura de Kumamoto — e tendo este cobiçado 'han' [藩], situado mesmo a sul do território de Kuroda, sido então confiado por Ieyasu a um dos seus mais encarniçados inimigos, Katō Kyomasa [加藤清正], um fervoroso budista e um inveterado xenófobo como poucos, no seu tempo, igualaram...






      "Que de mim nada temeis, pois que eu cuidarei de em vosso nome, zelar pelo vosso bom interesse e fé como antes de mim, Konishi o fez..." — nestes termos terá Kuroda Nagamasa apaziguado a ânsia dos prelados de Nagasaki, por volta de 1601, logo após Sekigahara...  Coisa que poderia causar estranheza, vinda de um homem que nunca se vergara à retórica dos arautos de Cristo nestas terras e que se conservou, também ele, até ao fim dos seus dias, um devoto adepto do Zen segundo Eisai...






     Nagamasa terá conservado a sua palavra até ao último suspiro, e mormente sabermos hoje que a sua benévola mão patriarcal foi sol de pouca dura — posto que as inúmeras e deploráveis intrigas e quezílias entre Jesuítas (Portugueses, aquartelados em Nagasaki) e as ordens medicantes (no seio das quais  imperava a Língua de Castela, de estandarte ao vento em Kyoto...), tratariam de dissipar a tolerância de Ieyasu e ditar os termos dos Éditos de Expulsão de 1614 —, o seu nome deveria ainda e sempre colher a nossa mais humilde reverência, pois que Nagamasa foi o último dos 'nossos' entre 'eles'... 




     Cai serena a noite. 
     A Sōfuku-Ji regressaremos, também, em breve...


     Por ora, ficam os retratos...



























































[AVISO À NAVEGAÇÃO: não confundir este fuku-Ji  —  崇福寺 — com ess'outro Shōfuku-ji 
— 聖福寺 —, também próximo da base de operações do vosso NanBan e já aqui antes apresentado