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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Da Euforia à Hecatombe (II)






Singapura conquistada, Fevereiro de 1942

  • Os Anos da Euforia (II.a)



计划*

"Ao optardes pela guerra, primeiro calculai-lhe os custos (...)
O fim último da guerra não é mais que a vitória.
Se est'última se atrasar, as armas perderão aprumo 
e o moral dos homens dissipar-se-á (...)
E ao avançar contra múltiplas cidades, a força dos exércitos dispersar-se-á.
Em guerras que se arrastam, os recursos comuns de um estado não hão de bastar.
Quando as armas perdem aprumo e o ardor dos homens esmorece,
quando as forças e os tesouros se esgotam,
outros estados na vizinhança cuidarão de tomar vantagem 
da vossa dificuldade em prosseguir.
E mesmo que vos precaveis pela prudência de sábios e leais conselheiros,
não haverá plano que heis de conduzir com sucesso 
e pelos tempos que se avizinhem.
E se heis de ver retumbantes vitórias em guerras breves,
 jamais as vereis em guerras que se arrastam.
Pois que nunca houve guerra que se arrastasse,
que estado, fosse ele qual fosse, dela colhesse proveito."






SUN TZU, "A Arte da Guerra" [孫子兵法], 
Capítulo II: "De Como Fazer A Guerra" [作戰]*   











   Antes que possamos prosseguir — e porque as imagens que estimulam o espírito de reflexão, uma vez destituídas da substância dos factos, se arriscam, assim, a promiscuir-se com a pornografia própria da crueza que lhes assiste, e, desse modo, a reduzir-se ao mero e indolente espectáculo da História feita entretenimento —, façamos então uma revisão da matéria dada.

     Para um país parco em recursos naturais necessários a uma industralização galopante, no início do último século, o controle político e militar de extensas áreas onde os mesmos abundassem, surgia como a opção óbvia para um Japão que, em menos de cinquenta anos, se promovera directamente, e num esforço sem paralelo na História, de sociedade feudal e atrasada a estado plenamente industrializado e na linha das grandes potências mundiais do seu tempo. 

   As grandes vitórias militares da Primeira Guerra Sino-Nipónica de 1894-95 e da Guerra Russo-Nipónica de 1904-1905 — guerras breves e categoricamente vencidas mediante três, quatro golpes certeiros e decisivos infligidos ao inimigo — haviam aberto as comportas de uma ambição maior e mais audaz, no sentido de uma indisfarçada expansão territorial no continente asiático e até onde os meios político-diplomáticos, militares e navais ao dispor do Império do Sol Nascente lhe permitissem estender a sua esfera de controle e influência. 

   As sementes da ideia de uma 'Grande Esfera de Co-prosperidade para a Ásia Oriental' (大東亜共栄圏, Dai'Tō-A Kyōeiken) — fórmula via de regra atribuída a Matsuoka Yosuke,  que  daria o leitmotiv para o ímpeto agressivo das décadas de 30 e inícios de 40,  e a seu tempo re-interpretado como pouco mais que um rebuscado eufemismo para um ambicioso império ultramarino a estender-se da Ásia-Pacífico ao Índico e sob as rédeas do Trono do Crisântemo — haviam, pois, sido semeadas em plena viragem do século, graças à espectacular ascensão do Japão de Meiji enquanto potência maior, militar e economicamente falando. 

   Já os avanços do Exército Kwantung (à revelia da vontade expressa de Tóquio em sentido inverso) sobre a Manchúria, a partir de 1928, e em plena guerra aberta (ainda que não declarada) com o regime Nacionalista de Chiang Kai'shek desde o Incidente de Mukden em Setembro de 1931, haviam, desde o seu início, se visto ensombrados pelo alvor de uma nova ordem mundial pós-Grande Guerra de 1914-18, que ao distante e distinto Japão impusera todo um quadro institucional inteiramente novo e agora notoriamente incompatível com as suas reivindicações expansionistas no continente Asiático — processo iniciado com o Acordo Lansing-Ishii de 1917, ainda em plena I Guerra Mundial, e a adesão ao Convénio da Liga das Nações de 1919 (em cujo texto os representantes do Japão, Makino e Chinda, insistiriam na inserção de uma cláusula que expressamente reconhecesse um princípio geral de igualdade racial entre povos, e paralelamente ao princípio/cláusula referente à igualdade religiosa, proposta esta  liminarmente rejeitada por Woodrow Wilson e a delegação Norte-Americana... — e prosseguido com as Conferências e Tratados Navais de Washington (1921-22, Tratado das Cinco Potências em particular) e Londres (1930), de permeio com o Pacto Kellogg-Briand (de 1928, que instituiria a noção jurídica do que viria a designar-se por Crimes contra a Paz), e os Tratados das Quatro e das Nove Potências (neste último, Portugal figurando como signatário e enquanto detentor de interesses específicos na China [Macau]).

