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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Da Euforia à Hecatombe (II)






Singapura conquistada, Fevereiro de 1942

  • Os Anos da Euforia (II.a)



计划*

"Ao optardes pela guerra, primeiro calculai-lhe os custos (...)
O fim último da guerra não é mais que a vitória.
Se est'última se atrasar, as armas perderão aprumo 
e o moral dos homens dissipar-se-á (...)
E ao avançar contra múltiplas cidades, a força dos exércitos dispersar-se-á.
Em guerras que se arrastam, os recursos comuns de um estado não hão de bastar.
Quando as armas perdem aprumo e o ardor dos homens esmorece,
quando as forças e os tesouros se esgotam,
outros estados na vizinhança cuidarão de tomar vantagem 
da vossa dificuldade em prosseguir.
E mesmo que vos precaveis pela prudência de sábios e leais conselheiros,
não haverá plano que heis de conduzir com sucesso 
e pelos tempos que se avizinhem.
E se heis de ver retumbantes vitórias em guerras breves,
 jamais as vereis em guerras que se arrastam.
Pois que nunca houve guerra que se arrastasse,
que estado, fosse ele qual fosse, dela colhesse proveito."






SUN TZU, "A Arte da Guerra" [孫子兵法], 
Capítulo II: "De Como Fazer A Guerra" [作戰]*   











   Antes que possamos prosseguir — e porque as imagens que estimulam o espírito de reflexão, uma vez destituídas da substância dos factos, se arriscam, assim, a promiscuir-se com a pornografia própria da crueza que lhes assiste, e, desse modo, a reduzir-se ao mero e indolente espectáculo da História feita entretenimento —, façamos então uma revisão da matéria dada.

     Para um país parco em recursos naturais necessários a uma industralização galopante, no início do último século, o controle político e militar de extensas áreas onde os mesmos abundassem, surgia como a opção óbvia para um Japão que, em menos de cinquenta anos, se promovera directamente, e num esforço sem paralelo na História, de sociedade feudal e atrasada a estado plenamente industrializado e na linha das grandes potências mundiais do seu tempo. 

   As grandes vitórias militares da Primeira Guerra Sino-Nipónica de 1894-95 e da Guerra Russo-Nipónica de 1904-1905 — guerras breves e categoricamente vencidas mediante três, quatro golpes certeiros e decisivos infligidos ao inimigo — haviam aberto as comportas de uma ambição maior e mais audaz, no sentido de uma indisfarçada expansão territorial no continente asiático e até onde os meios político-diplomáticos, militares e navais ao dispor do Império do Sol Nascente lhe permitissem estender a sua esfera de controle e influência. 

   As sementes da ideia de uma 'Grande Esfera de Co-prosperidade para a Ásia Oriental' (大東亜共栄圏, Dai'Tō-A Kyōeiken) — fórmula via de regra atribuída a Matsuoka Yosuke,  que  daria o leitmotiv para o ímpeto agressivo das décadas de 30 e inícios de 40,  e a seu tempo re-interpretado como pouco mais que um rebuscado eufemismo para um ambicioso império ultramarino a estender-se da Ásia-Pacífico ao Índico e sob as rédeas do Trono do Crisântemo — haviam, pois, sido semeadas em plena viragem do século, graças à espectacular ascensão do Japão de Meiji enquanto potência maior, militar e economicamente falando. 

   Já os avanços do Exército Kwantung (à revelia da vontade expressa de Tóquio em sentido inverso) sobre a Manchúria, a partir de 1928, e em plena guerra aberta (ainda que não declarada) com o regime Nacionalista de Chiang Kai'shek desde o Incidente de Mukden em Setembro de 1931, haviam, desde o seu início, se visto ensombrados pelo alvor de uma nova ordem mundial pós-Grande Guerra de 1914-18, que ao distante e distinto Japão impusera todo um quadro institucional inteiramente novo e agora notoriamente incompatível com as suas reivindicações expansionistas no continente Asiático — processo iniciado com o Acordo Lansing-Ishii de 1917, ainda em plena I Guerra Mundial, e a adesão ao Convénio da Liga das Nações de 1919 (em cujo texto os representantes do Japão, Makino e Chinda, insistiriam na inserção de uma cláusula que expressamente reconhecesse um princípio geral de igualdade racial entre povos, e paralelamente ao princípio/cláusula referente à igualdade religiosa, proposta esta  liminarmente rejeitada por Woodrow Wilson e a delegação Norte-Americana... — e prosseguido com as Conferências e Tratados Navais de Washington (1921-22, Tratado das Cinco Potências em particular) e Londres (1930), de permeio com o Pacto Kellogg-Briand (de 1928, que instituiria a noção jurídica do que viria a designar-se por Crimes contra a Paz), e os Tratados das Quatro e das Nove Potências (neste último, Portugal figurando como signatário e enquanto detentor de interesses específicos na China [Macau]).

