Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ainda e Sempre, Novembro (Luzes, Câmeras, Acção...)






11.25: 自決の日、三島由紀夫と若者たち。(2011)



      A princípio, mais que surpresa, a notícia causa estranheza.
      Depois, e após alguma reflexão, tudo faz sentido: afinal tinha mesmo que ser este, o passo seguinte e mais que óbvio, assim vindo de quem vem.

    Wakamatsu Kōji [若松孝二], oriundo do meio proto-marginal do Pink Eiga (Soft Porn/Sexploitation versão japonesa) das décadas de 60/70 do século que lá vai, e enquanto realizador sempre colheu no fértil território do tabu, o melhor da sua obra. É hoje, certamente, o último cineasta de substância num país que já prometeu muito mais ao território da Sétima Arte. 
         E é precisamente em temas de teor incómodo, que Wakamatsu tem, ao longo da última década, demonstrado uma faculdade única de re-invenção do cinema japonês, partindo da honesta assunção de que o país do tudo-no-seu-devido-lugar esteve sempre, e desde tempos imemoriais, no limiar dessa explosão potenciada por um sem-número de ímpetos transgressivos face a uma ordem social tida por quase-perfeita.



  



     Assim sendo, e depois de "United Red Army" (実録・連合赤軍 あさま山荘への道程, Jitsuroku Rengo Sekigun: Asama sanso he no michi [2007]) — análise desencantada da extrema-esquerda nipónica encarnada no Rengō Nihon Seki Gun (Exército Vermelho Unido do Japão), célula terrorista saída de moldes idênticos aos de um R.A.F./Baader-Meinhof e Brigate Rosse, e tomando a barbárie de Asama-Sanso (1972) por ponto de partida —, seguido de "Caterpillar" (キャタピラー [2010], Urso de Prata para Melhor Actriz [Terajima Shinobu] no Festival de Berlim de 2010) — autópsia do horror da guerra, pelas mãos e olhos da mulher de um 'herói nacional' tão deificado quão desfigurado até ao limite do grotesco...—, filmar, logo de seguida, os eventos conducentes ao 'Incidente de Ichigaya'  (25.11.1970), Mishima e os Tatenokai, tinha naturalmente que ser o desenlace apto a dar continuidade (e não necessariamente conclusão) ao confronto desse Japão auto-anestesiado, com os monstros do seu passado recente.




       "11.25: Jiketsu No Hi, Mishima Yukio To Wakamono Tachi" [11.25: 自決の日、三島由紀夫と若者たち — "11.25: O Dia do Sacrifício, Mishima Yukio e a Juventude"] , segue a par e passo a sequência de factos conducentes ao duplo suicídio de Yukio Mishima e do seu lugar-tenente Morita Masakatsu, a 25 de Novembro de 1970, em pleno Quartel-General do JIEITAI, após uma tentativa fracassada de sublevação militar com o fito de anular a Constituição de 1947 — um tema já amplamente debatido neste espaço, pelo que, e a título de referência, me permito remeter-vos para os textos já aqui antes trazidos a respeito destes e de outros eventos, recordando apenas que o caso em si, permanece, 41 anos volvidos sobre o mesmo, como um misto de tragicomédia negra, mito e intolerável embaraço num país que ainda se debate, hoje, com o mistério insolúvel das motivações por detrás da morte do seu mais celebrado escritor do Século XX.


      A ante-estreia foi já agendada para 27 de Novembro, aqui.
      Espero sinceramente que seja um grande filme, digno dos espíritos que invoca. 
      E, a sê-lo, que chegue até vós.
     















❀ ❀ ❀






segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tsar, ou o Inferno explicado às crianças




Царь-бомба — Tsar Bomba,
30.10.1961





   Assinalados 50 anos sobre a sua detonação ao largo da Baía de Mityushikha, Novaya Zemlya, Círculo Polar Ártico, a 30 de Outubro de 1961, hoje, e para memória futura, relembramos.


  Para que qualquer um de nós, comuns mortais, possa ter uma ideia da dimensão do poder destrutivo deste peculiar engenho do Juízo Final, bastar-lhe-á imaginar uma estrutura capaz de albergar cerca de 58 mega-toneladas de TNT, ou seja qualquer coisa com a altura e o diâmetro de base da Torre Eiffel...