      A crescente intransigência por parte das elites militares e políticas nipónicas em permitir que aquilo que agora denunciavam como uma 'intolerável e arrogante ingerência anglo-americana nos assuntos da Ásia', obstasse à legitimidade das suas ambições na Manchúria Interior — território vasto e pródigo em matérias-primas, e desde 1931 seccionada da grande China pelo Exército Kwantung, formalmente re-baptizado Manchukuo e confiado então a um governo fantoche nominalmente tutelado por um monarca na pessoa de Pu'Yi, o último Imperador da Dinastia Qing, a dinastia Manchu, última linhagem imperial a residir na Cidade Proibida, em Pequim, e a reinar sobre o Império do Meio, e até à proclamação da República da China em Janeiro de 1912 — arrastaria o Japão para o acumular das tensões internas e externas que desembocariam no processo conducente à Guerra do Pacífico

    O documentário que se segue, em cinco breves partes, resume, com louvável rigor e sem tomar partido ou aplaudir causas, assim me parece, os factos de maior relevância para uma compreensão sucinta dos termos que estenderam um conflito em particular opondo inicialmente o Japão à China, ao palco maior da II Guerra Mundial. Foi, salvo melhor opinião, a escolha apropriada.

   Da Grande Muralha a Rabaul e Guadalcanal, do Hawaii a Madagáscar — limite máximo do progresso militar Japonês, em 1942 —, os anos da euforia, das vitórias rápidas, porém inconclusivas, que arrastariam o Japão para uma cruel e agonizante guerra suicida contra os E.U.A, o Império Britânico, a França, a Holanda, ainda e sempre a China de Chiang e Mao, e ao cair do pano, last but not least, a U.R.S.S. ...

    À vossa apreciação.

   (... e a continuar)































*Do Mandarim arcaico  para 'Cálculo'
             — embora seja o Capítulo I da obra de referência atribuída a Sun Tzu, a ser via de regra interpretado como se tratando da parte referente ao tema da planificação da guerra (始计), é no Capítulo II que encontramos o segmento supra citado e a generalidade das considerações relativas ao planeamento do que hoje entendemos como a essência de uma economia de guerra.









◐ ◉ ◑



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Eterna Paz



Joe O'Donnell: 'Torched Airplanes', Fukuoka, 1945
Foto documentando uma queima, em grande escala, de aviões japoneses, enquanto parte do processo de desmilitarização geral do país, no imediato pós-derrota. A Base Aérea de Itazuke, onde esta fotografia foi tirada em finais de 1945, havia sido estabelecida dois anos antes e então adstrita ao Exército Imperial, que dela faria o principal centro de treinos dos seus Tokko'tai (esquadrilhas Kamikaze). O lugar é hoje o Aeroporto Internacional de Fukuoka, um dos principais centros de ligações aéreas do Japão ao continente asiático.

(Da Euforia à Hecatombe, I)

   No dia em que se assinalam 70 anos sobre o Shinshu'Wan Kogeki — 真珠湾攻撃, o ataque da aviação naval imperial de 7.12.1941 a Pearl Harbor, e como o mesmo é referido no Japão —,  mais do que reverter para as costumeiras evocações do antes, do porquê e do como — tudo potenciais presas fáceis de uma certa paranóia prodigalizada em múltiplas teorias conspiratórias e mitomanias que nos dias de hoje se reproduzem como coelhos em cativeiro e a propósito de tudo e mais alguma coisa —, afigura-se-me bem mais adequado convosco hoje partilhar uma mão-cheia de reflexões pessoais sobre o depois, e porque é bem mais esse depois que sobre o Japão de hoje ainda pesa, funesto, absoluto e intransigente, e mais que toda a restante memória histórica recente, e num tempo de mudança acelerada no cenário político e geo-estratégico da Ásia, a que assistimos hoje, impassíveis, pelo que urge, agora mais que nunca, agitar o debate — um debate que se quer sério, rigoroso e conclusivo.

   Foi em Setembro passado, se não me falha a memória, e, ao que creio, em jeito de antecipação da memória comum hoje invocada, que tive o privilégio de, em casa, um certo serão, visionar um documentário televisivo via NHK, onde a tragédia dos anos da Guerra se despia defronte das câmeras, com um despudor sem precedentes que aqui pudesse recordar a título de referência. 

