Ainda estive, confesso, para escrever sobre o assunto, maçando-vos com meia-dúzia de impressões que, seguro estou, a maioria sacudiria para vão de escada, ou, na pior das hipóteses, ainda suscitaria novas e assanhadas indignações desta feita não contra os tradicionais bodes expiatórios de serviço, mas sim contra este mísero e mesquinho... Enfim... não será por isso. É falta de pachorra mesmo, e de qualquer modo, por regra, bem o sabeis, abstenho-me de aqui discursar sobre o que lá vai dess'outro lado do Mundo, do qual já nada de bom espero faz muito tempo, e de cujos vícios aqui faço por me desintoxicar.
Eu só lhe acrescentava mais uma ou duas observações de quem colhe o benefício da distância de aqui estar, mas a minha regra — supra invocada — foi feita para se cumprir e não será certamente este o assunto que fará a excepção.
Os números do "Tōkyo Daikūshū" [東京大空襲]: 267.000 edifícios consumidos pelas chamas (~25% da capital Nipónica à época), mais de 100.000 mortos [e até ao dia da rendição, a 15 de Agosto desse ano, só Tóquio seria 'visitada' por mais 11 raides de grande envergadura... ] — o número total de vítimas dos bombardeamentos com recurso a 'clusters' incendiários um pouco por todo Japão nos últimos 6 meses da II Guerra Mundial, ultrapassa o meio-milhão...
O Povo de Yamato bem que poderia reclamar como sua e re-interpretar essa inauspiciosa interpelação shakespeareana, posta na boca do vidente que se dirige a César — "Beware the Ides of March", posto que os ditos Idos coincidiriam, nos antigos calendários romanos, com o dia 15, e não com o 11 deste mês.
Aquilo que importa, porém, reter desta (aparentemente) inusitada comparação de imagens e números é o facto de que, em ambos os casos, a Nação Nipónica não se deixou abater, prontificando-se de imediato a recomeçar do zero aquilo que o Destino e os Deuses lhe sacrificaram — que nem Destino, nem Deus algum, trava a força indómita desta gente.
E, em qualquer recurso, as condições de recomeço há 66 anos atrás eram bem mais severas que as de hoje...
Em Fukuoka [福岡市], maior cidade do Sul do país,
a vida corre a um ritmo de quase absoluta normalidade,
notando-se, contudo, uma menor abundância de certos bens de consumo.
Mas não é correcto falar em escassez.
À semelhança daquilo que nos relata o meu mui estimado compatriota em Tóquio, também eu ontem recebi o mais sobre-alarmado dos contactos por parte da minha Mãe, tomada de sobressalto pela caterva deexagerosde toda ordem que, em geral, os media fora do Japão, por estes dias se permitem divulgar.
Nunca subestimando a gravidade da actual situação em Tōhoku [東北] e Kantō [関東], parece ser necessário lembrar a muito boa gente que o Japão, país composto por mais de 3000 ilhas e com um território soberano de mais de 377.000 k㎡, não se resume às duas regiões mais afectadas pelo cataclismo de 11.03 supra mencionadas, não obstante falarmos de uma área equivalente à quase totalidade da costa de Portugal continental — cerca de 850 km de extensão — quando falamos, tão-só!, do território devastado no Nordeste do Japão|Tōhoku há uma semana.
Nesta peça, entra logo mal, fora de tempo, a figura assusta, um desastre, um navio fantasma encalhado entre rochedos ao largo de uma praia de mau nome sob um soturno céu cinzento, uma vida inteira metida por um buraco negro sem retorno adentro... que é aquilo??
Era o tempo, ele também, desse cornucópico Japão flutuando, embriagado, num mar de dinheiro, feito espécie de 'last resort' para todo o falhado das tabelas de vendas discográficas elsewhere — os tais 'Big in Japan' (porque não eram big em mais lado nenhum) —, e assim havia sempre, no fim, um cheque chorudo para toda a gente, e por um par de meses todo o biltre se reconciliava com a vida. Que o dinheiro não dá felicidade mas ajuda muito.
Tudo contra, há, ainda assim, qualquer coisa de genuinamente transcendente neste som e nestas imagens...
Qualquer coisa que arrepia — de tão belo quanto grotesco.
Meros quinze anos volvidos sobre a hecatombe de '45, os fantasmas do belicismo de outros tempos conservavam-se ainda demasiado vivos e presentes para serem negligenciados por uma parte significativa da população que não compreendia como podia um país resguardado no mais escrupuloso pacifismo consagrado na Constituição de 1947, se comprometer agora com o recém-reconciliadoamigo Americano, o tal que desta feita se assumia como protector de um Japão desarmado, de futuras hostilidades, não obstante tal processo implicar não apenas o reconhecimento da perda de uma significativa parcela da soberania da nação sobre o seu próprio território como a própria re-militarização do país, ainda que a expensas e por meios cedidos tão-só pelo novo Aliado, remetendo-o irreversivelmente para a esfera de influência político-militar deste, e depois de o processo inverso ter sido, paradoxal e unilateralmente imposto pelo seu outrora nemesis.
Os protestos "anti-Anpo" — a expressão "Anpo" surgindo enquanto abreviatura da complexa designaçãoNippon-koku to Amerika-gashūkoku to no Aida no Sōgo Kyōryoku oyobi Anzen Hoshō Jōyaku(日本国とアメリカ合衆国との間の相互協力及び安全保障条約), Tratado de Cooperação Mútua e Segurança entre os Estados Unidos da América e o Japão, também conhecido no Japão como Anpo Jōyaku (安保条約), contracção do mais extenso Anzenhoshō Jōyaku (安全保障条約)—, haviam sido mobilizados por uma frente comum, reunindo partidos de Esquerda — encabeçados à época pelo Partido Socialista do Japão [日本社会党 — Nihon Shakai-Tō] e pelo seu Secretário-Geral Asanuma Inejiro, assassinado em Outubro desse ano — e uniões sindicais várias entre as quais pontificava o Sindicato dos Professores do Japão, e durante cerca de dois meses, entre Maio e Junho de 1960, não houve um só dia em que as ruas de Tóquio e demais grandes cidades do país não fossem palco de monumentais manifestações de repúdio pela ratificação de tão iníquo tratado e de que as câmeras de então não dessem empolgado testemunho, com centenas de milhares de homens e mulheres de todas as classes etárias convergindo a passo firme para os centros políticos do seu país, empunhando cartazes e estandartes onde se liam veementes palavras de ordem de um empenho político-combativo das massas trabalhadoras como nunca antes o Império do Sol-Nascente presenciara.
Certo é que, uma vez ratificado, o mal-amado Anpo viera para ficar: o Japão não podia viver sem tamanho instrumento legal destinado à sua defesa, e isto simplesmente porque não havia alternativa, num tempo em que a Guerra Fria exigia que tudo e todos se preparassem para o pior que haveria de vir...