      Recordemos ainda que o plano original para este brinquedo soviético era de o conceber com quase o dobro da referida potência explosiva — 100 mega-toneladas —, porém a sua concretização por esses valores revelar-se-ia inviável...

       Com a Tsar, a Guerra Fria atingia o seu auge, e com este o apogeu da capacidade auto-destrutiva da própria espécie humana... Algo de irrelevante, se for tomado em linha de conta que o relatório da comissão de análise do teste balístico de 30.10.1961 daria ogivas desta envergadura e poder destrutivo como impróprias para uso militar — afinal a intenção era só ver se conseguiam...



    ...E que a resposta Norte-Americana — após indignados protestos junto da Assembleia Geral das Nações Unidas, pela voz do seu então Embaixador Adlai Stevenson (VER: 2º vídeo que se segue) — resultaria nas Operações Dominic I e II: 105 bombas de hidrogénio e afins detonadas num espaço de pouco mais de seis meses — Abril a Novembro de 1962 —no Pacífico central e no Nevada Test Site, seguida de mais uma série de 48 ensaios, intitulada Operação Storax (1962-63)...  
    (Este breve compêndio audio-visual aqui trazido há uns meses poucos, permite visualizar melhor a troca de mimos...)






    Ainda acerca da Ivan, destacar que a mesma, ao que consta, teria dez vezes a capacidade destrutiva de todas as bombas usadas na II Guerra Mundial — uma pequena maravilha —, e de lá para cá o Mundo em que vivemos não parece ter merecido melhor atenção de quem possui ou pretende possuir caixas de Pandora como a Tsare ainda que a sua mais próxima sucedânea tenha, ao que consta, sido objecto de desactivação definitiva ainda a semana que passou: ambas as super-potências de há cinquenta anos somam juntas cerca de 10.000 ogivas estratégicas na sua posse (E.U.A.: 5021, Rússia: 4650), ao que cabe contabilizar ainda o somatória das das ditas potências menores (Grã-Bretanha, França, R.P. da China, Índia, Paquistão, República Popular Democrática da Coreia [do Norte], Israel [seguramente], e em breve a somar-lhe as da República Islâmica do Irão...)  





     Tempo ainda de recordar — e a fechar — o delirante humor negro de Stanley Kubrick pela voz desse inolvidável Doutor Merkwürdigliebe (o génio de um século de comédia, Peter Sellers de seu nome, no papel de uma vida a somar a mais dois na mesma película de 1964, inspirada nos eventos acima descritos), e a sua elucidativa explicação de uma certa 'Doomsday Machine' — provavelmente a melhor caricatura alguma vez concebida do mais absurdo e absoluto horror ali mesmo à nossa porta.













☠ ☢ ☠ ☢ ☠ 



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Ao Fim E Ao Cabo...





「砂の女」  [Suna No Onna] — Woman In The Dunes — 1964
dir.  Teshigahara Hiroshi [勅使河原 宏]



「孤独とは、幻を求めて満されない、渇きのことなのである。」

"...a solidão não era mais que uma sede insatisfeita de ilusão."





Abe Kōbō, "A Mulher das Dunas", 1962












"Avalanche"





◇⃟⃟◇⃟⃟◇⃟⃟




terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Digam lá o que disserem...


















O "Casablanca" da nossa geração.
      








Muito mais que um filme, um autêntico tratado sobre cinema.

Nunca me canso de o dizer.





quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

E Vão Cinquenta





 "Yojimbo" — 用心棒 
(1961)
de Akira Kurosawa




Mifune e Nakadai em desempenhos de uma vida. 
Inspiração de inúmeras outras obras de referência.
E o arrepiante original music score de Satō Masaru [佐藤勝], no mesmo panteão de Herrmann, Mancini, Rota, Morricone e Barry.


Outra obra-prima a celebrar este ano o seu 50º aniversário, e a rever. 
Obrigatoriamente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

De Quem Dobra O Cabo Do Tempo...








     Impressionante como este filme concebido há precisamente 30 anos se mantém absolutamente incólume no seu incomparável génio — isto sim, a verdadeira Glória de quem dobra o Cabo do Tempo e por ele passa sem mácula...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Uma Odisseia




É facto que, há vários anos atrás, quando vi este filme pela primeira vez, não fiquei nada bem impressionado.