   No dito programa, destacava-se uma impressionante colecção de testemunhos na primeira pessoa, saídos das bocas desses homens que a História do último século fez protagonistas à força de alguns dos mais medonhos episódios de desumanização em massa de que há memória, e como a imaginação comum de hoje mal consegue conceber algo assim ser possível. 

    Veteranos de Kokoda e Brigade Hill, combatentes das selvas da Nova Guiné — veneráveis idosos de hoje — e outrora destinados ao supremo sacrifício de defender até ao último homem posições desesperadas em território mais hostil que o próprio inimigo, meses e meses a fio cortados de abastecimentos e desprovidos dos mais elementares recursos necessários a uma sobrevivência condigna, assim entregues à inclemência da selva, do calor ardente dos trópicos, da doença e da fome, e tudo isto narrado num surpreendente registo em tom genericamente sereno e descomprometido, dissertando sobre o recurso à necrofagia e ao canibalismo como último expediente de sustento do corpo, num tempo de desespero e completo abandono do amanhã... 

  Os relatos sucediam-se numa cadência descritiva quase neutra, ainda que ponteada aqui e ali por sorrisos envergonhados, olhares cabisbaixos, silêncios agudos entre afirmações corroídas por emoções mal contidas, onde orgulho, mágoa e incredulidade se imiscuem e dissipam... Depoimentos de frente para a câmera, e sem trejeitos de língua, sem eufemismos, sem auto-comiseração.
   
   Um relato, porém, se destacava. Este, de rosto deliberadamente ocultado na penumbra das sombras de um quarto modesto, feito só da voz de quem, como uma arca de pesadelos que se abrisse à estupefacção geral, esgravatava o fundo da memória má e esmiuçava detalhes, detalhes de um horror inenarrável, e sem disfarçar a angústia do exumar da vergonha e da dor que se carrega uma vida inteira contra à vontade própria de quem ainda se afirma humano. E a voz concluía o seu depoimento com uma interrogação comovida e desarmante: "Que fui eu lá fazer?... Diga-me... Que fui eu lá fazer, miúdo de vinte anos, àquela selva?... Porquê passar o que ali passámos?... "

    O documentário prosseguia noite adentro, se bem me lembro, revisitando outros cenários, outras tragédias, outras más recordações desse tempo delas só feito, cápsula apertada de toda a dor de uma nação — a chacina de guarnições inteiras na defesa de cada frente indefensável, ilha a ilha, em vãs cargas de baioneta e sabre em riste, rechaçadas pela fria mecânica da metralha inimiga, o melhor da juventude de um país atirada em inúteis voos suicidas contra navios impávidos na arrogância da sua notória superioridade, a frente doméstica de '44-'45, o sofrimento jamais esquecido das populações civis, alvo das bombas de fósforo branco de Le May sobre Tokyo, Nagoya, Osaka, Kobe, Sasebo, Fukuoka, da tempestade de aço sobre Okinawa, da fúria atómica sobre Hiroshima e Nagasaki, e ainda a fome, a destruição, as labaredas a consumir casas, fábricas, escolas, templos, igrejas e hospitais, bairros inteiros; a orfandade de quem nunca entendeu o porquê de tanto sacrifício, tanta miséria, tanta devastação e tanta morte vã. 

      Um país inteiro, de milenar história e cultura, precipatado em menos de uma década para a sua quase-aniquilação total, eis o saldo final do aventureirismo belicista e inconsequente de um tempo hoje estranhamente distante.

    E ao fim e ao cabo, tudo se resume à incógnita dess'outro incógnito veterano da frente da Nova Guiné: "Que fomos NÓS lá fazer?... Porquê passar o que ali passámos?..."

    É impossível, pois, e face a tamanho mostruário de sacrifício apocalíptico, duvidar da genuinidade do pacifismo ainda dominante na sociedade nipónica de hoje, e ainda que a memória colectiva sofra a erosão, efeito da mudança dos ventos e marés da história mais recente, mormente quando o esporádico flectir do músculo militar de uma República Popular da China ou de uma Coreia do Norte ecoa o medo do esquecimento e da má ventura da guerra no horizonte.

