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terça-feira, 9 de agosto de 2011

9.8 — Nagasaki: Três Irmãos

Joe O'Donnell, "Japan 1945 — A U.S. Marine's Photographs from Ground Zero"


"As I approached the outskirts of Ground Zero, I came upon these three children. The oldest child was pushing the other ones on this makeshift cart. They stopped and looked at me, uncertain as to what I might do. I gave the oldest one an apple, he bit into it,then passed it to the next child. At once, a swarm of flies descended on the apple, but the children shared the apple in solemn silence, oblivious to the flies flying in and out of their mouths."



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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

2053








      Não Caríssimos. Não se trata de um exercício de futurologia ou do título de uma qualquer novela de antecipação ou cine-odisseia sci-fi.

     O título que dá mote a este breve escrito — e por referência à obra videográfica que hoje vos proponho [☝] — alude, contrariamente ao que possa sugerir, a um passado bem recente e ainda bem presente, e ainda que obscurecido pelo incómodo do tema de má-memória que lhe dá forma e conteúdo, e que, de um modo geral, todos aprendemos de um modo ou de outro a arrumar numa arrecadação poeirenta da nossa consciência tão individual quanto colectiva — e partindo do princípio (muito discutível, é certo) de que a humanidade ou uma parte significativa desta, partilha de uma consciência moral dita colectiva, isto é, de uma percepção geral e amplamente disseminada do que é moralmente certo e do que é errado, do que é razoável e do que é absurdo, independentemente de variáveis e dissensões entre credos religiosos, político-ideológicos ou de outra natureza.

     O número 2053 hoje aqui proposto — número gordo, número feio…— não é mais nem menos que o número total de explosões nucleares documentadas e contabilizadas entre 1945 — ano da detonação do primeiro engenho balístico nuclear, o ensaio Trinity no deserto do Novo México, em Julho do último ano da II Guerra Mundial — e 1998, e por iniciativa e responsabilidade de pelo menos 7 potências.  

    E ainda que a dança macabra do nuclear ao serviço da destruição em grande escala esteja  longe do fim, é a reflectir sobre este incómodo tema que se nos dirige o convite do artista Japonês Hashimoto Isao (n. 1959), sem música e a um ritmo trôpego e por demais monótono (tão trôpego e monótono quanto o será qualquer discurso que pretenda justificar o injustificável), assim possais dar pouco menos de um quarto de hora do vosso precioso tempo a esta tão simples quão extraordinária obra. 
    
    Um convite ao qual, e em véspera de recordarmos o inferno de Hiroshima, hoje faço eco.






"shame on us, for all we have done..."






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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ali mesmo, ao virar da esquina...








Sōfuku-Ji  —  崇福寺





Certamente ter-se-á passado, já, o mesmo convosco:




      
      Vivermos a cinco, dez, vinte minutos de caminho, a pé, de um certo lugar que ali sempre esteve, à nossa espera, ou do nosso deslumbramento, e que, porém, por este ou aquele motivo de força menor — ora porque se acha duas ruas por detrás daquele mesmo-de-sempre percurso que nos leva de A a B, de casa à escola, do escritório à mercearia, do dia de trabalho árduo, saturado, ao sossego letárgico do lar —, nos escapou... durante anos...












...E assim foi comigo e o Sōfuku-Ji [崇福寺], O'Tera [寺] — templo, mosteiro — da facção Rinzai [臨済宗Rinzai-Shū] do Budismo Zen, outrora erguido pelo Clã Kuroda [黒田], honrado nome dos outrora senhores desta terra, numa primeira instância em Dazaifu, arrabaldes desta cidade de Fukuoka, e posteriormente trazido ao lugar que hoje lhe serve de solo.




     O imponente e austero 'Mon' [門] que se abre diante dos nossos olhos ao fundo dessa singular viela esquecida entre tantos outros discretos terreiros do distrito de Higashi (東区 — Higashi'ku — o 'Distrito Oriental' da cidade), foi outrora porta do Castelo de Fukuoka, hoje desaparecido...

      E este não seria mais que um outro desses meus fugazes 'fâit-divers' com que de tempos a tempos vos brindo, não fosse este lugar que serve de mausoléu ao Clã Kuroda e, em particular, a um homem, Kuroda Nagamasa [黒田長政], ser meritório do nosso maior interesse enquanto Portugueses de olhos postos a Oriente...