Creio que o aspecto, na altura, que mais me feriu foi o 'casting' que me pareceu terrivelmente desajustado do mínimo exigível (o 'meu [nessa época] mínimo exigível'), sobretudo no que respeita à escolha do saudoso Ogata Ken [緒形拳, 1937 - 2008] para o papel principal — Mishima em plena maturidade.
Creio que também, à época, não gostei nada das constantes altercações entre preto-e-branco e os tons berrantes a querer-ser-deliberadamente-kitsch que consomem os capítulos dedicados às obras escolhidas do homenageado. Creio também, e se a memória me não falha, que não estava, então, minimamente em sintonia com as orquestrações minimal-repetitivas (assim o terei interpretado na altura) de Philip Glass
Mas na altura era um catraio que nem sabia o que queria nem do que gostava ou deixava de gostar.


Revisitado por mim recentemente, virtude da aquisição de uma re-edição em DVD da qual há dias vos falava — de início com os olhos postos mais nos suplementos documentais que integra como 'piscar-de-olho' aos potenciais interessados, do que na película que lhe dá o mote...— agora quero afirma-lo com todas as letras: 
este "Mishima: A Life In Four Chapters" de Paul Schrader é pur'e simplesmente um MONUMENTO de assombro — a mais bela homenagem que alguém, algum dia, poderia ter prestado ao Homem (assim mesmo com "H" grande, que é como deve de ser!!) 
Um portento.
É guião, é actores, é cenários, é fotografia, é guarda-roupa, é a música do arco-da-velha,  é luz, é som... é TUDO! É simplesmente TUDO.  TUDO.  TUDO. 


Se ainda não viram, vejam! 


Mas vejam mesmo.


E já agora: regresso ao tema de ontem... 



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Gentleman Turned Gangster







     "You could feel the force of his imagination (...) I (still) think of him as part gentleman, part gangster..." 

Henry Scott Stokes, no documentário 








"Karakkaze Yarō" — からっ風野郎 — "Um Gajo Duro" 
("Afraid To Die", na versão americana)
filme de 1960,  realização de Masumura Yasuzo [増村保造],










Trailer










Stills

































E ainda, da extensa memorabilia e afins que entretanto vão por aí surgindo, 
esta pérola que já não sei onde a descortinei:



terça-feira, 12 de outubro de 2010

Fantasmas De Um Outro Outouno/ "Seventeen" [セバンティーン] / "Patriotismo" [憂国 — Yūkoku]




...E já lá vão precisamente cinquenta anos que o impensável, num país (que nem sempre foi) de brandíssimos costumes, teve lugar e a célebre foto acima reproduzida foi captada num fulminante click pela mão de Nagao Yasushi, à época um jovem fotógrafo de trinta anos ao serviço do Mainichi Shimbun — 毎日新聞 —, valendo-lhe um precoce Pulitzer Prize no ano seguinte (confesso que continuo sem entender de onde provém esse apetite mórbido, quasi-pornófilo [ainda que admitindo que nem sempre assim exclusivamente seja] por parte da Associated Press/A.P., LIFE magazine, de quem mais tem por incumbência retratar o mundo em toda a sua dimensão, e bem assim de sucessivos júris do Pulitzer, por imagens que na melhor das hipóteses se limitam a celebrar o pior da espécie humana... mas enfim... ora, dizia eu?... Ah pois!... adiante...), e a história do assassinato do Secretário-Geral do Partido Socialista do Japão, Asanuma Inejiro, em 12 de Outubro de 1960, pouco mais teria que se lhe diga que não podeis, numa breve pesquisa via Google, apurar por vós próprios, de sumário interesse, não fosse a mesma ter suscitado, à época, a par de outras mais emotivas reacções, um inesperado desenlace no domínio das Artes e Letras de então, e tanto por intermédio do génio de duas personalidades opostas nesse peculiar tempo de muitas incertezas.

É uma história pouco conhecida e boa demais para ficar por contar.
Dei com a mesma, há uns anos poucos entre as páginas de uma das melhores biografias de Mishima Yukio, essa lavrada da pena de John Nathan que já aqui, outrora, neste TLNBJ, ousei citar extensivamente, e que hoje, por imperativo do tempo que é escasso, torno a trazer à baila, desta feita no respectivo Inglês original e porque assim mais convém.

