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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

domingo, 13 de novembro de 2011

A Secreta Visita de um Anjo





     Parece impossível que até há bem pouco tempo eu nem o suspeitasse sequer: Mishima Yukio um dia passou por Portugal, e ao encanto e magia da nossa atlântica Pátria, um dia se rendeu.

   Sabia, testemunho do meu saudoso Professor Hakamada, que o irmão mais novo, Hiraoka Chiyuki, fora em tempos Embaixador do Japão no nosso país, mas quanto ao périplo do autor desse grandiloquente "Mar da Fertilidade" (「豊饒の海」— "Hōjō no Umi") pelo nosso Extremo Ocidente, é dado biográfico mil vezes omitido.

     A história pela voz e olhar da bela Tokiwa Takako (常盤貴子), para meu contentamento, ao serão deste Domingo (21h de cá) no canal BS-Asahi.










Liszt:  Consolo Nº 3










弌  弍  弎



terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ainda e Sempre, Novembro (Luzes, Câmeras, Acção...)






11.25: 自決の日、三島由紀夫と若者たち。(2011)



      A princípio, mais que surpresa, a notícia causa estranheza.
      Depois, e após alguma reflexão, tudo faz sentido: afinal tinha mesmo que ser este, o passo seguinte e mais que óbvio, assim vindo de quem vem.

    Wakamatsu Kōji [若松孝二], oriundo do meio proto-marginal do Pink Eiga (Soft Porn/Sexploitation versão japonesa) das décadas de 60/70 do século que lá vai, e enquanto realizador sempre colheu no fértil território do tabu, o melhor da sua obra. É hoje, certamente, o último cineasta de substância num país que já prometeu muito mais ao território da Sétima Arte. 
         E é precisamente em temas de teor incómodo, que Wakamatsu tem, ao longo da última década, demonstrado uma faculdade única de re-invenção do cinema japonês, partindo da honesta assunção de que o país do tudo-no-seu-devido-lugar esteve sempre, e desde tempos imemoriais, no limiar dessa explosão potenciada por um sem-número de ímpetos transgressivos face a uma ordem social tida por quase-perfeita.



  



     Assim sendo, e depois de "United Red Army" (実録・連合赤軍 あさま山荘への道程, Jitsuroku Rengo Sekigun: Asama sanso he no michi [2007]) — análise desencantada da extrema-esquerda nipónica encarnada no Rengō Nihon Seki Gun (Exército Vermelho Unido do Japão), célula terrorista saída de moldes idênticos aos de um R.A.F./Baader-Meinhof e Brigate Rosse, e tomando a barbárie de Asama-Sanso (1972) por ponto de partida —, seguido de "Caterpillar" (キャタピラー [2010], Urso de Prata para Melhor Actriz [Terajima Shinobu] no Festival de Berlim de 2010) — autópsia do horror da guerra, pelas mãos e olhos da mulher de um 'herói nacional' tão deificado quão desfigurado até ao limite do grotesco...—, filmar, logo de seguida, os eventos conducentes ao 'Incidente de Ichigaya'  (25.11.1970), Mishima e os Tatenokai, tinha naturalmente que ser o desenlace apto a dar continuidade (e não necessariamente conclusão) ao confronto desse Japão auto-anestesiado, com os monstros do seu passado recente.




       "11.25: Jiketsu No Hi, Mishima Yukio To Wakamono Tachi" [11.25: 自決の日、三島由紀夫と若者たち — "11.25: O Dia do Sacrifício, Mishima Yukio e a Juventude"] , segue a par e passo a sequência de factos conducentes ao duplo suicídio de Yukio Mishima e do seu lugar-tenente Morita Masakatsu, a 25 de Novembro de 1970, em pleno Quartel-General do JIEITAI, após uma tentativa fracassada de sublevação militar com o fito de anular a Constituição de 1947 — um tema já amplamente debatido neste espaço, pelo que, e a título de referência, me permito remeter-vos para os textos já aqui antes trazidos a respeito destes e de outros eventos, recordando apenas que o caso em si, permanece, 41 anos volvidos sobre o mesmo, como um misto de tragicomédia negra, mito e intolerável embaraço num país que ainda se debate, hoje, com o mistério insolúvel das motivações por detrás da morte do seu mais celebrado escritor do Século XX.