  O pacifismo japonês enraizado na hecatombe de 1945 tem, portanto, mais-que-ampla razão de ser, e o anseio de Eterna Paz não peca, pois, por cinismo. Porém, e como em  Setembro de 2009, num artigo de opinião publicado então no Mainichi Shinbun e a propósito dos ecos do programa nuclear Norte-Coreano, nos recordava o Professor Iokibe Makoto, Presidente da Academia de Defesa Nacional do Japão, citando então Sun-Tzu: "Um país viciado na guerra aniquilar-se-á a si mesmo, mas um país que se esquece de como fazer a guerra será aniquilado por outros."


(A continuar)



太平洋戦争開戦ラジオ放送
(Anúncios radiofónicos à Nação, 1941-42)




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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tsar, ou o Inferno explicado às crianças




Царь-бомба — Tsar Bomba,
30.10.1961





   Assinalados 50 anos sobre a sua detonação ao largo da Baía de Mityushikha, Novaya Zemlya, Círculo Polar Ártico, a 30 de Outubro de 1961, hoje, e para memória futura, relembramos.


  Para que qualquer um de nós, comuns mortais, possa ter uma ideia da dimensão do poder destrutivo deste peculiar engenho do Juízo Final, bastar-lhe-á imaginar uma estrutura capaz de albergar cerca de 58 mega-toneladas de TNT, ou seja qualquer coisa com a altura e o diâmetro de base da Torre Eiffel...

      Recordemos ainda que o plano original para este brinquedo soviético era de o conceber com quase o dobro da referida potência explosiva — 100 mega-toneladas —, porém a sua concretização por esses valores revelar-se-ia inviável...

       Com a Tsar, a Guerra Fria atingia o seu auge, e com este o apogeu da capacidade auto-destrutiva da própria espécie humana... Algo de irrelevante, se for tomado em linha de conta que o relatório da comissão de análise do teste balístico de 30.10.1961 daria ogivas desta envergadura e poder destrutivo como impróprias para uso militar — afinal a intenção era só ver se conseguiam...



    ...E que a resposta Norte-Americana — após indignados protestos junto da Assembleia Geral das Nações Unidas, pela voz do seu então Embaixador Adlai Stevenson (VER: 2º vídeo que se segue) — resultaria nas Operações Dominic I e II: 105 bombas de hidrogénio e afins detonadas num espaço de pouco mais de seis meses — Abril a Novembro de 1962 —no Pacífico central e no Nevada Test Site, seguida de mais uma série de 48 ensaios, intitulada Operação Storax (1962-63)...  
    (Este breve compêndio audio-visual aqui trazido há uns meses poucos, permite visualizar melhor a troca de mimos...)






    Ainda acerca da Ivan, destacar que a mesma, ao que consta, teria dez vezes a capacidade destrutiva de todas as bombas usadas na II Guerra Mundial — uma pequena maravilha —, e de lá para cá o Mundo em que vivemos não parece ter merecido melhor atenção de quem possui ou pretende possuir caixas de Pandora como a Tsare ainda que a sua mais próxima sucedânea tenha, ao que consta, sido objecto de desactivação definitiva ainda a semana que passou: ambas as super-potências de há cinquenta anos somam juntas cerca de 10.000 ogivas estratégicas na sua posse (E.U.A.: 5021, Rússia: 4650), ao que cabe contabilizar ainda o somatória das das ditas potências menores (Grã-Bretanha, França, R.P. da China, Índia, Paquistão, República Popular Democrática da Coreia [do Norte], Israel [seguramente], e em breve a somar-lhe as da República Islâmica do Irão...)  





     Tempo ainda de recordar — e a fechar — o delirante humor negro de Stanley Kubrick pela voz desse inolvidável Doutor Merkwürdigliebe (o génio de um século de comédia, Peter Sellers de seu nome, no papel de uma vida a somar a mais dois na mesma película de 1964, inspirada nos eventos acima descritos), e a sua elucidativa explicação de uma certa 'Doomsday Machine' — provavelmente a melhor caricatura alguma vez concebida do mais absurdo e absoluto horror ali mesmo à nossa porta.













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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Das causas de morte de uma causa morta (à nascença)

Comício do então recém-legalizado Partido Comunista Japonês (日本共産党 — Nihon Kyōsan'Tō), 
Parque de Hibiya (日比谷公園), Tóquio, nas imediações do Kōkyo, 1946 
— sob vigilância do ocupante.
Autor incógnito. Imagem obtida d'AQUI.