Trata-se da génese de duas obras marcantes de uma certa literatura fortemente polarizada (e politizada) da década de 60, uma sobejamente conhecida da maioria de nós (assim me quer parecer), e que daria ainda lugar a uma película de particular interesse, em especial para esses 'coleccionistas' como eu que nunca se cansam de esgravatar nos terrenos e entre as relíquias dess'outra 'arqueologia do presente' e em particular no que ao Japão respeita, e uma outra um tanto mais obscura mas de não menor valor, sobretudo se e quando tomada como retrato mordaz de um outro universo privado, feito de inconfessáveis inclinações, tão japonês a seu modo, tão torturado e tão tortuoso, um que de tempos a tempos se ergue de entre outras sombras e lugares de má memória.
Mishima e a esposa, Yoko, durante as filmagens de
"Yūkoku [憂国] — Patriotismo", Abril de 1965




   Haveria, certamente, que lançar mão a um sem-número de antecedentes e detalhes de superior interesse para esta história, e para que a mesma pudesse ser contada na íntegra, em todo o seu esplendor, e a ponto de não ficarem quaisquer dúvidas a pairar no ar...

     Lamento, mas assim não poderá ser — lá temos mesmo que passar à narrativa e sem ceder a mais compassos de espera, porque esta história, em si, é longa e esta é, sem sombra de dúvida, a melhor síntese da mesma que até hoje me coube em mãos, e pela qual este artigo se propôs publicar.

    E assim e acerca das origens de "Patriotismo", conto de Yukio Mishima, assim como das de "Seventeen", conto de Kenzaburō Ōe, conta-nos John Nathan:

«"Patriotism" [憂国 — "Yūkoku"], is the earliest indication that Mishima's quest for death was leading him to Shinto mysticism and emperor worship. Before long his newly found faith in the emperor would become the basis of a nationalism, and a politicized Mishima would emerge. But just beneath the surface of the politics was the old desire for death. There is nothing unusual about a man who has never required faith abruptly embracing religion when he learns that he must die. But surely the reverse is quite extraordinary: the "patriotism" Mishima began to formulate in the summer of 1960 was in essence his attempt to acquire faith in order to die.
«"Patriotism" appeared in the January 1961 issue of the Shōsetsu Chūōkōron [小説中央公論].
That same month, the twenty-five-year-old novelist Kenzaburō Ōe published in another magazine a portrait of a fascist as a young man called "Seventeen" [セヴンティーン], which was every bit as sardonic as "Patriotism" was solemn. In fact "Seventeen" was a brilliant and vicious attack on precisely the values that "Patriotism" exalted. The seventeen-year-old hero is a paranoid, convinced that people need only see "the pallor of his face and the cloudiness of his eyes" to perceive that he is a "chronic masturbator". The thought fills him with homicidal rage; he wants to "kill them, everyone of them, with a machine gun." But he cannot stop masturbating, because he needs the "sense of power" he experiences on ejaculation. The rest of the time he feels impotent in the face of "others" and of "eternity." When he hears for the first time in physics class about "infinity" and a "world of nothingness" he loses consciousness, soiling himself as he crumples to the floor. And he is sickened with fear at the thought of death, of having to endure nothingness "eternally a zero." One day a friend takes him to hear a rightist ranting from a soapbox. Until then he has always wanted to be on the Left, "because it felt better." But as he listens he understands suddenly that the "enmity and hatred he required to hold his own against the world" can come only from the Right. He joins the Imperial Way Party. When he puts on the party uniform he feels "armored in the Right" and knows that "[his] mushy, weak, easily injured and unsightly insides" are no longer being observed by others. Now he begins to study the Imperial Institution, and in a book called "The Emperor As An Absolute" he finds the clue that he's been searching for: "In fealty there can be no individuality." The young fascist understands at once: the Emperor has "commanded [him] to cast away his individuality." He does so, and knows "bliss." Vanished entirely is his sense of himself as powerless, ludicrous, contradictory, and out of place. He exults, masturbating: "Even if I do die, I will never perish. Because I am nothing more than a young leaf on a branch of a giant eternal tree called His Majesty the Emperor. I will not perish eternally! My fear of death has been conquered. Ah, Your Majesty, you are my god, my sun, my eternity. In you, by you, oh, I have truly begun to live!"