      A ante-estreia foi já agendada para 27 de Novembro, aqui.
      Espero sinceramente que seja um grande filme, digno dos espíritos que invoca. 
      E, a sê-lo, que chegue até vós.
     















❀ ❀ ❀






domingo, 17 de abril de 2011

A Pátria é o lugar onde o Coração sempre esteve.



日々旅にして旅を栖とす。

"Cada dia é uma viagem,
E uma viagem, sempre, de regresso a casa."

Matsuo Bashō  (松尾芭蕉, circa 1690)




Donald Keene na companhia de grandes amigos: Mishima Yukio e o actor Akutagawa Hiroshi,
Tokyo-To, 1962


          Prima entre as notícias que fazem as manchetes dos serviços noticiosos por cá, este fim-de-semana: Donald Keene, emérito Professor de Literatura Japonesa, tradutor de renome e dedicado Nipologo, de 88 anos de idade (n. 6.6.1922 em New York, E.U.A.), autor de uma das mais vastas e extraordinárias obras no domínio do estudo e divulgação internacional das Letras e Cultura de Yamato, irá, em breve, fixar residência permanente no Japão e adoptar, ainda este ano, a cidadania Nipónica, mediante processo de naturalização já formalizado.


   O rumor de que Keene considerava, desde há algum tempo, adoptar a cidadania/nacionalidade Japonesa, em detrimento da cidadania Norte-Americana — uma vez que a Lei Nipónica não admite a possibilidade de acumulação de dupla nacionalidade —, circulava já, desde Janeiro, em certos círculos académicos e políticos no Japão. Consta, porém, que foi com a ocorrência do Grande Cataclismo de Tōhoku de 11 de Março passado, que o prestigiado académico formulou a sua decisão final de estreitar o laço de uma opção identitária mais profunda e que o ligará mais intimamente e para o resto dos seus dias ao país que ao longo de quase toda a sua vida carregou no fundo do peito e pelo esforço do seu infatigável trabalho. Keene criticou recentemente aqueles que no próprio Japão manifestaram, de um modo ou de outro, sinais de falta de fé no futuro do seu país e na sequência do 11.03, e afirmou ser este o momento de cada um dar o máximo de si ao País ao Sol Nascente.






Donald Keene fotografado, em 1953, junto ao túmulo do 
Poeta Matsuō Bashō [松尾芭蕉 — 1644-1694], cuja exten-
sa obra mereceu alguns dos seus mais afamados e importan-
tes estudos literários.
       O Professor Keene é conhecido no Ocidente, sobretudo pelas inúmeras obras literárias de destacados autores Japoneses que traduziu e cuja edição promoveu, em primeiro lugar, nos E.U.A. de seu nascimento e demais mundo anglófono, mas também pela profícua ligação e amizade que logrou cultivar com alguns dos maiores homens de letras do século XX nipónico, entre os quais Kawabata Yasunari [川端康成], o primeiro escritor japonês laureado com o Prémio Nobel da Literatura (1968),  Mishima Yukio [三島由紀夫], discípulo dilecto do primeiro, e Abe Kōbō [安部公房], o último dos grandes romancistas dessa ínclita 1ª Geração de Shōwa —  a brava linhagem dos nascidos no início da regência do Ten'Ō Hirohito (meados da década de 20) e figuras-de-proa da literatura do  imediato Pós-Guerra —, e cujas obras, a par de tantas outras produzidas por incontáveis gerações precedentes de briosas penas do Japão, Keene assumiu, como uma responsabilidade pessoal,  levar Mundo fora. 