      A crescente intransigência por parte das elites militares e políticas nipónicas em permitir que aquilo que agora denunciavam como uma 'intolerável e arrogante ingerência anglo-americana nos assuntos da Ásia', obstasse à legitimidade das suas ambições na Manchúria Interior — território vasto e pródigo em matérias-primas, e desde 1931 seccionada da grande China pelo Exército Kwantung, formalmente re-baptizado Manchukuo e confiado então a um governo fantoche nominalmente tutelado por um monarca na pessoa de Pu'Yi, o último Imperador da Dinastia Qing, a dinastia Manchu, última linhagem imperial a residir na Cidade Proibida, em Pequim, e a reinar sobre o Império do Meio, e até à proclamação da República da China em Janeiro de 1912 — arrastaria o Japão para o acumular das tensões internas e externas que desembocariam no processo conducente à Guerra do Pacífico

    O documentário que se segue, em cinco breves partes, resume, com louvável rigor e sem tomar partido ou aplaudir causas, assim me parece, os factos de maior relevância para uma compreensão sucinta dos termos que estenderam um conflito em particular opondo inicialmente o Japão à China, ao palco maior da II Guerra Mundial. Foi, salvo melhor opinião, a escolha apropriada.

   Da Grande Muralha a Rabaul e Guadalcanal, do Hawaii a Madagáscar — limite máximo do progresso militar Japonês, em 1942 —, os anos da euforia, das vitórias rápidas, porém inconclusivas, que arrastariam o Japão para uma cruel e agonizante guerra suicida contra os E.U.A, o Império Britânico, a França, a Holanda, ainda e sempre a China de Chiang e Mao, e ao cair do pano, last but not least, a U.R.S.S. ...

    À vossa apreciação.

   (... e a continuar)































*Do Mandarim arcaico  para 'Cálculo'
             — embora seja o Capítulo I da obra de referência atribuída a Sun Tzu, a ser via de regra interpretado como se tratando da parte referente ao tema da planificação da guerra (始计), é no Capítulo II que encontramos o segmento supra citado e a generalidade das considerações relativas ao planeamento do que hoje entendemos como a essência de uma economia de guerra.









◐ ◉ ◑



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Eterna Paz



Joe O'Donnell: 'Torched Airplanes', Fukuoka, 1945
Foto documentando uma queima, em grande escala, de aviões japoneses, enquanto parte do processo de desmilitarização geral do país, no imediato pós-derrota. A Base Aérea de Itazuke, onde esta fotografia foi tirada em finais de 1945, havia sido estabelecida dois anos antes e então adstrita ao Exército Imperial, que dela faria o principal centro de treinos dos seus Tokko'tai (esquadrilhas Kamikaze). O lugar é hoje o Aeroporto Internacional de Fukuoka, um dos principais centros de ligações aéreas do Japão ao continente asiático.

(Da Euforia à Hecatombe, I)

   No dia em que se assinalam 70 anos sobre o Shinshu'Wan Kogeki — 真珠湾攻撃, o ataque da aviação naval imperial de 7.12.1941 a Pearl Harbor, e como o mesmo é referido no Japão —,  mais do que reverter para as costumeiras evocações do antes, do porquê e do como — tudo potenciais presas fáceis de uma certa paranóia prodigalizada em múltiplas teorias conspiratórias e mitomanias que nos dias de hoje se reproduzem como coelhos em cativeiro e a propósito de tudo e mais alguma coisa —, afigura-se-me bem mais adequado convosco hoje partilhar uma mão-cheia de reflexões pessoais sobre o depois, e porque é bem mais esse depois que sobre o Japão de hoje ainda pesa, funesto, absoluto e intransigente, e mais que toda a restante memória histórica recente, e num tempo de mudança acelerada no cenário político e geo-estratégico da Ásia, a que assistimos hoje, impassíveis, pelo que urge, agora mais que nunca, agitar o debate — um debate que se quer sério, rigoroso e conclusivo.

   Foi em Setembro passado, se não me falha a memória, e, ao que creio, em jeito de antecipação da memória comum hoje invocada, que tive o privilégio de, em casa, um certo serão, visionar um documentário televisivo via NHK, onde a tragédia dos anos da Guerra se despia defronte das câmeras, com um despudor sem precedentes que aqui pudesse recordar a título de referência. 