    Ainda estive, confesso, para escrever sobre o assunto, maçando-vos com meia-dúzia de impressões que, seguro estou, a maioria sacudiria para vão de escada, ou, na pior das hipóteses, ainda suscitaria novas e assanhadas indignações desta feita não contra os tradicionais bodes expiatórios de serviço, mas sim contra este mísero e mesquinho... Enfim... não será por isso. É falta de pachorra mesmo, e de qualquer modo, por regra, bem o sabeis, abstenho-me de aqui discursar sobre o que lá vai dess'outro lado do Mundo, do qual já nada de bom espero faz muito tempo, e de cujos vícios aqui faço por me desintoxicar.


   Eu só lhe acrescentava mais uma ou duas observações de quem colhe o benefício da distância de aqui estar, mas a minha regra — supra invocada — foi feita para se cumprir e não será certamente este o assunto que fará a excepção.






"Shut up! Shut up!" 
(LOW VOLUME SUGGESTED)





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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Memória ausente

Soldado do Exército Kwantung — Força Expedicionária Imperial na China— em patrulha na Grande Muralha sob controlo militar Japonês, 1937. 
Com a  Trégua de Tanggu (31.05.1933) e após dois anos de guerra não-declarada, iniciada com o Incidente de Mukden em Setembro de 1931, o Exército Imperial assumia o controle do maior símbolo nacional Chinês.
(Foto da extraordinária colecção Atlantic)
            


         Foi por esta semana que ora finda, que se assinalaram 80 anos sobre o "Incidente de Mukden" (満州事変 — 'Manshu Jihen', em Japonês — 18.09.1931), a insidiosa operação militar com vista à ocupação (libertação, chamar-lhe-ão ainda algumas vozes teimosamente recalcitrantes...) da Manchúria, posteriormente rebaptizada Manchu'kuo

Mukden, 18 - 23.09.1931


         Operação militar meticulosamente planeada e executada por dois oficiais superiores do Exército Kwantung  — a força expedicionária, desde o final da Guerra Russo-Nipónica de 1904-1905, instalada no Norte da China e a pretexto de garantir protecção aos interesses económicos e às comunidades nipónicas locais —, Ishiwara Kanji e Itagaki Seishirō, e levada a cabo, ao que hoje sabemos, à revelia do Governo de Shōwa, não obstante, os seus efeitos seriam, enquanto fait accompli, sancionados pelo Imperador Hirohito e seus ministros, sendo os próprios Ishiwara e Itagaki, inicialmente objecto de uma reprimenda formal por parte de Tóquio, posteriormente louvados como heróis pela imprensa japonesa, forças armadas e governo e rapidamente promovidos na hierarquia e logo indigitados em cargos de superior responsabilidade... na China...

        

Parte 1 de um documentário televisivo sobre a história de Mukden, em Japonês, e para os mais interessados — o remanescente nas partes 2 e 3.
 
       Por cá e por estes dias, desta efeméride, nem uma nota de roda-pé num jornal, nem uma crónica que se lesse num site de referência, nada, zero.
         Normal que não haja  lugar a 'festejos', sobretudo por cá.
     Porém, e não sem nota digna de apreço, Mukden e os eventos desencadeados a 18 de Setembro de 1931, continuam a ser, por muitos, encarados como o primeiro dos preâmbulos do conflito que oito anos mais tarde tomaria a escala mundial, e sendo certo que em Setembro de 1931 ainda estávamos longe da inenarrável orgia de atrocidades que seis anos volvidos e com o estender da guerra à generalidade do território Chinês, o mundo viria a conhecer, horrorizado, certo é que Mukden não deveria ser esquecido, ainda para mais num tempo em que a sociedade japonesa e os media se preparam já para, em Dezembro, assinalar os 70 anos de um outro evento bem mais presente na memória de todos...


Já na China, o 18.09.1931 ninguém esquece. Jamais...




九・一八



terça-feira, 9 de agosto de 2011

9.8 — Nagasaki: Três Irmãos

Joe O'Donnell, "Japan 1945 — A U.S. Marine's Photographs from Ground Zero"


"As I approached the outskirts of Ground Zero, I came upon these three children. The oldest child was pushing the other ones on this makeshift cart. They stopped and looked at me, uncertain as to what I might do. I gave the oldest one an apple, he bit into it,then passed it to the next child. At once, a swarm of flies descended on the apple, but the children shared the apple in solemn silence, oblivious to the flies flying in and out of their mouths."



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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Shōwa



Retrato do Príncipe enquanto jovem estratega
— Dunkerque, França, Junho de 1921—:

Hirohito, então com 20 anos de idade, ao centro, jovialmente sentado num howitzer de costa, rodeado por dignatários da comitiva de 34  diplomatas, oficiais superiores das Forças Armadas Imperiais e conselheiros da Corte que o acompanhavam, então, no seu périplo de 6 meses pela Europa do Pós-Grande Guerra, ao estilo de um Pedro, O Grande. Menos de cinco meses após estes dias felizes, e face à incapacidade do pai, o Ten'Ō Taishō [大正天皇 — o Imperador Yoshihito], Hirohito assumiria a regência do Império.
  