       Foi aos 16 anos que Donald Keene ingressou na Universidade de Columbia com o intuito de vir a ser um Orientalista especializado no domínio do Mandarim e demais idiomas dess'outro Império do Meio, a Grande China. 
      Seria, porém, e por efeito de um estranho golpe do Destino, que Keene haveria de se envolver súbita e profundamente com esse, à época, bem mais inacessível e obscuro Nihon-Go [日本語]: com o eclodir da Guerra em 1941, na sequência do ataque a Pearl Harbour, em Dezembro desse ano, Keene vem a ser recrutado pela Marinha do seu país onde passa a servir como oficial de transmissões e inteligência, integrado numa unidade especializada em operações de intercepção e descodificação de comunicações trocadas entre as forças  do inimigo.
       Durante a Guerra e na sequência do seu desfecho com a derrota do Japão em '45, Keene serviria ainda como tradutor e intérprete das forças armadas do seu país durante algum tempo e até à sua desmobilização, altura em que regressaria à actividade académica para a esta se entregar de corpo e alma, após a graduação com distinção em Columbia, em 1947, iniciando então uma prodigiosa carreira que o levaria numa incansável jornada pelas décadas fora por Harvard, Cambridge, Kyoto, Waseda, Berkeley e de regresso à sua Alma Mater, Columbia onde leccionou Língua e Literatura Japonesa por mais de cinquenta anos, com tempo ainda para traduzir e publicar dezenas de obras de autores Japoneses de várias épocas e estilos e redigir tantos outros aclamados tomos dedicados à Cultura e Literatura do Japão, com destaque para a sua História da Literatura Japonesa condensada em quatro volumes e uma das mais esmeradas e apreciadas biografias do Ten'Ō Meiji, publicada em 2002

        Keene viria, entretanto, e em 1986, a estabelecer a sua própria fundação e centro de estudos para a  Cultura Japonesa, e viria, a 3 de Novembro de 2008, Dia da Cultura Nacional [文化の日 — Bunka No Hi] a ser reconhecido pelo Governo do Japão e a receber das mãos de Sua Majestade, o Ten'Ō  Akihito, a Ordem da Cultura, distinção honorífica instituída em 1937 e reservada tão-só aos mais destacados beneméritos por serviço em prol da Cultura Nacional do Japão, tendo sido o primeiro estrangeiro a receber tão excepcional distinção.









         O passo agora dado pelo Professor Keene, ao formalizar o seu pedido de cidadania Nipónica, abdicando da nacionalidade Norte-Americana que detém ainda e por direito de nascença, foi, este fim-de-semana, entusiasticamente saudado pela opinião pública Japonesa e visto como um acto de grande coragem e respeito. 

         Deus o conserve entre nós por muitos mais e bons anos, Professor Keene. 

             乾杯! / Kampai!



❖❖❖  


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

"Desanuvia, NanBan, desanuvia..."

























"Don't you turn your back on me while I'm talking to you!" 


(So he says...)


"Oh yeah... Keep talkin'..."  
(So I say)





" ♬ There's a place around the corner [where your dead friends live] ♬"



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

25.XI (2)

































Espectro que me persegues, 
sempre,

no caminho de casa.












Morto,
tão morto aos olhos d'outrém.










Vivo,
tão vivo neste coração
que tua mágoa comunga...





























































Franz Schubert, "Der Doppelgänger" (1828), Dietrich Fischer-Dieskau (barítono)  





 

25.XI













































Viveu, criou, agiu, deu tudo de si, morreu 
na exacta medida do seu absoluto génio.

Ridículo?

Ridículos são os outros. 


'Rari Nantes In Gurgite Vasto'




Franz Schubert, "Nacht und Träume", Dietrich Fischer-Diskau (barítono)  




*Virgílio,  Eneida, I, 118

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Uma Odisseia




É facto que, há vários anos atrás, quando vi este filme pela primeira vez, não fiquei nada bem impressionado.

Creio que o aspecto, na altura, que mais me feriu foi o 'casting' que me pareceu terrivelmente desajustado do mínimo exigível (o 'meu [nessa época] mínimo exigível'), sobretudo no que respeita à escolha do saudoso Ogata Ken [緒形拳, 1937 - 2008] para o papel principal — Mishima em plena maturidade.
Creio que também, à época, não gostei nada das constantes altercações entre preto-e-branco e os tons berrantes a querer-ser-deliberadamente-kitsch que consomem os capítulos dedicados às obras escolhidas do homenageado. Creio também, e se a memória me não falha, que não estava, então, minimamente em sintonia com as orquestrações minimal-repetitivas (assim o terei interpretado na altura) de Philip Glass
Mas na altura era um catraio que nem sabia o que queria nem do que gostava ou deixava de gostar.