   No dito programa, destacava-se uma impressionante colecção de testemunhos na primeira pessoa, saídos das bocas desses homens que a História do último século fez protagonistas à força de alguns dos mais medonhos episódios de desumanização em massa de que há memória, e como a imaginação comum de hoje mal consegue conceber algo assim ser possível. 

    Veteranos de Kokoda e Brigade Hill, combatentes das selvas da Nova Guiné — veneráveis idosos de hoje — e outrora destinados ao supremo sacrifício de defender até ao último homem posições desesperadas em território mais hostil que o próprio inimigo, meses e meses a fio cortados de abastecimentos e desprovidos dos mais elementares recursos necessários a uma sobrevivência condigna, assim entregues à inclemência da selva, do calor ardente dos trópicos, da doença e da fome, e tudo isto narrado num surpreendente registo em tom genericamente sereno e descomprometido, dissertando sobre o recurso à necrofagia e ao canibalismo como último expediente de sustento do corpo, num tempo de desespero e completo abandono do amanhã... 

  Os relatos sucediam-se numa cadência descritiva quase neutra, ainda que ponteada aqui e ali por sorrisos envergonhados, olhares cabisbaixos, silêncios agudos entre afirmações corroídas por emoções mal contidas, onde orgulho, mágoa e incredulidade se imiscuem e dissipam... Depoimentos de frente para a câmera, e sem trejeitos de língua, sem eufemismos, sem auto-comiseração.
   
   Um relato, porém, se destacava. Este, de rosto deliberadamente ocultado na penumbra das sombras de um quarto modesto, feito só da voz de quem, como uma arca de pesadelos que se abrisse à estupefacção geral, esgravatava o fundo da memória má e esmiuçava detalhes, detalhes de um horror inenarrável, e sem disfarçar a angústia do exumar da vergonha e da dor que se carrega uma vida inteira contra à vontade própria de quem ainda se afirma humano. E a voz concluía o seu depoimento com uma interrogação comovida e desarmante: "Que fui eu lá fazer?... Diga-me... Que fui eu lá fazer, miúdo de vinte anos, àquela selva?... Porquê passar o que ali passámos?... "

    O documentário prosseguia noite adentro, se bem me lembro, revisitando outros cenários, outras tragédias, outras más recordações desse tempo delas só feito, cápsula apertada de toda a dor de uma nação — a chacina de guarnições inteiras na defesa de cada frente indefensável, ilha a ilha, em vãs cargas de baioneta e sabre em riste, rechaçadas pela fria mecânica da metralha inimiga, o melhor da juventude de um país atirada em inúteis voos suicidas contra navios impávidos na arrogância da sua notória superioridade, a frente doméstica de '44-'45, o sofrimento jamais esquecido das populações civis, alvo das bombas de fósforo branco de Le May sobre Tokyo, Nagoya, Osaka, Kobe, Sasebo, Fukuoka, da tempestade de aço sobre Okinawa, da fúria atómica sobre Hiroshima e Nagasaki, e ainda a fome, a destruição, as labaredas a consumir casas, fábricas, escolas, templos, igrejas e hospitais, bairros inteiros; a orfandade de quem nunca entendeu o porquê de tanto sacrifício, tanta miséria, tanta devastação e tanta morte vã. 

      Um país inteiro, de milenar história e cultura, precipatado em menos de uma década para a sua quase-aniquilação total, eis o saldo final do aventureirismo belicista e inconsequente de um tempo hoje estranhamente distante.

    E ao fim e ao cabo, tudo se resume à incógnita dess'outro incógnito veterano da frente da Nova Guiné: "Que fomos NÓS lá fazer?... Porquê passar o que ali passámos?..."

    É impossível, pois, e face a tamanho mostruário de sacrifício apocalíptico, duvidar da genuinidade do pacifismo ainda dominante na sociedade nipónica de hoje, e ainda que a memória colectiva sofra a erosão, efeito da mudança dos ventos e marés da história mais recente, mormente quando o esporádico flectir do músculo militar de uma República Popular da China ou de uma Coreia do Norte ecoa o medo do esquecimento e da má ventura da guerra no horizonte.