«The shocking coincidence of "Patriotism" and "Seventeen" was very likely a coincidence with an explanation. On October 12, 1960, the chairman of the Socialist Party, Inejiro Asanuma [浅沼稲次郎], was assassinated by a young rightist named Yamaguchi. Asanuma was delivering a speech when Yamaguchi charged headlong down the aisle of the auditorium, leaped up onto the speaker's platform, and ran him through with a short sword, the traditional weapon of the Japanese terrorist. A news cameraman happened to record the assassination on film (very much like the Zapruder film of President Kennedy's assassination in it's impact on the Japanese) and subsequently it was witnessed by the whole world. There is little question that Ōe had Asanuma's assassin in mind when he wrote "Seventeen". And it is not unlikely that Mishima was "inspired" by the same incident. Certainly terrorism was beginning to exert a special fascination over him at just this time. And this incident in particular was exciting to him because the assassin conformed to his idea of the hero by hanging himself in jail , thus demonstrating his "sincerity." In 1968, when asked at a teach-in for his opinion of Yamaguchi, Mishima replied: "He was splendid. As you know, he took his own life afterward. In dying that way he was being faithful to the letter of Japanese tradition."


The Asanuma assassination was not the only indication that leftist opposition to the security treaty had reinvigorated the extreme Right. Kenzaburō Ōe, for example, paid for "Seventeen" with nearly a year of isolation: the threats against his life kept him in his house and his friends away. And just one month after "Patriotism" and "Seventeen" had appeared there was yet another instance of rightist terrorism, an attempted assassination of the president of Chūōkōron Publishers. This time, perhaps ironically, it was Mishima's turn to suffer.
The Shimanaka Incident, as it came to be known, was provoked by a twelve-page story called "An Account of an Elegant Dream", which was published in the December 1960 issue of Chūōkōron magazine. The author, a singular man named Shichiro Fukazawa, was principally a guitarist and only incidentally a writer. In 1955, with encouragement from the director of a musical review in which he was appearing, Fukazawa had written a beautiful "folk tale" about the mountain to which young peasants carried their aging mothers to die and had won the first Chūōkōron Literary Prize for New Writers, hence his special relationship to that publisher. In the ensuing years he had maintained his double career as musician and novelist, and by 1960 he had a considerable reputation. In the story that caused so much trouble, the dreamer-narrator is transported to the Imperial Palace where he enthusiastically witnesses the execution of the Crown Prince [Akihito] and Princess Michiko at the hands of an angry populace (a revolution in progress) and then in an inner courtyard comes upon the "decapitated bodies" of the emperor and empress. There is no question that Fukazawa was radical in his sympathies. But considering the hysterical fury it elicited, his story was astonishingly benign, even childlike. The single line on which outrage was focused, quoted repeatedly, was "the severed head of the Crown Prince left his body and rolled along the ground bumpety-bump-bump."
«Shortly after the story appeared, the publisher was visited by seven representatives of rightist organizations [Uyoku Dantai — 右翼団体] who demanded that he apologize in the three major newspapers and that Fukazawa be "expelled" from Japan. Threats continued during December and January; the Great Japan Patriotic Party hired helicopters to scatter leaflets demanding that the Chūōkōron be "tried by the people and sentenced to death." On January 31, the party held a hate rally which was attended by over a thousand young fascists. Then, on the night of February 1, 1961, the inevitable happened. A young man named Komori — he was seventeen! — broke into the home of Chūōkōron's president Shimanaka, found him not at home, stabbed the family maid to death, and seriously wounded Shimanaka's wife*. [*Mishima condemned Komori for his attack on women. In 1968 he told a student audience: "Komori of the Chūōkōron Incident was bad business. The worst thing is attacking women and children. One of the splendid things about the young officers in the February 26 Rebellion was that they didn't harm any women or children."]      The incident was particularly terrifying because the Asanuma assassination was still so vivid in memory. Shimanaka immediately announced at a press conference that Chūōkōron had been wrong to publish Fukazawa's story and added that he had "reprimanded" the editor of the magazine and removed him from his post. The police, responding to demands from the Opposition that the police commissioner resign and that emergency measures be taken to quell rightist violence, began an immediate crackdown: arrests were made, rightist groups placed under surveillance, and bodyguards assigned to public figures considered likely targets.