Revisitado por mim recentemente, virtude da aquisição de uma re-edição em DVD da qual há dias vos falava — de início com os olhos postos mais nos suplementos documentais que integra como 'piscar-de-olho' aos potenciais interessados, do que na película que lhe dá o mote...— agora quero afirma-lo com todas as letras: 
este "Mishima: A Life In Four Chapters" de Paul Schrader é pur'e simplesmente um MONUMENTO de assombro — a mais bela homenagem que alguém, algum dia, poderia ter prestado ao Homem (assim mesmo com "H" grande, que é como deve de ser!!) 
Um portento.
É guião, é actores, é cenários, é fotografia, é guarda-roupa, é a música do arco-da-velha,  é luz, é som... é TUDO! É simplesmente TUDO.  TUDO.  TUDO. 


Se ainda não viram, vejam! 


Mas vejam mesmo.


E já agora: regresso ao tema de ontem... 



terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Casa Misteriosa






       Não. 

       Não vos venho hoje falar de qualquer mansão assombrada, ou por outra... de uma qualquer estrutura hoje ou ontem destinada a habitação física de seja quem for, e sobre a qual pendam rumores de almas penadas a deambular-lhe os corredores noite fora ou meras memórias de mau agoiro.


       Venho antes falar-vos de um livro.  Um livro em particular...

     Um livro, estranhamente (ou nem por isso) resvalado, faz tempo, e assim me quer parecer, para a vala comum de um certo oblívio colectivo. Obra que, aliás, e não serei eu o único a notá-lo, permanece envolta num peculiar mistério: porque permanece "A Casa de Kyoko" [「鏡子の家」— Kyōko No Ie], até aos dias de hoje, ignorado, por traduzir e por editar onde quer que seja fora do Japão? 

(escusado será dizer que a minha demanda já me levou a todos os mercados livreiros, editoras de referência, em todos os idiomas que domino ou arranho, sem que encontrasse explicação plausível para tamanho 'buraco negro' na galáxia de Mishima Yukio...)
       
        



           "An unsettling, even a terrifying book", assim  John Nathan se lhe refere na sua notável biografia do autor de "O Mar da Fertilidade" [豊穣の海 — Hōjō No Umi], a monumental tetralogia com que encerra a sua prodigiosa carreira literária e artística nesse 45º Ano de Shōwa (昭和 45年 [1970]), aos 45 anos de idade, sublime e trágica epopeia em quatro tomos, uma pintura prosaica de dimensões oceânicas enquanto retrato do seu país, largando de 1912 — conclusão do Período Meiji que conduzira, ao longo de pouco mais de quatro galopantes décadas, um Japão tardo-medievo de Samurai e Daimyo montados a cavalo, de armadura e sabre em riste, à condição de grande e temida potência industrial-militar do início do Século XX — aos anos do apogeu do milagre económico do Pós-Guerra, os anos dessa louca e cega ganância, como o próprio a desdenhava amargamente e da qual preferiu não participar — a década de 70... — e coincidentemente, assim parece, "Kyoko No Ie — A Casa de Kyoko" manifesta, também ela, a sua ordem de intenções num idêntico movimento circular por quatro partidas, num processo comparável ao de um "Quarteto de Alexandria" de Durrell, mas aventurando-se, de sua feita, por territórios bem mais inóspitos e pantanosos que esses percorridos pelo autor dess'outro "Livro Negro" ("The Black Book", 1938).

           
           "A Casa de Kyoko" poderá ser, de um certo prisma, observada como uma espécie de "ficção-hermenêutica", a par de "Confissões de uma Máscara" [仮面の告白 — Kamen No Kokuhaku] de 1949, uma obra essencialmente 'confessional' e auto-interpretativa, uma "novela-espelho" por assim dizer, e aquando da sua prolongada redacção, empreendida entre Março de 1958 e Junho de '59, ao longo de quinze frenéticos meses de ansiedade extrema e penoso esforço criativo — Nathan, transcreve na referida biografia, diversas e elucidativas passagens do diário mantido por Mishima ao longo desse período, as quais reflectem como nenhum outro testemunho, a determinação, a inquietude e as enormes expectativas acalentadas pelo escritor a respeito desta ambiciosa obra —, Mishima depositaria, nesta empreitada, o absoluto máximo de si, optando inclusive por levar a respectiva escrita até à última página, eximindo-se de a fazer publicar em formato 'serializado' (i.e. em fascículos)  conforme era voga no Japão literário dessa época e cuja 'conveniência' editorial havia privilegiado aquando da publicação da vasta maioria das suas obras anteriores — estrondosos 'best-sellers' na generalidade dos casos...