  O pacifismo japonês enraizado na hecatombe de 1945 tem, portanto, mais-que-ampla razão de ser, e o anseio de Eterna Paz não peca, pois, por cinismo. Porém, e como em  Setembro de 2009, num artigo de opinião publicado então no Mainichi Shinbun e a propósito dos ecos do programa nuclear Norte-Coreano, nos recordava o Professor Iokibe Makoto, Presidente da Academia de Defesa Nacional do Japão, citando então Sun-Tzu: "Um país viciado na guerra aniquilar-se-á a si mesmo, mas um país que se esquece de como fazer a guerra será aniquilado por outros."


(A continuar)



太平洋戦争開戦ラジオ放送
(Anúncios radiofónicos à Nação, 1941-42)




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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tsar, ou o Inferno explicado às crianças




Царь-бомба — Tsar Bomba,
30.10.1961





   Assinalados 50 anos sobre a sua detonação ao largo da Baía de Mityushikha, Novaya Zemlya, Círculo Polar Ártico, a 30 de Outubro de 1961, hoje, e para memória futura, relembramos.


  Para que qualquer um de nós, comuns mortais, possa ter uma ideia da dimensão do poder destrutivo deste peculiar engenho do Juízo Final, bastar-lhe-á imaginar uma estrutura capaz de albergar cerca de 58 mega-toneladas de TNT, ou seja qualquer coisa com a altura e o diâmetro de base da Torre Eiffel...

      Recordemos ainda que o plano original para este brinquedo soviético era de o conceber com quase o dobro da referida potência explosiva — 100 mega-toneladas —, porém a sua concretização por esses valores revelar-se-ia inviável...

       Com a Tsar, a Guerra Fria atingia o seu auge, e com este o apogeu da capacidade auto-destrutiva da própria espécie humana... Algo de irrelevante, se for tomado em linha de conta que o relatório da comissão de análise do teste balístico de 30.10.1961 daria ogivas desta envergadura e poder destrutivo como impróprias para uso militar — afinal a intenção era só ver se conseguiam...



    ...E que a resposta Norte-Americana — após indignados protestos junto da Assembleia Geral das Nações Unidas, pela voz do seu então Embaixador Adlai Stevenson (VER: 2º vídeo que se segue) — resultaria nas Operações Dominic I e II: 105 bombas de hidrogénio e afins detonadas num espaço de pouco mais de seis meses — Abril a Novembro de 1962 —no Pacífico central e no Nevada Test Site, seguida de mais uma série de 48 ensaios, intitulada Operação Storax (1962-63)...  
    (Este breve compêndio audio-visual aqui trazido há uns meses poucos, permite visualizar melhor a troca de mimos...)






    Ainda acerca da Ivan, destacar que a mesma, ao que consta, teria dez vezes a capacidade destrutiva de todas as bombas usadas na II Guerra Mundial — uma pequena maravilha —, e de lá para cá o Mundo em que vivemos não parece ter merecido melhor atenção de quem possui ou pretende possuir caixas de Pandora como a Tsare ainda que a sua mais próxima sucedânea tenha, ao que consta, sido objecto de desactivação definitiva ainda a semana que passou: ambas as super-potências de há cinquenta anos somam juntas cerca de 10.000 ogivas estratégicas na sua posse (E.U.A.: 5021, Rússia: 4650), ao que cabe contabilizar ainda o somatória das das ditas potências menores (Grã-Bretanha, França, R.P. da China, Índia, Paquistão, República Popular Democrática da Coreia [do Norte], Israel [seguramente], e em breve a somar-lhe as da República Islâmica do Irão...)  





     Tempo ainda de recordar — e a fechar — o delirante humor negro de Stanley Kubrick pela voz desse inolvidável Doutor Merkwürdigliebe (o génio de um século de comédia, Peter Sellers de seu nome, no papel de uma vida a somar a mais dois na mesma película de 1964, inspirada nos eventos acima descritos), e a sua elucidativa explicação de uma certa 'Doomsday Machine' — provavelmente a melhor caricatura alguma vez concebida do mais absurdo e absoluto horror ali mesmo à nossa porta.













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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Adeus aos F-2 — Crónicas da Nova Guerra Fria (III)

Mitsubishi F-2


          Foram 18, ao todo, os que a fúria do Tsunami de 11.03 arrastou da Base Aérea de Matsushima, Prefeitura de Miyagi, Tōhoku, casa da 21ª Esquadra da JASDF, para uma  morte prematura, dos ditos se aproveitando somente seis, com custos de reparações orçados em cerca de 80 biliões de ¥enes, e pouco mais sobrando dos restantes 12 aparelhos relegados para sucata — por puro milagre não sofreram, no mesmo dia, igual destino, os Kawasaki T-4 da Blue Impulse, Esquadrilha Acrobática da JASDF, que na hora da tragédia se encontravam em missão de treino para uma exibição a realizar-se no dia seguinte, Sábado 12.03, precisamente aqui em Hakata, e com o fito de engalanar a cerimónia oficial de inauguração da nova linha de alta-velocidade do Kyūshū-Shinkansen, coisa que jamais esquecerei depois de os ter visto pela manhã cedo desse fatídico dia, da varanda de minha casa...

