Faria agora três anos que aqui estivera pela primeira e última vez, então a caminho dess'outra mais distante e recôndita Yakushima [屋久島].
Orgulhosa Kagoshima [鹿児島], primeira praça, porto e baluarte do entretanto e há muito extinto Han [藩] de Satsuma, cais de São Francisco Xavier, raiz da Restauração Meiji e terra do seu líder Saigo Takamori, lugar maior da História do Japão...
...e enseada encoberta pela sombra de Sakurajima [桜島], esse circunspecto vulcão, tão sereno quão activo, ali contra o azul do horizonte...
Foi bom voltar.
Aqui tornaria muitas mais vezes se o tempo e as circunstâncias m'o permitissem.
'This photograph taken on Nov. 16, 2011, of a silhouette of a man standing in front of lit up red and yellow azalea leaves at Ankoku-Zenji Temple in Toyooka, Hyogo Prefecture, looks almost like a painting in a frame. The temple, popular for its "dodantsutsuji" (a type of azalea) fall foliage scenery, will hold the special autumn illumination event through Nov. 20.' (Photo: MAINICHI SHINBUN [毎日新聞])
Foi com tristeza de sobra que, pela manhã de ontem, tive a oportunidade de apreciar uma breve reportagem televisiva que dava conta da crescente preocupação e antipatia de que os macacos da pequena cidade de Nikkō [日光市], Prefeitura de Tochigi [栃木県], têm vindo a ser objecto, com as vozes indignadas de alguns comerciantes e habitantes da pequena localidade a Norte de Tokyo-To, conhecida sobretudo pelo seu imponente Tōshō-Gū [東照宮], e seu famoso pórtico dos Três Macacos Místicos ou Três Macacos Sábios [三猿 — Sanzaru, em Japonês simplesmente "Três Macacos"], a subir de tom pedindo uma solução drástica para o problema dos pululantes símios que há séculos partilham o espaço da povoação e respectivos lugares de peregrinação com a população humana local, numa ancestral e sã convivência que parece hoje seriamente ameaçada face a um aparente crescendo de agressividade por parte dos pequenos primatas, algo a que não será estranho o crescimento populacional da região e o seu sucesso enquanto chamariz turístico próximo da capital.
Destino turístico de eleição para quem se encontre nas proximidades de Tóquio e, virtude de albergar alguns dos mais esplendorosos templos Budistas e santuários Shintoo do Período Edo — com destaque para o deslumbrante Tōshō-Gū —, Nikkō desde tempos imemoriais que acolhe igualmente uma expressiva comunidade local de Nihonzaru [ニホンザル/日本猿], os famosos macacos 'albinos' do Japão [nome científico: Macaca Fuscata], espécie nativa deste país e ainda em grande abundância um pouco por todo o território nacional, com excepção de Hokkaido e Okinawa.
Sucede que efeito aparente da pressão exercida pelo imparável afluxo de turistas à pequena localidade e consequente crescimento económico, urbano e demográfico, tem-se vindo a registar um proporcional crescendo de agressividade por parte destes (antes tidos por) simpáticos primatas, que entre ferozes ataques a crianças e adultos e não menos menosprezíveis furtos constantes em pequenas lojas de doçaria regional e afins — onde os omnipresentes omiyage (お土産 — doces ou outros pequenos souvenirs via de regra trazidos por visitantes de uma certa localidade, de regresso a casa, e para deleite de amigos e entes queridos) têm lugar de honra à porta desvelada dos ditos estabelecimentos —, parecem ter declarado guerra aberta ao turismo de Nikkō, principal fonte de dividendos da cidade.
Naturalmente, e em particular no que concerne aos Saru de Nikkō, a última coisa que eu queria aqui escrever seria uma crónica de uma deportação e/ou extermínio anunciados, ademais porque esta é uma espécie autóctone que me inspira o mais genuíno carinho e simpatia, e ainda que a irritação de algumas pessoas possa ter a sua razão de ser, esta é uma espécie que merece a mais benigna das protecções e afecto comum.
Felizmente, Nikkō não é a única região onde estes bonitos bichos podem ser contemplados no cenário de um salutar convívio com populações humanas estabelecidas — outras partes da ilha maior de Honshū e Kyūshū, ilha do vosso NanBan, e em particular a Prefeitura de Oita, são morada de grandes comunidades nativas de Nihonzaru, e por cá não se fazem, até ao momento, ouvir queixas de maior — pelo menos que seja do meu conhecimento...
Ainda assim, destaque e honra devidas são ao soberbo Jigokudani-Yaenkoen [地獄谷野猿公苑], inviolável santuário dos Nihonzaru de Nagano [長野県], em Yamanouchi [山内], um absoluto 'must' para aqueles que, pelo frio Inverno que aí vem, hajam de gozar do especial privilégio e felicidade de uma visita ao Japão central.
Mais sobre este imperdível, ermo lugar do melhor deste Japão que teima em dar mostras de si, AQUI, AQUI e AQUI.
Deixo-vos com dois bonitos clips a desbravar caminho entre os mais cerrados corações.
Agora por esta campanha é que nem eu, nem ninguém esperava, mesmo!
Os produtos publicitados, neste caso — da ESTÉ (ST) - Shōshūriki (エステー消臭力), esta última palavra significa literalmente "poder de apagar odores" (ou seja desodorizante) — não são mais que uma gama de populares desodorizantes de retrete. Nada de mal, convenhamos. Eu próprio posso dizer que uso produtos desta marca em casa, sobretudo o spray rôxo da direita aí na foto supra e posso afirmar-vos que é óptimo e que se se vendessem aí eu recomendaria os produtos em causa sem quaisquer reservas.