On November 1, Mishima had left the country with Yoko on a trip around the world, the "real honeymoon" he had promised her as soon as [his latest novel] "Kyōko's House" [鏡子の家 — "Kyōko No Ie"] should be finished. When he returned to Japan on January 20, he learned of a widespread rumor that he was responsible for Fukazawa's story appearing in Chūōkōron because he had strongly recommended it to the editor. He denied this vehemently in print, declaring it was ridiculous to suppose that an established writer like Fukazawa, who was, moreover, the winner of the Chūōkōron Literary Prize, would require anyone to recommend his story to that publisher's magazine. He ended the brief disclaimer saying that "certain people" — meaning Shimanaka — were allowing the rumor to persist in hopes of saddling him with responsibility properly their own; it is a fact that Chūōkōron never publicly stated that Mishima had not recommended the Fukazawa story. Whatever the truth may have been — and it is not inconceivable that Mishima could have appreciated the story despite its irreverence — there was ample basis for the rumor, given the fanatics who spread it, in his association with the Chūōkōron and his well-publicized friendship with Fukazawa himself. Beginning in 1956, the year after Fukazawa had won it, Mishima had served annually as one of the three judges awarding the Chūōkōron Prize. (...)
«The rumor persisted, and beginning in the last week of January, Mishima received repeated threats against his life and his family. Then came the Shimanaka Incident. For several nights afterward Mishima patrolled his garden himself, Japanese sword in hand. Then the police assigned him a "bodyguard", who lived in the house and accompanied him wherever he went for the rest of February and half of March. (...)
«But, however frightening this encounter with reality may have been, terrorism — more properly, Mishima's notion of terrorism — retained its excitement in his imagination. The most immediate evidence of this was his major [theatre] play for 1961, written in the summer and performed in November on the twenty-fifth anniversary of the Bungaku-Za. "One Day Too Late" takes place sixteen years after the February Rebellion. The hero, then the Minister of Finance, has narrowly escaped assassination on that snowy dawn, and in escaping has lost an opportunity which will not present itself ever again ( the very opportunity the lieutenant in "Patriotism" seized). Ever since, the minister has survived in the "desolation of his spirit," a "living corpse" continuously rehearsing in memory that "moment of supreme glory". Every year on the anniversary of his escape, he his visited by his former chief maid and head butler, who join him in toasting the incident (...). The action of the play is essentially an attempt by the minister and his former maid to recreate the tension of that night and its glorious possibilities without the aid of the young rebels and their blazing guns. Inevitably, they fail. And the play implies that their failure is due to the engulfing and apparently unassailable peace of the postwar age. In a private, undramatic sense, peace is the villain of the play. It was no accident that Mishima specified the time in his stage directions as "1952, in other words, the year the Japan-U.S. Peace Treaty went into effect."
«"Kyōko's House" is evidence that Mishima was holding the postwar peace responsible for his difficulty in feeling alive as early as 1958. In "Patriotism" and "One Day Too Late" he represented terrorism as a "blissful" or a "glorious" alternative to peace. It was only a matter of time before he began to complain of peace in person instead of through a character in a novel. He first sounded the lament that was to be a leitmotif of his final years in August 1962, on the seventeenth anniversary of the surrender. His one-page article was called "These Seventeen Years of Warlessness" (the coinage is Mishima's):

«I can remember watching a movie during the war that had been made in peacetime and sighing at the sight of the Ginza all lit up with neon lights. But when I later found myself in an age of more neon than had ever been dreamed of, all I could think of was how easy it had been to live in a wartorn world and how painfully difficult it was to live in a world of peace. How arbitrary we are!
«When I imagine the three hundred years of Tokugawa peace and how tedious that must have been I am embarrassed as a Japanese to complain of boredom after a mere seventeen years.... But during that three hundred years the samurai [warrior] class, for all its corruption and overindulgence in sexual pleasure, maintained an artificial consciousness of peril which it seems to have employed as spiritual hygiene. But today, Bushido is 'passé'....»*


No demais, remeto-vos para a(s) obra(s) citada(s).