         O certo é que Governo e Mitsubishi Heavy Industries (MHI) já haviam chegado a acordo quanto ao fim da produção desta conhecida versão 'niponizada' do mais globalizado F-16 Falcon, a serviço em exclusivo na JASDF, e o respectivo anúncio foi feito esta semana com direito a cerimónia com a devida pompa e circunstância.  



Protótipo do futuro Mitsubishi ATD-X, 5th Generation Stealth Fighter, com operacionalidade prevista para 2014-2016.

        Com um novo (des)equilíbrio estratégico a dar mostras de si no horizonte, e não apenas no que ao Extremo-Oriente respeita, o Japão começa a perceber que não pode ficar para trás face à implacável corrida aos armamentos a que vimos assistindo um pouco por toda a parte e contra as mais optimistas arengas dos profetas do Fim da História de há 20 anos atrás. E enquanto os aguardados ATD-X, state-of-the-art da indústria militar nipónica, igualmente a cargo da omnipotente MHI, não chegam — e já se fala em adiamentos para 2016... —, novas opções parecem estar a caminhoEscolhas não faltam.


         Longe vão os tempos em que o Senador Norte-Americano Paul Tsongas proclamava alto e bom som "The Cold War is over: Japan won."
           A Nova Guerra Fria hoje em curso está ainda longe de poder ser ganha pelos bons...


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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Memória ausente

Soldado do Exército Kwantung — Força Expedicionária Imperial na China— em patrulha na Grande Muralha sob controlo militar Japonês, 1937. 
Com a  Trégua de Tanggu (31.05.1933) e após dois anos de guerra não-declarada, iniciada com o Incidente de Mukden em Setembro de 1931, o Exército Imperial assumia o controle do maior símbolo nacional Chinês.
(Foto da extraordinária colecção Atlantic)
            


         Foi por esta semana que ora finda, que se assinalaram 80 anos sobre o "Incidente de Mukden" (満州事変 — 'Manshu Jihen', em Japonês — 18.09.1931), a insidiosa operação militar com vista à ocupação (libertação, chamar-lhe-ão ainda algumas vozes teimosamente recalcitrantes...) da Manchúria, posteriormente rebaptizada Manchu'kuo

Mukden, 18 - 23.09.1931


         Operação militar meticulosamente planeada e executada por dois oficiais superiores do Exército Kwantung  — a força expedicionária, desde o final da Guerra Russo-Nipónica de 1904-1905, instalada no Norte da China e a pretexto de garantir protecção aos interesses económicos e às comunidades nipónicas locais —, Ishiwara Kanji e Itagaki Seishirō, e levada a cabo, ao que hoje sabemos, à revelia do Governo de Shōwa, não obstante, os seus efeitos seriam, enquanto fait accompli, sancionados pelo Imperador Hirohito e seus ministros, sendo os próprios Ishiwara e Itagaki, inicialmente objecto de uma reprimenda formal por parte de Tóquio, posteriormente louvados como heróis pela imprensa japonesa, forças armadas e governo e rapidamente promovidos na hierarquia e logo indigitados em cargos de superior responsabilidade... na China...

        

Parte 1 de um documentário televisivo sobre a história de Mukden, em Japonês, e para os mais interessados — o remanescente nas partes 2 e 3.
 
       Por cá e por estes dias, desta efeméride, nem uma nota de roda-pé num jornal, nem uma crónica que se lesse num site de referência, nada, zero.
         Normal que não haja  lugar a 'festejos', sobretudo por cá.
     Porém, e não sem nota digna de apreço, Mukden e os eventos desencadeados a 18 de Setembro de 1931, continuam a ser, por muitos, encarados como o primeiro dos preâmbulos do conflito que oito anos mais tarde tomaria a escala mundial, e sendo certo que em Setembro de 1931 ainda estávamos longe da inenarrável orgia de atrocidades que seis anos volvidos e com o estender da guerra à generalidade do território Chinês, o mundo viria a conhecer, horrorizado, certo é que Mukden não deveria ser esquecido, ainda para mais num tempo em que a sociedade japonesa e os media se preparam já para, em Dezembro, assinalar os 70 anos de um outro evento bem mais presente na memória de todos...