           29 de Abril, Dia de Shōwa [昭和の日Shōwa-No-Hi], feriado nacional, e sendo dia reservado a uma reflexão sobre a totalidade da experiência de uma Era de importância cimeira  na História deste país (1926 — 1989), a experiência colectiva de uma nação, feita da vivência de sucessivas gerações numa continuidade ininterrupta de sucessos e fracassos e novos voos, e não tanto sobre o legado pessoal do Soberano que lhe deu o nome, ainda assim, o tema de hoje não poderia ser outro: Shōwa, o próprio.


    
   Ascético, insondável, inacessível, uma imagem que sempre cuidou — e outros mais por ele cuidaram — de passar aos seus contemporâneos e gerações póstumas, Hirohito, o Imperador, permanece, em larga medida, um enigma que, tão cedo — impressão nossa — não será deslindado de modo cabal e definitivo. Muito já foi escrito sobre o próprio. Porém, e efeito da imensa reserva oficial e cultural que sobre a figura do mesmo ainda hoje paira no Japão guardião da sua memória, e numa nota mais pragmática, o grosso do espólio documental e testemunhal que permitiria uma análise mais aprofundada do papel histórico do "Soberano da Paz Iluminada" por si realmente desempenhado nos anos mais críticos do seu reinado, certamente conservar-se-á por muitas mais décadas fechado a sete chaves...





  Ainda assim a minha sugestão de hoje, merecerá algumas apreciações de fundo que faço questão de partilhar, aqui e  hoje, convosco, quanto mais não seja porque é um dos bons livros que me veio a calhar à mesa de cabeceira no espaço do último mês e meio. 
  E confessando-vos de antemão que tomei em mãos a obra biográfica que hoje vos proponho, não propriamente a contra-gosto — não senhor! o tema interessa(-me) sem sombra de dúvida...—, mas logo ao folhear das primeiras páginas do prólogo/introdução, de sobrolho franzido e pé-atrás, não obstante — e achando-me ainda a alguma distância da última página da obra — "Hirohito and The Making of Modern Japan" de Herbert P. Bix, tem sido, surpreendentemente, uma agradável descoberta como leitura.   




   É que, concretamente, aquilo que logo leva o potencial leitor incauto a desconfiar — ou a logo abraçar — este tomo (consoante as inclinações a priori de cada um), é precisamente o facto de o próprio autor e editores da obra fazerem questão de  a apresentar, assim, logo à cabeça, como uma espécie de veemente libelo acusatório, de dedo delator em riste, apontado à cara do visado e sua entourage, e ao invés de uma mera biografia ou incursão sobre a vida e espírito de um homem e do seu tempo, o espesso volume de mais 800 páginas impressas,  parece querer chegar ao grande público leitor como uma espécie de ultimatum, denúncia empolgada de um mal oculto nas sombras de um passado infame, que urge sublimar e trazer à luz do dia. Sensacionalismo sensaborão? Opção editorial à assobiar aos dividendos do escândalo? Boas-intenções (de que o Inferno está cheio)? Um todo-nada de todas numa só jogada publicitária? Quiçá.  Não mais que um equívoco de contra-capa?... Também há dessas partidas.


Shōwa entre os seu leais súbditos
— Hiroshima, 1947 —
Ao fundo a "Cúpula de Hiroshima",
símbolo da hecatombe sofrida dois anos antes.

    Lancei-me na leitura de "Hirohito and The Making of Modern Japan" numa altura em carecia de uma leitura rápida, fluida, fugaz, de qualquer coisa que me ocupasse as noites sem grande preocupação de datas ou tarefas, e que simultaneamente me galvanizasse o espírito em torno de um tema de algum interesse à margem de tudo o resto, em suma, de puro entretenimento dirigido a um canto do meu intelecto. 
    Como tenho por hábito, procurei à partida, informar-me, antes de mais, acerca do autor da obra: Herbert P. Bix, académico de Harvard com um percurso lectivo demorado pelo Japão de sua predilecção, não me pareceu rosto suspeito de antemão.  Para todos os efeitos, a informação curricular disposta ao grande público apresenta-o como um intelectual sério, tendencialmente filiável num certo mainstream universitário Norte-Americano de matriz libertário-progressista (não lhe chamemos 'Left', there's no such thing for real in America, since McCarthy's witch-hunts... quem o disse? mas é mesmo assim...), e o nome Chomsky, ainda que saltando aos olhos entre as linhas dos acknowledgments de abertura não nos deverá induzir em erro... Em qualquer recurso, a intencionalidade do longo escrito em causa, não deixa grande margem para dúvidas acerca da sua natureza, e logo ao folhear das primeiras páginas — a título de exemplo, três passagens da secção introdutória: 