Boa Noite!








* In "Mishima, A Biography", John Nathan, Tuttle Publishing, Tokyo, 1975.











◉ ◉ ◉


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Quem sente a falta de um bom 'Jidai-Geki'?...


...Eu sinto. E por mais descabida que soe tal afirmação, vinda de alguém que vive no país dos samurai, dos bushi, e bem assim dos ronin e shinobi, da vasta filmografia desse cinema que, mais que qualquer outro media, contribuiu de modo determinante para a mitificação dessa nobre casta de imperturbáveis homens, leais combatentes de katana em riste, impávidos diante da Morte, serenos em face de perigos muitos, inabaláveis na sua lealdade ao feudo, ao seu Daimyo, seu estandarte ou à pobre gente sedenta de justiça num Japão medievo e cruel...

'Jidai Geki' [時代劇] — 'dramas históricos', numa tradução mais-que-livre da expressão —, 'chambara' (outro termo popular que deriva das elaboradas cenas de combate dentro do género) são, aqui, mais que muitos.
Clássicos de inegável mérito artístico, num longo catálogo de escolhas mui recomendáveis, quase invariavelmente, na vasta maioria dos casos, tendo por pano de fundo esse Japão arcaico dos Tokugawa, um tempo de 'pacificação' do Império insular dos Kami, onde, porém, devassidão, perfídia e intrigas de toda a ordem se multiplicavam como pragas sazonais, e, logo assim, o tecido e linha com que se cosem ou remendam estas histórias de capa e espada à moda da casa, dão vasto material a muito entertainment audio-visual.
Aqui, cobrem a programação televisiva, se não diariamente, numa cadência muito regular, da manhã ao serão em família e pela madrugada adentro — sofrendo, contudo, nos dias de hoje a curiosa concorrência do correspondente género 'made in Korea', mas nem por isso se pode dizer que seja hoje um estilo em declínio.

O certo é que, se bem que os clássicos são os clássicos, valendo o que valem — AQUI um exemplo de referência, AQUI outro, AQUI outro do além, AQUI outro ou outros revistos e revisitados até à exaustão, mais OUTRO aqui... (e queiram perdoar-me a publicidade inusitada à editora linkada em todos os casos, mas melhor não há, verdade seja dita) —, uma larga camada do comum 'Jidai Geki', em boa parte dos casos, entrelaçada em intrigas sobre-complexas, com intrincadas peripécias de permeio a laborar na trama essencial, teias familiares que quase requerem um especialista ao nosso lado para nos avivar a memória de quem é quem, e uma linguagem teatral, algo inacessível, em muitos casos enraizada na tradição do Kabuki — de onde aliás provieram um ou outro nomes sonantes do género —, não facilitam, em muitos e lamentáveis exemplos, o visionamento e apreciação destas obras, seja no formato longa-metragem ou das inúmeras séries televisivas que ainda hoje passam ora repassam no pequeno-ecrã nipónico.
Sucintamente: o 'Jidai Geki' nunca foi um género privilegiado como produto de exportação, mas concebido, isso sim, essencialmente para 'consumo da casa'.

De qualquer modo, trata-se de um género temático cuja produção em grande escala, tem vindo a sofrer a erosão dos tempos e dos gostos e tende a abrandar mais e mais com o passar das décadas.
Há uns oito, seis anos ainda tivemos um singelo e atípico "Tasogare Seibei", de Yamada Yoji — com a sempre auspiciosa presença de um Sanada Hiroyuki —, seguido de um certo "Kakushi Ken", do mesmo cineasta — e do qual não me recordo sequer de o ter visto passar, de soslaio que fosse, pelas salas europeias — filmes que, para todos os efeitos, se inscrevem na tradição estética/temática do 'Jidai Geki' e que sugeriam uma certa ambição de revitalização do estilo, mas que, não obstante todas as virtudes que lhes possamos reconhecer, parecem ter ficado pelas boas intenções e pouco mais que surtisse efeito.