Já na China, o 18.09.1931 ninguém esquece. Jamais...




九・一八



terça-feira, 16 de agosto de 2011

Lembrar os Mortos




Foto: MAINICHI SHINBUN [毎日新聞]
Tóquio, Budokan, 15.8.2011





   15.8, Cerimónia pelos Mártires presidida por Suas Majestades, o Ten'Ō Akihito e a Imperatriz Michiko.


    Saldo da Guerra para o Japão a 15 de Agosto de 1945: cerca de 3 milhões de mortos.









   

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terça-feira, 9 de agosto de 2011

9.8 — Nagasaki: Três Irmãos

Joe O'Donnell, "Japan 1945 — A U.S. Marine's Photographs from Ground Zero"


"As I approached the outskirts of Ground Zero, I came upon these three children. The oldest child was pushing the other ones on this makeshift cart. They stopped and looked at me, uncertain as to what I might do. I gave the oldest one an apple, he bit into it,then passed it to the next child. At once, a swarm of flies descended on the apple, but the children shared the apple in solemn silence, oblivious to the flies flying in and out of their mouths."



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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

2053








      Não Caríssimos. Não se trata de um exercício de futurologia ou do título de uma qualquer novela de antecipação ou cine-odisseia sci-fi.

     O título que dá mote a este breve escrito — e por referência à obra videográfica que hoje vos proponho [☝] — alude, contrariamente ao que possa sugerir, a um passado bem recente e ainda bem presente, e ainda que obscurecido pelo incómodo do tema de má-memória que lhe dá forma e conteúdo, e que, de um modo geral, todos aprendemos de um modo ou de outro a arrumar numa arrecadação poeirenta da nossa consciência tão individual quanto colectiva — e partindo do princípio (muito discutível, é certo) de que a humanidade ou uma parte significativa desta, partilha de uma consciência moral dita colectiva, isto é, de uma percepção geral e amplamente disseminada do que é moralmente certo e do que é errado, do que é razoável e do que é absurdo, independentemente de variáveis e dissensões entre credos religiosos, político-ideológicos ou de outra natureza.

     O número 2053 hoje aqui proposto — número gordo, número feio…— não é mais nem menos que o número total de explosões nucleares documentadas e contabilizadas entre 1945 — ano da detonação do primeiro engenho balístico nuclear, o ensaio Trinity no deserto do Novo México, em Julho do último ano da II Guerra Mundial — e 1998, e por iniciativa e responsabilidade de pelo menos 7 potências.  

    E ainda que a dança macabra do nuclear ao serviço da destruição em grande escala esteja  longe do fim, é a reflectir sobre este incómodo tema que se nos dirige o convite do artista Japonês Hashimoto Isao (n. 1959), sem música e a um ritmo trôpego e por demais monótono (tão trôpego e monótono quanto o será qualquer discurso que pretenda justificar o injustificável), assim possais dar pouco menos de um quarto de hora do vosso precioso tempo a esta tão simples quão extraordinária obra. 
    
    Um convite ao qual, e em véspera de recordarmos o inferno de Hiroshima, hoje faço eco.






"shame on us, for all we have done..."






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quinta-feira, 31 de março de 2011

"Beware the Ides of March" — Ontem como hoje...










   ㊤

      Os números do "Tōkyo Daikūshū" [東京大空襲]: 267.000 edifícios consumidos pelas chamas (~25% da capital Nipónica à época), mais de 100.000 mortos [e até ao dia da rendição, a 15 de Agosto desse ano, só Tóquio seria 'visitada' por mais 11 raides de grande envergadura... ] — o número total de vítimas dos bombardeamentos com recurso a 'clusters' incendiários um pouco por todo Japão nos últimos 6 meses da II Guerra Mundial, ultrapassa o meio-milhão...




        Rikuzentakata [陸前高田市], Prefeitura de Iwate [岩手県] e Minamisanriku [南三陸区], Prefeitura de Miyagi [宮城県], 11 de Março de 2011: 11,417 mortos confirmados, 16,290 desaparecidos, 2872 feridos, mais de 125.000 habitações e outros edifícios destruídos ou danificados por toda a região de Tōhoku [東北地方]...  






     O Povo de Yamato bem que poderia reclamar como sua e re-interpretar essa inauspiciosa interpelação shakespeareana, posta na boca do vidente que se dirige a César  — "Beware the Ides of March", posto que os ditos Idos coincidiriam, nos antigos calendários romanos, com o dia 15, e não com o 11 deste mês.  