   "One of the most fascinating and complex political figures in twentieth-century Japanese history, Hirohito [Shōwa] began his reign in late 1926, on the eve of renewed conflict in Japan's relations with China. It continued for sixty-two years of war, defeat, American occupation and Cold War prosperity. During the first twenty years he was at the center of his nation's political, military, and spiritual life in the broadest and deepest sense, exerting authority in ways that proved disastrous for his people and those of the countries they invaded. Though the time span o his great Asian empire was brief, its potential was enormous. He had presided over its expansion and had led his nation in a war that cost (according to the official estimates published by governments after 1945) nearly 20 million Asian lives, more than 3.1 million Japanese lives, and more than sixty thousand Western Allied lives." (pag. 4)

    "(...) Acting energetically behind the scenes, Hirohito influenced the conduct of his first three prime ministers, hastened the collapse of political party cabinets, and sanctioned opposition to strengthening the peace machinery of the League of Nations. When resistance to his interventions provoked open defiance from the army, he and his advisers drew back and connived at military aggression.  From the very outset Hirohito was a dynamic emperor, but paradoxically also one who projected the defensive image of a passive monarch. (...)"  (pag. 11-12)

    "The history of the Shōwa monarchy and its justifying ideologies up to 1945 is inextricably bound up with the history of Japanese militarism and fascism; after that date it is connected to efforts by ruling elites to roll back occupation reforms, check Japanese pacifism, and regain the attributes of a great power-state (...) For more than twenty years Hirohito exercised, within a complex system of mutual constraints , real power and authority independent of governments and the bureaucracy. Well informed of the war and diplomatic situations, knowledgeable about political and military affairs, he participated in the making of the national policy and issued the orders of the imperial headquarters to field commanders  and admirals. He played an active role in shaping Japanese war strategy and guiding the overall conduct of military operations in China. In 1941 an alliance between Hirohito and his palace advisers on the one hand, and hard-line army-navy proponents of war against the United States and Britain on the other, made the Asia-Pacific War possible." (pags. 13-15)

  E o tom da introdução prossegue neste registo.


皇室 — Kōshitsu:
A Família Imperial,
Suas Majestades, o Ten'Ō 
Shōwa e a Imperatriz Kōjun e os filhos:
da esquerda, o Princípe Akihito (actual Imperador), o Imperador,
a Princesa Kazuko,a Princesa Atsuko, o Príncipe Masahito,
bébé no colo da Imperatriz, e a Princesa Shigeko.
(circa 1935)



   Posto isto, a nota verdadeiramente surpreendente desta obra reside no facto de que, texto adentro, Bix, no ensejo de fazer justiça ao biografado, acaba por se revelar estranhamente benigno e não raras vezes mesmo deveras elogioso para com o Monarca, retratando-o como um homem de grande sensibilidade e inteligência — contrariando a imagem do Imperador débil, quase-autístico e sobejamente alheado dos processos decisórios que ondularam, pelo seu reinado adentro, entre o trágico e o sublime, e que tantas outras obras displicentemente propagam —, perfeitamente consciente de si próprio, cientíssimo do peso da instituição e co-respectivas responsabilidades que em ombros carregou uma vida inteira, da dimensão do Mundo e teias que o envolviam e envolvem, um homem deificado e ainda assim nunca imune à mais natural consciência da sua própria humanidade. 

   Os capítulos dedicados à juventude, educação e formação de Shōwa (pags. 21 a 123), por exemplo, revelam um nível de pesquisa e documentação absolutamente irrepreensíveis, projectando, para mais, o leitor, e sem nunca perder o fio à meada, na intrincada complexidade de cliques político-partidárias e burocráticas herdada do sistema constitucional de Meiji, seu avô e da oligarquia restauracionista de 1870, a extensão das tensões geradas com o quase-vazio da instituição imperial durante o reinado de seu pai, a chamada 'democracia de Taishō', e ainda que o texto se revele lacónico em questões de detalhe — a título de exemplo: no que respeita aos seus cinco correligionários no Tōgū-Ogakumonjo (a instituição de ensino especialmente criada para a descendência de Meiji e para Hirohito em particular) os seus nomes nunca são revelados, sem que o autor  justifique a lacuna de modo peremptório, eximindo-se de o fazer sem, porém, descurar um único detalhe no que respeita ao protocolo e normas de conduta imperativas nas circunstâncias e à época —, no essencial constatamos estar perante uma investigação hermenêutica absolutamente notável, senão mesmo primorosa.