Não obstante, o 67º Festival de Veneza, que decorreu há poucos dias, trouxe-nos o que, não sendo propriamente uma surpresa — trata-se de um remake, cujo original, de 1963, pela mão de Eiichi Kudo, permanece envolto num intocável estatuto de culto —, parece prometer trazer um novo fôlego ao 'chambara' de gosto clássico.



"Treze Assassinos" [十三人の刺客 — Ju'san Nin No Shikaku], de Miike Takashi, não terá vindo para fazer história na trilha da Sétima Arte Nipónica, mas terá a legítima ambição de agitar os nossos ânimos, e se não colheu galardões de pôr na montra, pelo menos colheu alguns (bem merecidos?) aplausos.
Trata-se da novíssima obra de um realizador celebrizado pelo 'gosto' gore, sanguinário, de "Audition" [オ—ティション, 1999] e "Ichi, The Killer" [殺し屋1, Koroshiya Ichi, 2001], filmes muito apreciados entre os 'fans' do género e que, por comparação com esta nova incursão pelo território do 'Jidai Geki', revela este um Miike num estado de humor sobremaneira mais soft.

História de um tiranicídio rocambolesco, "Ju'san Nin No Shikaku — Treze Assassinos", conduz-nos até ao Japão tardo-feudal do último quartel do Período Edo (Ano de 1844), momento em que a fulgurante ascensão no seio da corte dos Tokugawa de um perverso facínora, levam um escrupuloso dignatário do Bakufu a procurar auxílio com vista a uma solução 'drástica' da questão em causa.
A sua busca leva-o até Shimada Shinzaemon, um samurai de nomeada, homem temido nas lides do sabre e de elevada reputação. Hesitando de início, Shinzaemon é levado a aceitar a missão que o contratante lhe propõe, prestando-se a reunir, para o efeito, um pequeno e, não obstante, temível séquito de onze homens de armas de sua confiança, aos quais um décimo segundo vem a somar os seus préstimos, reunindo-se assim a força 'operacional' que dá título ao filme.

O pequeno exército liderado por Shinzaemon, prepara então uma elaborada cilada destinada a dar caça ao pérfido déspota, apanhando-o, bem assim como à sua escolta, de surpresa no curso de uma viagem que o mesmo irá empreender a breve trecho. Sucede que, face à aproximação do alvo e seu séquito, Shinzaemon e seus camaradas se apercebem que irão encontrar pela frente uma força adversária muito superior em número e em meios àquela que haviam antecipado aquando do planeamento da operação em curso, facto que leva os treze a ter que reconsiderar todo o plano de ataque ab initio.
Como é evidente, um ou outro elemento nesta história sugerem ser mais que meras reminiscências daquele que será reconhecidamente o maior feito de sempre no género (de resto não creio que haja um só 'Jidai Geki' feito desde então que não tenha ido lá beber da mesma fonte...), a meias com um óbvio paralelo com a ocidental epopeia dos Trezentos das Termópilas, 'musa' de inúmeras colheitas da mesma casta. Nada de mal.
Foi-se o tempo e o génio de Kurosawa, Kobayashi, Gosha ou Inagaki, foram-se também os inestimáveis talentos de lendas de fazer tremer a voz — Ichikawa Raizō VIII, Mifūne, Shintaro Katsu (o 'verdadeiro' Zatoichi) ou do seu irmão mais novo Tomisaburo Wakayama ('O Lobo Solitário' na celebrada adaptação cinematográfica do não menos lendário seinen manga homónimo da Kazuo Koike e Goseki Kojima, na década de 70), enquanto Tatsuya Nakadai goza hoje a tranquilidade da reforma...
Não é caso para desanimar. Ainda não tendo visto o filme que serve de mote a este escrito — estreia marcada para daqui a uns dias no país-natal —, quero crer que é a imprevisibibilidade própria de um filme desta natureza nas mãos de alguém como Miike Takashi e Jeremy Thomas, aliado a talentos hodiernos como Kōji Yakusho ou Tsuyoshi Ihara, aquele impulso que pode reanimar um género aparentemente moribundo — quem já esqueceu o estado em que estava o Western antes de Eastwood lhe dar uma valente massagem cardíaca? — e trazê-lo de novo e em força ao grande ecrã para gáudio de saudosistas como eu e de quem mais adora 'um bom filme de samurais'.

Este eu quero ver.