    Aquilo que importa, porém, reter desta (aparentemente) inusitada comparação de imagens e números é o facto de que, em ambos os casos, a Nação Nipónica não se deixou abater, prontificando-se de imediato a recomeçar do zero aquilo que o Destino e os Deuses lhe sacrificaram — que nem Destino, nem Deus algum, trava a força indómita desta gente. 
      E, em qualquer recurso, as condições de recomeço há 66 anos atrás eram bem mais severas que as de hoje...







"Goodbye Blue Sky"


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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

SEKIGAHARA — 関ヶ原








21.10.1600

   Certamente a mais importante batalha da História do Japão, na qual os 'Teppo-Tai' haveriam de desempenhar um papel determinante no respectivo desfecho e na consequente unificação final do Dai Nippon*, com a assunção do poder shogunal por Ieyasu [家康] e seus partidários


    A campanha opondo o exército dito Ocidental, liderado por Ishida Mitsunari [石田三成], 'leal' ao Taikō [太閤] Hideyori [豊臣秀頼], à época uma criança de sete anos de idade, filho e herdeiro de Toyotomi Hideyoshi [豊臣秀吉], às forças Orientais de Ieyasu e seus aliados, assistiria a uma das mais extraordinárias e inesperadas manobras militares alguma vez empreendidas por um estratego em pleno campo de batalha a testemunhar pela História, uma que pertence hoje ao domínio do lendário.  
    Uma só decisão aparentemente tomada  em desespero de causa por parte de Ieyasu, no sentido de, num lance de última hora, persuadir uma terceira força em campo a tomar o seu partido — a poderosa força de quinze mil bushi de Kobayakawa Hideyaki [小早川秀秋], sobrinho de Hideyoshi e primo do  'príncipezinho' Hideyori, o qual hesitando entre a lealdade ao seu Clã e ess'outra devida ao homem que em tempos intercedera em seu favor, salvando-lhe a vida, assistia, pusilânime e do alto de uma colina numa posição de crucial vantagem para a força que colhesse o seu partido, ao decorrer da batalha num amargurado impasse...—, de per si e enquanto clímax desta formidável epopeia, merece a nossa melhor atenção e reflexão...

(clicar nas imagens para uma melhor apreciação das mesmas)















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      Em APÉNDICE: deixo-vos, já aí abaixo, uma curiosa tele-encenação acompanhada de uma explicação sucinta da ordem de batalha, produção da casa, em 4 (+ 3) PARTES — sem legendas (... eu sei... assim fica terrivelmente difícil de seguir, para a larga maioria de vós que não possui quaisquer  conhecimentos de Japonês). Em todo o caso, esta tele/cine-recriação da gesta heróica de Sekigahara é, apesar de tudo, um pouco mais recomendável que aquela da BBC (um selo de qualidade [???]... Valha-me Deus!...) linkada acima e em versão completa no 'post' precedente — onde os actores 'primam' pelo seu irrepreensível sotaque californiano, e onde surgem afirmações como "o arcabuz introduzido por missionários jesuítas(...)" (???)  [já agora, pretendiam referir-se a quem, exactamente?? e esses gentis padres mundanais eram originários de onde?? — ...de facto... é mau demais para receber a chancela BBC e ainda calhar aqui, mas pronto... sempre é passível de pôr esta interessante história  mais acessível e ao alcance de todos nós e, tirando essas questões de detalhe por mim 'mesquinhamente' assinaladas, a coisa lá passa. Daí o 'link'  acima ficar]
    


❖  壱  ❖

   Para melhor seguirdes a acção tal qual apresentada na peça que se segue, já aí abaixo ☟, identificando simultaneamente alguns dos personagens mais relevantes nesta história, o vosso incansável NanBan deixa-vos aqui, de bom grado, umas quantas coordenadas que, assim espera, possam ajudar a uma melhor compreensão desta empreitada: 


   


     Nesta 1ª parte, é-nos, de início, apresentada a disposição das tropas concentradas no vale de Sekigahara, sendo as forças Ocidentais de Ishida e Konishi, representadas a azul, figurando as forças leais a Ieyasu — Exército Oriental — a rosa.   
      Assim temos:

        Forças Ocidentais, comandadas por Ishida Mitsunari

        Forças Orientais sob o comando de Tokugawa Ieyasu

   Adiante surgem, em marcha, conduzindo as respectivas forças à concentração de tropas, alguns dos principais Daimyo aliados a Ieyasu: aos 2:26", Fukushima Masanori [福島正則], Daimyo (Senhor) de Imaharu, seguido de Kuroda Nagamasa [黒田長政], Senhor de Fukuoka, aos 2:44",  e Tōdō Takatora [藤堂高虎], Senhror do 'Han' [藩] de Osu, aos 3:10". 
    O personagem de Ieyasu é, aqui e desde logo, evidente...