Em visita às minas de carvão de Mikkawako (三川坑), 
Mitsuimikenko (三井三池炭鉱),Fukuoka, Kyūsū, 1949.

   Um outro aspecto, onde Bix se revela particularmente meticuloso, prende-se com a defesa da idoneidade do Imperador enquanto cientista de reconhecidos méritos nos domínios da Ictiologia e Biologia Marinha (interesses legados ao seu sucessor, o Ten'Ō Akihito): onde outros questionaram em tom quase grosseiro o genuíno saber científico do Imperador enquanto entusiástico investigador nestes domínios das ciências naturais, Bix é peremptório na sua defesa — Hirohito era um cientista dedicado e, de pleno direito, reconhecível como tal — citando, para o efeito, documentação esmiuçada a título de prova desta afirmação.

  Contudo o segmento da vida e desempenho de Shōwa enquanto Soberano, que  (muito naturalmente) acaba por consumir a fatia de leão em  "Hirohito and The Making of Modern Japan" , é a secção dedicada à Grande Guerra da Ásia-Pacífico (1931/37 — 1945) que constitui, porventura, o maior melindre na  biografia em causa: neste campo Bix, nunca rebatendo os momentos em que a consciência do Imperador terá colidido de frente com o ímpeto belicista dos seus generais e almirantes, parece, ainda assim, querer à viva força retratar o Imperador como um vulgar criminoso de guerra desculpado por necessitas caret lege, subrepticiamente invocada  pelos vencedores-ocupantes de '45, e o esforço no sentido da prova desta alegação vai de tal modo longe, que Bix arrisca, neste domínio, perder-se por completo no rigor que diz reclamar (e reclama noutras partes) e meter os pés pelas mãos.





  Como acima esclarecia, ainda não concluí a leitura do tomo em apreço.
  Em qualquer caso, "Hirohito and The Making of Modern Japan", tem sido uma excelente leitura por estes dias ao cair da noite e à falta de outro entretém. 
  E do que a obra de Herbert P. Bix nos revela, um velho adágio Zen, que hoje me ocorreu, aqui sai vencido:

 明鏡無心(めいきょうむしん)"O Espelho copia a verdade"...

  Nem sempre assim é.





  Boa noite.






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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Da importância dos tais 'NanBan' explicada à miudagem...







「じろじろ ぞろぞろ」
("Jirojiro Zorozoro" intraduzível, assim me parece, mas a interpretação mais próxima deste original, onomatopeico título seria qualquer coisa como "Olhando os detalhes" [mas em rigor não é bem esse o conteúdo da expressão].)


       Souvenir da minha mais recente passagem pelo Kyūshū Kokuritsu Hakubutsukan — Museu Nacional de Kyushu —, em Dazaifu [太宰府], não podia deixar de partilhar convosco esta singela peça, um verdadeiro bestseller por estas paragens e um daqueles achados que, parecendo que não, tem sempre aquele benévolo efeito de espicaçar, um nadinha que seja, a nossa auto-estima colectiva, tão de rastos que ela anda nestes tempos, e é mesmo uma curiosidade a saudar com entusiasmo.





             Partindo de um dos mais famosos NanBan Byōbu — 南蛮屏風 — da Escola de Kanō — 狩野派 [Kanō-ha] —,  os tais "Biombos dos Bárbaros do Sul", representando a presença dos Portugueses dos Séculos XVI e XVII no Japão e, em particular, a colónia de Nagasaki, fundada  em 1571,  este "Jirojiro Zorozoro", pequeno livro para crianças, publicado pelo próprio Museu Nacional de Kyushu, percorrendo uma variedade de detalhes de manifesto interesse na obra de arte em causa e colocando a tónica nas imagens em detrimento do texto, explica, muito resumida mas ainda assim concisamente, a importância e a influência dessa remota herança da Dai'Kōkai Jidai— 大航海時代, literalmente "a Era das Grandes Viagens Marítimas" — na cultura nipónica.


            Uma pequena pérola a conservar e ideal para folhear ao serão em família.


Ora vejam!


見て下さい!