Foi com tristeza de sobra que, pela manhã de ontem, tive a oportunidade de apreciar uma breve reportagem televisiva que dava conta da crescente preocupação e antipatia de que os macacos da pequena cidade de Nikkō [日光市], Prefeitura de Tochigi [栃木県], têm vindo a ser objecto, com as vozes indignadas de alguns comerciantes e habitantes da pequena localidade a Norte de Tokyo-To, conhecida sobretudo pelo seu imponente Tōshō-Gū [東照宮], e seu famoso pórtico dos Três Macacos Místicos ou Três Macacos Sábios [三猿 — Sanzaru, em Japonês simplesmente "Três Macacos"], a subir de tom pedindo uma solução drástica para o problema dos pululantes símios que há séculos partilham o espaço da povoação e respectivos lugares de peregrinação com a população humana local, numa ancestral e sã convivência que parece hoje seriamente ameaçada face a um aparente crescendo de agressividade por parte dos pequenos primatas, algo a que não será estranho o crescimento populacional da região e o seu sucesso enquanto chamariz turístico próximo da capital.
Destino turístico de eleição para quem se encontre nas proximidades de Tóquio e, virtude de albergar alguns dos mais esplendorosos templos Budistas e santuários Shintoo do Período Edo — com destaque para o deslumbrante Tōshō-Gū —, Nikkō desde tempos imemoriais que acolhe igualmente uma expressiva comunidade local de Nihonzaru [ニホンザル/日本猿], os famosos macacos 'albinos' do Japão [nome científico: Macaca Fuscata], espécie nativa deste país e ainda em grande abundância um pouco por todo o território nacional, com excepção de Hokkaido e Okinawa.
Sucede que efeito aparente da pressão exercida pelo imparável afluxo de turistas à pequena localidade e consequente crescimento económico, urbano e demográfico, tem-se vindo a registar um proporcional crescendo de agressividade por parte destes (antes tidos por) simpáticos primatas, que entre ferozes ataques a crianças e adultos e não menos menosprezíveis furtos constantes em pequenas lojas de doçaria regional e afins — onde os omnipresentes omiyage (お土産 — doces ou outros pequenos souvenirs via de regra trazidos por visitantes de uma certa localidade, de regresso a casa, e para deleite de amigos e entes queridos) têm lugar de honra à porta desvelada dos ditos estabelecimentos —, parecem ter declarado guerra aberta ao turismo de Nikkō, principal fonte de dividendos da cidade.
Naturalmente, e em particular no que concerne aos Saru de Nikkō, a última coisa que eu queria aqui escrever seria uma crónica de uma deportação e/ou extermínio anunciados, ademais porque esta é uma espécie autóctone que me inspira o mais genuíno carinho e simpatia, e ainda que a irritação de algumas pessoas possa ter a sua razão de ser, esta é uma espécie que merece a mais benigna das protecções e afecto comum.
Felizmente, Nikkō não é a única região onde estes bonitos bichos podem ser contemplados no cenário de um salutar convívio com populações humanas estabelecidas — outras partes da ilha maior de Honshū e Kyūshū, ilha do vosso NanBan, e em particular a Prefeitura de Oita, são morada de grandes comunidades nativas de Nihonzaru, e por cá não se fazem, até ao momento, ouvir queixas de maior — pelo menos que seja do meu conhecimento...
Ainda assim, destaque e honra devidas são ao soberbo Jigokudani-Yaenkoen [地獄谷野猿公苑], inviolável santuário dos Nihonzaru de Nagano [長野県], em Yamanouchi [山内], um absoluto 'must' para aqueles que, pelo frio Inverno que aí vem, hajam de gozar do especial privilégio e felicidade de uma visita ao Japão central.
Mais sobre este imperdível, ermo lugar do melhor deste Japão que teima em dar mostras de si, AQUI, AQUI e AQUI.
Deixo-vos com dois bonitos clips a desbravar caminho entre os mais cerrados corações.