           A tépida recepção por parte quer do público, quer da crítica — que qualificaria secamente "Kyoko No Ie" como sofrível —, terá actuado como o infligir de um rude golpe no ego e enfatuada auto-estima de Mishima — Henry Scott Stokes, o outro seu biógrafo, interpreta mesmo na sua opção de, no ano seguinte (1960), aceitar o improvável papel do irrecomendável rufia de "Karakkaze Yarō" como uma pueril vingança dirigida contra estas duas frentes de inconsolados...—, e o fracasso da obra que tanto tempo lhe consumira e na qual havia depositado tão grandes antecipações, como Nathan a esse respeito salienta, terá desempenhado um papel de crucial importância no desenlace dos eventos que marcariam a vida de Mishima pela década seguinte adentro e até aos seus últimos dias entre os seus...  
           



          

             "Kyoko No Ie" segue a par e passo as vidas entrecruzadas de quatro personalidades:

  1.     Shunkichi, um pugilista "isento de pensamento". Numa rixa de rua entre meliantes, Shunkichi é duramente atingido no braço direito pelo impacto de um taco de baseball e vê-se subitamente incapacitado para a prática do boxe, seu modo de vida, e para o resto dos seus dias. Na senda de um novo propósito que lhe ofereça uma chance de viver à medida da sua moldura de homem de acção, junta-se a uma formação de Uyoku dantai.   
  2.      Natsuo, um prestigiado pintor que se vê a si mesmo como a "encarnação de um anjo" cuja existência é velada por uma entidade transcendental. A sua vida flui isenta de preocupações mundanas, porém, aquando de uma subida ao Monte Fuji, Natsuo é assaltado por uma visão do Apocalipse. Reflectindo sobre a sua posição no Mundo, e ciente do sucesso e bem-estar material e espiritual que o bafejam, receia, contudo, a inveja e as intrigas dos seus pares. Natsuo contempla o suicídio no zénite da sua carreira como uma possibilidade de escape, mas no momento de se decidir o seu destino é visitado por uma nova visão que lhe transmite que "aquilo que vê e o 'ele-que-vê' são um só em uníssono"
  3.     Osamu, um actor. Consumido pelo mais concupiscente narcisismo, o ocioso Osamu é um cínico entediado. Descrente da arte e vida de palco que lhe dá sustento, intriga-se sobre o valor da sua própria existência e sobre o enfado que lhe consome os dias. Envolvendo-se com uma poderosa proprietária, credora de sua mãe, Osamu descobre o prazer na dor carnal e a luxúria própria de uma relação sado-masoquista com a amante que o 'comprou' (a troco de um perdão das dívidas que pesam sobre o negócio da mãe), processo que o arrasta a uma perigosa obcecação com a ideia de ambos se unirem eternamente no acto final e grandiloquente de um duplo suicídio...
  4.      Seiichirō, um negociante de sucesso. Seiichirō é um típico e respeitável 'shōsha'in' (商社員), um executivo de negócios de uma grande corporação, tipo social emergente do Japão do Pós-Guerra. Na sua juventude, Seiichirō viveu intensamente os brutais dias dos 'Daikūshū'a impiedosa e devastadora campanha de bombardeamentos levada a cabo pela aviação Americana sobre Tóquio e demais cidades do Japão desde os primeiros meses de 1945, com 'especial' recurso a bombas incendiárias de elevado poder destrutivo que reduziriam a capital imperial a um desolado deserto de cinzas entre Fevereiro e Agosto do último ano de guerra —, e cuja memória lhe assola a existência. Na verdade, Seiichirō recorda os dantescos incêndios que consumiriam a sua Tóquio natal nesses derradeiros dias da Guerra com o inconfesso sentimentalismo de uma lânguida nostalgia com a qual embriaga o espírito, saudando essas distantes noites de titânicas labaredas devorando o Ginza da sua mocidade, como o único tempo da sua vida que o fez sentir verdadeiramente vivo! O Mundo, através dos seus olhos fixos no horizonte toldado pelos novos edifícios dos anos da reconstrução, acha-se condenado à hecatombe, mas Seiichirō conduz a sua vida e tarefário com exemplar diligência e escrúpulo, seguindo lealmente o lema de 'viver a vida de outrém como a mais convencional das vidas'. Vem a casar-se com a filha do patrão e posteriormente é enviado para Nova Iorque como representante cimeiro dos negócios da sua empresa na América. Seiichirō 'sofre de uma doença incurável: a Saúde'...   