❖ 弐 ❖   


    Surge, em seguida, o personagem de Matsudaira Tadayoshi [松平忠吉 ], o quarto filho de Ieyasu, contando, à data de Sekigahara, a idade de vinte anos e sendo-lhe então confiado o comando de uma força de três mil homens.


    Dá-se o iníco da batalha: a força do jovem Matsudaira — que, não obstante o apelido diferenciado, enverga o Mon [紋 — 'emblema' ou 'brasão'] dos Tokugawa, o Clã de seu pai — abre as hostilidades com um ataque dos seus Teppo-Tai à Força Ocidental de Ukita Hideie [宇喜田秀家].


    
❖ 参 ❖


     Esta terceira parte, mostra-nos os personagens de Ōtani Yoshitsugu [大谷吉継] — consumido pela lepra,  leal a Ishida — e novamente Tōdō Takatora [0:08] ao serviço das forças Orientais
     As forças de Ōtani e Takatora [0:08] carregam então em simultâneo, uma sobre a outra, quando surge a força de Kyōgoku Takatomo [京極高知], irmão mais novo de Kyōgoku Takatsugu [京極高次], ambos alinhados com Ieyasu.


      Na fase final da batalha, a infantaria de Kuroda Nagamasa [黒田長政], em conjugação com as forças de Hosokawa Tadaoki [細川忠興] investe sobre a formação comandada pelo próprio Ishida Mitsunari [石田三成] — comandante-em-chefe das Forças Ocidentais — cujas linhas são guardadas pelos respectivos Teppo-Tai (arcabuzeiros), vindo a sua infantaria a sofrer pesadas baixas sob as flechas de Hosokawa. Prepara-se a entrada em batalha do poderoso  exército sob o comando de Ii Naomasa [井伊直政], um dos quatro 'Tokugawa Shitennō' [徳川四天王 — "os Quatro Senhores do Céu de Tokugawa"], quarteto de generais nos quais Ieyasu depositava a sua máxima confiança e o comando das suas melhores tropas. 
       Shimazu Yoshihiro [島津義弘] — Daimyo de Satsuma, segundo filho de Takahisa [島津貴久], o primeiro Senhor Feudal do Japão a contactar os NanBan e o primeiro a conceber uma formação de Teppo-Tai na História Militar do Japão — e o seu sobrinho Shimazu Toyohisa [島津豊久], cujo alinhamento a seu lado era esperado por Ieyasu, surgem aos 2:46" e 2:55", respectivamente. 
      Na sequência da tomada do Castelo de Fushimi pelas forças de Mitsunari em Setembro do mesmo ano, os Senhores de Satsuma — actual Prefeitura de Kagoshima — haviam reconsiderado a sua posição e optado por alinhar então com as Forças Ocidentais. Contudo Shimazu Yoshihiro também não morria de amores por Mitsunari, que se recusava a ouvir quaisquer sugestões proferidas de sua boca, e durante a batalha limitar-se-ia a segurar o seu próprio terreno, recusando-se a seguir quaisquer instruções ou ordens recebidas do próprio Mitsunari... 



❖ 捌 ❖

     Nestes três outros clips, versão 'extended', apreciamos ainda os personagens de Hideyaki [小早川秀秋], o timorato sobrinho de Hideyoshi em conferência com os seus generais Ōtani Yoshitsugu [大谷吉継] — o leproso de Mitsunari e havendo recebido a última missiva deste, transmitindo as suas instruções para a batalha — e novamente a marcha, a caminho de Sekigahara, de  Fukushima Masanori [福島正則], Kuroda Nagamasa [黒田長政],  Tōdō Takatora [藤堂高虎] e  Kyōgoku Takatsugu [京極高次], todos ao serviço das Forças Orientais de Ieyasu





    Com a batalha num impasse, e face ao posicionamento, favorável aos Ocidentais, no terreno, ameaçando fazer pender a sorte da contenda a favor de Mitsunari,   Ieyasu, num acto sem precedentes e desafiando toda a experiência de senso comum, decide provocar o indeciso Hideyaki [小早川秀秋] obrigando-o a tomar partido e a empenhar as suas forças em combate... 








*literalmente 'Grande Japão'