Kuroda Nagamasa — 黒田長政 — 1568 - 1623

     
     E tanto porque foi este Senhor, 'Campo Negro' ['Kuroda'] de seu nome, quem após a queda de Konishi Yukinaga [小西行長], este vencido em Sekigahara — campanha da qual tornaremos a falar muito em breve... — se prestou a assumir o encargo de zelar pelo bem-estar desses NanBan e seu sacerdócio que temiam agora pela sua sorte, despojados do primeiro dos seus benfeitores, Konishi, Daimyo cristão do feudo de Higo — hoje Prefeitura de Kumamoto — e tendo este cobiçado 'han' [藩], situado mesmo a sul do território de Kuroda, sido então confiado por Ieyasu a um dos seus mais encarniçados inimigos, Katō Kyomasa [加藤清正], um fervoroso budista e um inveterado xenófobo como poucos, no seu tempo, igualaram...






      "Que de mim nada temeis, pois que eu cuidarei de em vosso nome, zelar pelo vosso bom interesse e fé como antes de mim, Konishi o fez..." — nestes termos terá Kuroda Nagamasa apaziguado a ânsia dos prelados de Nagasaki, por volta de 1601, logo após Sekigahara...  Coisa que poderia causar estranheza, vinda de um homem que nunca se vergara à retórica dos arautos de Cristo nestas terras e que se conservou, também ele, até ao fim dos seus dias, um devoto adepto do Zen segundo Eisai...






     Nagamasa terá conservado a sua palavra até ao último suspiro, e mormente sabermos hoje que a sua benévola mão patriarcal foi sol de pouca dura — posto que as inúmeras e deploráveis intrigas e quezílias entre Jesuítas (Portugueses, aquartelados em Nagasaki) e as ordens medicantes (no seio das quais  imperava a Língua de Castela, de estandarte ao vento em Kyoto...), tratariam de dissipar a tolerância de Ieyasu e ditar os termos dos Éditos de Expulsão de 1614 —, o seu nome deveria ainda e sempre colher a nossa mais humilde reverência, pois que Nagamasa foi o último dos 'nossos' entre 'eles'... 




     Cai serena a noite. 
     A Sōfuku-Ji regressaremos, também, em breve...


     Por ora, ficam os retratos...



























































[AVISO À NAVEGAÇÃO: não confundir este fuku-Ji  —  崇福寺 — com ess'outro Shōfuku-ji 
— 聖福寺 —, também próximo da base de operações do vosso NanBan e já aqui antes apresentado

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Colina Dos Mártires


Ainda de Nagasaki, 05.08.2010.


Ao abrigo de um certo fair use ou fair dealing, e só porque o Inglês suave e cuidado de Boxer guarda um charme e encanto mui recomendáveis a qualquer leitura que nos proponhamos fazer (ajuda, ajuda, a cativar o interesse dos mais cépticos, garanto-vos...), atrevo-me aqui e hoje a transcrever uns quantos parágrafos de um dos livros que me acompanha em todas as horas e que é quase como que um objecto totémico para mim, e para que a história que se segue vos possa ser transmitida como eu gostaria de o fazer — no meu melhor Português — remetendo-vos, no que respeita a outros detalhes de interesse na mesma, para a obra e autor que uma vez mais vos proponho. Os editores de C.R. Boxer que me perdoem e me puxem as orelhas se for caso, lembro só que não faço um tostão com isto e tão só me presto a este desempenho, porque a história que se segue merece mesmo ser contada. E lembrada.

A página que ficou para a História do Japão como o incidente do San Felipe — um imponente e bem recheado galeão oriundo de Manila com destino a Acapulco, que um tufão desviara até à costa do feudo de Tōsa, Shikoku, em Outubro de 1596, e cuja carga deu azo a uma intrincada disputa entre a corte de Toyotomi Hideyoshi [豊臣秀吉] e os seus legítimos proprietários espanhóis —, e que propulsionou os eventos conducentes a ess'outra dos vinte e seis Mártires do Japão, é, na obra que hoje uma vez mais vos deixo por referência, tratada com o devido detalhe e, aos mais interessados, para a mesma remeto.