Foi, porém, agora mesmo ao regressar de Kumamoto que alguém me chamou à atenção:
Não, ainda não tinha visto. E ao ver, foi uma valente risada de rolar no chão às gargalhadas e até na rua se ouvir, como já há muito que não dava umas assim!
É certo que a ESTÉ (ou simplesmente 'ST' — エステ) — companhia sediada em Osaka, líder de mercado no sector em causa — é de igual modo bem conhecida por uma certa tradição de lançamento regular de spots publicitários bem-humorados (esclareço, para uma melhor apreciação do link que antecede, que a palavra 'kusai' significa pivete...) com que brinda o público há muitos anos e de que este e este e ainda est'outroexemplos fizeram a imagem de marca.
Sucede, porém, que, com a ocorrência do Grande Terramoto de Tōhoku a 11.03, houve quem (coisa tão ao 'jeito' de cá...) achasse que não era altura para grandes comédias e quem mais sugerisse que qualquer coisa 'assim'... 'porventura mais sensibilizante', atento o período difícil que o país vive, em face da Grande Tragédia do Nordeste, etc. e tal, poderia ser uma opção a ponderar, blá, blá, blá... Meanwhile, alguém mais se lembrou que num certo canto da Europa, há uns duzentos e muitos anos, uma tragédia de semelhantes proporções por lá havia abalado — e de que maneira!... — o solo do Velho Continente, e que em jeito de lembrança ou de homenagem ou fosse lá o que fosse que fulano ou fulana tinham em mente quando pensaram no dito lugar lá longe, vai d'agarrar na tralha e vamo'lá fazer a nova campanha Primavera-Verão...
Mais cenas dos próximos capítulos: amanhã é dia de visita ao magníficoYachiyo'Za (八千代座) em Yamaga-Shi (山鹿市), Kumamoto (熊本県) — traduzido à letra "O Assento das Oito Mil Gerações" —, é um dos três mais belos e bem preservados teatros tradicionais do Japão, consagrado, desde a sua fundação há precisamente 100 anos, às ancestrais artes de palco do Kabuki, Bunraku, Kyōgen e Buyō.
Edificado em 1911, final da Era Meiji, a expensas de um consórcio de ricos comerciantes locais e numa época de grande prosperidade na região, o esplendoroso Yachiyo'Za, chegada a década de 70 do século passado, atingiu um estado de declínio, degradação e decrepitude tais que a sua demolição a breve trecho era já anunciada.
De novo em redor do papel em branco e da negra, esfíngica Sumi, se há nome que haja nomear entre os que estipulam exemplo de assombro no deslinde das labirínticas estradas do Shodō — 書道 —, um só nome hoje me ocorre: Takeda Souun — 武田双雲.
Aos 35 anos de idade, Takeda é 'o nome'.
種
— Tane —
"Semente"
«A singularidade da obra de arte é idêntica à sua forma de se instalar no contexto da tradição. Esta tradição, ela própria, é algo de completamente vivo e algo de extraordinariamente mutável. Uma estátua antiga da Vénus, por exemplo, situava-se num contexto tradicional diferente, para os Gregos que a consideravam como objecto de culto, e para os clérigos medievais que viam nela um ídolo nefasto. Mas o que ambos enfrentavam da mesma forma, era a sua singularidade, por outras palavras a sua aura. O culto foi a expressão original da integração da obra de arte no seu contexto tradicional. Como sabemos, as obras de arte mais antigas surgiram ao serviço de um ritual, primeiro mágico e depois religioso. É, pois, de crucial importância que a forma de existência desta aura, na obra de arte, nunca se desligue completamente da sua função ritual. Por outras palavras: o valor singular da obra de arte "autêntica" tem o seu fundamento no ritual em que adquiriu o seu valor de uso original e primeiro. Este, independentemente de como seja transmitido, mantém-se reconhecível, mesmo nas formas mais profanas do culto da beleza, enquanto ritual secularizado »
Walter Benjamin, in "A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica" (1936)
光
— Hikari —
"Luz"
Nascido em Kumamoto — 熊本 —, Kyūshū, em 1975, Takeda Souun — 武田双雲 —, iniciou a prática do Shodō — 書道 — aos 3 anos de idade sob a orientação de sua mãe, também ela Shodōka — 書道家 —, e desde então nunca mais largou os fude — 筆 — e a sumi — 墨 —, respectivamente, os pincéis e essa insinuante e sedutora Tinta-da-China de que o Shodō vive.
E não obstante um promissor percurso académico no foro das ciências e tecnologia, em 2001, o jovem Takeda, então com 26 anos, abandona a sua carreira profissional ao serviço de uma grande empresa do ramo da electrónica, para se dedicar a tempo inteiro à sua vocação de calígrafo.
Em 2003 é galardoado com o Longhua'cui Art Award atribuído pelo Museu de Arte de Shangai e, daí, o remanescente da seu percurso parece não encontrar limite no seu impulso ascendente: Takeda Souun é simplesmente um génio.
O absoluto domínio de mão e o absoluto domínio da matéria-prima serão sempre, e em qualquer recurso, qualidades questionáveis, sobretudo num tempo em que a Arte — conceito difuso — o é e se celebra a si mesma enquanto pântano de vaidades.
O certo é que Takeda possui ambas . Isso é seguro.
Isso é absoluto.
E muito embora, uma parte ou o todo do que aqui vos proponho aparente ser de uma simplicidade infantil, quase-insultuosa para os que acabam de, desdenhosamente, ler e duvidar do que acima acabo de escrever, arrisco-me ainda assim a afirma-lo de peito-feito: isto é extraordinário. Isto é raro.