            "A Casa de Kyoko" será certamente e também um retrato do Japão do seu tempo — a década de 50, pouco mais de um decénio adentro sobre o término da Guerra que tanto marcara Mishima e a sua geração —, mas sobressai desde o primeiro instante como um retrato do artista enquanto homem na meia-idade, dissecação minuciosa de um universo privado que a década seguinte revelaria mais detalhado e em toda a sua dimensão: todos e cada um dos personagens de "Kyoko No Ie" representam, inequivocamente — e todos os leitores da dita logo assim o compreenderam desde a primeira hora —, uma e várias das muitas facetas do escritor. Não causarão, pois, espanto de maior a perplexidade e angústia que se abateram sobre Mishima ao tomar conhecimento de que estava perante o seu "primeiro grande fracasso", como um certo sector da crítica logo tratou de rotular este ambicioso edifício literário de mais de novecentas páginas de manuscrito original...

           Mishima procuraria, ele mesmo, apresentar justificativo para o (relativo) fiasco da sua obra de quase mil páginas de extensão: "O pintor representa a persistência da sensibilidade, o pugilista, o ímpeto da 'acção', o actor, a consciência de si-mesmo, e o executivo, um estado de compromisso com o Mundo e a Vida tal como ambos se (lhe/nos) apresentam. É natural que, sobre as personalidades dos quatro, recaia a expectativa de que todos e cada um se convertam em abstracções purificadas. " 


             Não.
          Não irei maçar-vos mais alongando-me na exposição da minha interpretação pessoal do conteúdo e significado profundos desta obra. Prefiro antes acicatar o vosso interesse recorrendo à aludida 'natureza profética' da mesma, nas palavras de John Nathan:


      "Kyoko's House was to Mishima's thirties what Confessions of a Mask was to his twenties. Both works are an accounting testimony to an astounding degree of self-knowledge; both works constituted in themselves a process of self-discovery. There is no knowing wether Mishima knew he was predicting his own fate when he wrote Kyoko's House. But one thing is certain; the developments of the sixties, the shift to the politics of the Right which culminated in Mishima's "patriotic" suicide, did not suddenly appear. Surely all the elements were there by 1958 and just as certainly Mishima was sensible to them."



        Só continuo sem entender porque motivo permanece esta obra por traduzir e editar entre nós. 
           Indecifrável enigma (aparentemente).

         Mas se nos próximos tempos ninguém se chegar à frente, quem se lhe atira de garras afiadas sou eu!...

          Nem que seja só para consumo privado.









Theme: "Orson Welles' Great Mysteries" [1973 - '74] by John Barry 



Bibliografia:




  • Mishima, Yukio: 「鏡子の家」, 新潮文庫 [Shinchō Bunko], Tokyo, 1959.
  • Nathan, John: "Mishima, A Biography", Tuttle Publishing, Tokyo, 1975. 
  • Stokes, Henry Scott: "The Life and Death of Yukio Mishima", Tuttle Publishing, Tokyo, 1975.

domingo, 14 de novembro de 2010

De Uma Moderna Nostalgia








Dei com esta relíquia num bazar local, mas não a reclamei.

O preço? 
Uma exorbitância gananciosa que nem aos mais devotos coleccionadores acena. 
E ensinava-nos Goethe que os coleccionadores são pessoas felizes
Pois que o sejam, mas assim não.
É nave na qual não embarco, não porque não queira mas porque não posso.
Cruzeiro que só contemplo na distância desses catálogos que anunciam exóticas aventuras...

Single, 7", 45 RPM.

Interpretado pelo protagonista desta jornada e acompanhado à guitarra pelo talento de Fukazawa Shichirō, de quem vos falava ainda há poucas semanas, o tema é cativante. 

Traz o mood parisiense da época. Aquele abanar de ancas de um L'Eau à La Bouche / Chanson De  Prévert. E fica sempre bem numa moldura.  A capa pelo menos. 

É seguir sonhando...