Em todo o caso, aqui fica aquele que considero ser, porventura, um dos melhores relatos e reflexões sobre essa trágica manhã de 5 de Fevereiro de 1597.



«The Spanish Pilot-Major [of the San Felipe], Francisco de Olandia, in a ill-judged effort to impress the Taikō [太閤 — 'retired Regent' or '(retired) Shogun'] Hideyoshi's commissioners [led by Masuda Nagamori] with the power of the Spanish King [Phillip II], incautiously admitted to Masuda that the Spanish overseas conquests had been greatly facilitated by the Christian "fifth column" (to use modern jargon) formed by the missionary friars before the arrival of the conquistadores themselves. This observation coincided exactly with what the [Buddhist] bonzes had been telling anyone who would listen to them, since 1570 at least. Coming from, as it were, the horse's mouth, it could hardly be ignored by even a confessed anti-Buddhist like Hideyoshi. This allegation either gave him the pretext for which he was seeking, or else (more likely) decided him that Masuda and Seiyakuin [Seiyakuin Zensō Hōin — Hideyoshi's physician and a staunch enemy of the Portuguese Jesuits] were right in their denunciation of the political menace of Christianity.


«In either event, his reaction was swift and decisive. He forthwith sentenced the [Spanish] Franciscans to death by crucifixion at Nagasaki, as violators of the law of the realm and disturbers of the public peace. At first Hideyoshi threatened to include all the missionaries in his condemnation, but he soon thought better of this — mainly because the Jesuits were still regarded as essential intermediaries for the Macao trade — and in the end only a mixed party of six Franciscans, seventeen of their Japanese neophytes, three Japanese Jesuit lay brothers (these last included by mistake) or twenty-six persons in all, were crucified in Japanese fashion at Nagasaki on a cold winter's morning, February 5, 1597, after having been paraded overland from Kyoto via Sakai and exposed to the derision of the populace.




«The foregoing, be it noted, is substantially the Portuguese and Jesuit account of the matter; for the Spaniards and surviving Franciscans roundly declared that it was the Portuguese who denounced the Spaniards as conquistadores, and who instigated the Japanese to confiscate the San Felipe's cargo. Fray Juan Pobre (an eyewitness and passenger in the great galleon), expressly states that Hideyoshi's decision to confiscate the cargo was taken before the pilot's interview with Masuda, and not after it as the Jesuits account imply. The Spaniards further alleged that the Jesuits not only declined to intervene on behalf of the Franciscans when asked to do so, but went so far as to entertain the judge who presided at the execution. Bishop [Pedro] Martins [Portuguese Jesuit Bishop of Japan, 1591-1598] and his compatriots, it is perhaps needless to add, formally denied on oath these and similar accusations; but they were nevertheless widely believed and repeated throughout the Spanish colonial empire, and did a great deal to foster the ill-feeling between Spaniards and Portuguese which was never very far bellow the surface.


«It may be asked what justification did the Japanese have for their suspicions of European aggression by or through the missionaries? The answer is that they had more excuse than reason. Christian religious propaganda was (and is) in the nature of things difficult, if not impossible, to disentangle from the political affiliations of those who support it. Thus [Pierre François Xavier de] Charlevoix, the Jesuit historian of the Society's activities in Canada as well as in Japan, pays his colleagues the somewhat dubious compliment that they taught their Red Indian converts to mingle Christ and France together in their affections. Without suggesting that they proceed on exact parallel lines in Japan, it is worth noting that the Jesuit padre, Balthazar Gago, writing from Hirado to his patron King João III of Portugal in September 1555, claims credit for teaching his neophytes to pray for the Lusitanian monarch as their potential protector (...)


«It is true that experience of the warlike nature of the Japanese speedily disillusioned the vast majority of the Jesuits from any notions they might ever have harbored about the feasibility of the conquest of Japan by [a] Catholic King, and [Alessandro] Valignano was at pains to stress repeatedly the vital necessity of respecting Japanese national independence.


«But it was the father-superior, Gaspar Coelho, a responsible and withal avowedly pro-Japanese Jesuit, who admitted more native novices into the Society than any of his predecessors or successors, who had warmly advocated the conversion of Nagasaki into a strongly fortified point d'appui, and even suggested Spanish military aid for the Christian daimyo of Kyushu.



