Os três actores já dados como certos no aguardado drama histórico de Martin Scorcese,"Silence", com estreia prevista para 2010: Benicio Del Toro, Daniel Day-Lewis e Gael Carcia Bernal.
Já é dado como certo:
Martin Scorcese avança mesmo este ano com a produção da sua tão aguardada quanto hesitada quanto adiada versão de "Silence" (Chinmoku - 沈黙 - no original), ou "Silêncio" para os mais empedernidos vigilantes da lusofonia.
Obra-prima de Shusaku Endo, publicada em 1966, "Silêncio" terá para mim, certamente um apêlo muito particular; para vós e para um certo público afectivamente atado quer a Portugal quer ao Japão, esta será, porventura, a (tal) obra de eleição - e isto, é ponto assente, quer se partilhe ou não dos sentimentos e preocupações de natureza religiosa que avultam pela obra adentro.
Ora aqui fica um ligeiro aperitivo a aguçar-vos o apetite:
O que terá levado um homem de inabalável fé e inestimável serviço à mesma, a, de um dia para o outro, renunciar-lhe?
Ano de 1614 - após quase seis décadas de acção missionária encabeçada pela missão Jesuíta em Nagasaki, a Cristandade no Japão sofre o pior dos revéses possíveis: o Shogunato dos Tokugawa, recentemente empossado de autoridade absoluta no país, e desta feita empenhado em banir toda e qualquer influência nefasta dos 'bárbaros do Sul' no Japão, decreta a proibição total do Cristianismo e enceta uma brutal e implacável purga dos fiéis de Cristo, expulsando clérigos - na sua maioria Portugueses e Espanhóis - e seus auxiliares e submtendo crentes e outros suspeitos de o serem a inenarráveis torturas destinadas a levarem todo e qualquer convertido à apostasia.
Face à encarniçada bestialidade dos algozes do Shogun, a maioria dos supliciados cedo se verga aos ditames da nova lei...
Mas há ainda os que, no epicentro de tamanha voragem, impassíveis face à razia, insistem em viver na Fé e dela fazer sua causa e bandeira - entre estes um certo prelado dos Jesuítas Portugueses, Cristóvão Ferreira de seu nome, que secretamente permanece por longos anos mais em plena Kyushu, baluarte do Catolicismo Romano em terras do Sol Nascente, recusando peremptoriamente abandonar o seu rebanho e reconhecendo ser esta a mais aflitiva das horas.

Chegádos a 1632, eis quando as notícias trazidas a Roma anunciam o inimaginável para espanto geral e até dos mais cínicos: capturado e submetido à tortura, Ferreira apostatou... sem sequer hesitar!...
De entre os mais incrédulos, dois dos seus discípulos de outrora, Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe, decidem empreender a viagem de todos os riscos, a fim de desvendarem a verdade sobre a apostasia de Ferreira...
Este é, sem sombra de dúvida, para mim, território perdilecto para o mesmo Scorcese de"Mean Streets" (1973), "Taxi Driver" (1976) e d'"A Última Tentação De Cristo" (1988).
Para além do realizador em comum, que têm estes filmes de tão próximo entre si e com o romance de Endo? perguntar-me-ão.
Resposta: os mesmíssimos temas sempre estiveram lá - a Homem enquanto recptáculo de sofrimento, exposto à dúvida, à falha moral, à traição, à queda em desgraça, e, ainda assim, sempre movido por uma misteriosa necessidade de redenção.
Pela alta referência que sempre tive em Scorcese, mas também pelas muitas decepções a que me habituei da parte dele nos últimos quinze ou vinte anos, tanto podemos esperar - de"Silence" - uma obra digna de standing ovation como o mais perfeito logro.
O projecto para "Silence" ao que se sabe é antigo - consta que Scorcese vem sonhando em fazer este filme vai para mais de dez anos - e só por efeito de contratempos vários, outros projectos e solicitações, terá ficado na gaveta este tempo todo à espera da altura certa.
Um elenco de primeira água também parece já ter: Daniel Day-Lewis e Benicio Del Toro estão já dados por garantidos e Gael Garcia Bernal também consta da casta dos eleitos para os papéis 'ocidentais'. Resta saber a quem ficarão destinados os papéis 'nipónicos'.
De Scorcese espera-se sempre muito - dele espero eu sempre muito.
Para este "Silêncio" a bitola está já muito alta.