«It is true that Valignano sharply rejected these dangerous suggestions. But he and Bishop Martins were both at one in urging King Felipe to order the cancellation of the Great Ship's annual voyage from Macao to Nagasaki, after the martyrdom of 1597, in order to cause an economic crisis and general unrest in Japan.


«They considered that this situation would bring about either the overthrow of Hideyoshi, or induce him to accord official recognition to Christianity in his domains. Bishop Martins pointed out that the regent was particularly vulnerable to this form of economic sanctions, since he was at war with China, and deliberately broken with his only other overseas market in the Philippines.


«The advice was not taken, and Hideyoshi's death the next year rendered it unnecessary; but it is interesting as showing how inextricably mixed were religious, political, and economic motives in the Jesuit Japan mission.


«That the Japanese were by no means so ignorant of the state of affairs in Europe, as the Jesuits sometimes seem to have imagined, can be seen from Hideyoshi's correspondence with the Governor of the Philippines, Don Francisco Tello.

«The governor had sent an envoy, Don Luis Navarrete, to claim the confiscated cargo of the San Felipe, and to ask why the Franciscans had been executed.



«Hideyoshi in his reply, drafted in a spirit more of sorrow than of anger, explained that Shintō (there is no mention of Buddhism, be it noted) was the pith and core of the Japanese social structure. He went on to point out that the friars threatened to upset the whole national fabric with their subversive Christian propaganda,


«And if perchance, either religious or secular Japanese proceeded to your kingdoms and preached the law of Shintō therein, disquieting and disturbing the public peace and tranquility thereby, would you, as lord of the soil, be pleased thereat? Certainly not; and therefore by this you can judge what I have done.


«The logic of this retort is indeed unanswerable; although there is no need to suppose that it carried the slightest conviction to the closed mind of a Roman Catholic conquistador, who naturally considered that the activities of the Franciscans were inspired by God, and therefore above human interference, whereas those of the Shintō priests were motivated by the Devil, and as such entitled to be forcibly suppressed.»*





*in "The Christian Century in Japan 1549 - 1650", C. R. Boxer, Manchester 1993.

Mais, ici, en Français, se for da vossa preferência.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Urakami ontem, Urakami hoje





✽ ✣ ✽



Sobre Nagasaki, Sweeney e Ashworth não podiam perder tempo a decidir-se: afinal, desfalcado de uns preciosos seiscentos galões de fuel, que pouco mais deixava para o troço de regresso a Tinian (se desse sequer para lá chegar próximo, pois que, nas circunstâncias, o cenário mais optimista seria o de uma aterragem de emergência e depósitos sêcos algures em Okinawa...), somado à quase uma hora (de fuel e nervos) esbanjada no ar, sobre Yakushima, em espera pelos seus dois parceiros de missão, o 'The Great Artiste' e o 'Big Stink', e ao sobrepêso do 'Gorducho' que dormia, silente, esfíngíco, tenso e ameaçador, no seu frágil ventre de metal, a atrasar-lhe a marcha e a expô-lo a eventual fogo inimigo, ao 'Bockscar' urgia desenvencilhar-se sem mais delongas da sua sinistra carga...

Foi por volta das 10:55 — right there and then —, sobre Urakami, Nagasaki.
Ali, a escassos quarteirões dos estaleiros navais da Mitsubishi/MHI, 'justificativo' da preferência pelo alvo em causa. Uma brecha no céu... Tanto basta.


A Catedral de Urakami, aberta aos fiéis de Cristo em 1914, após quase dois séculos e meio de sofrimento na clandestinidade da sua reduzida e'inda assim tenaz comunidade de 'Kakure Kirishitan' [隠れキリシタン], entre exílios forçados, martírios e humilhações de toda a ordem, a somar a mais quatro décadas d'outras tantas dificuldades na obtenção de meios e financiamento para a sua edificação — suprimida a proibição da Fé Cristã em plena Meiji Jidai [明治時代] —, calhou achar-se, naquela fugaz manhã de Agosto, ali mesmo sob a trajectória do projéctil...


O resto são as imagens que as câmeras da época registaram...





✽ ✣ ✽

...Mas Urakami não morreu.

Urakami vive.

E Nagasaki vive.

E é a Vitória da Vida que hoje celebramos.